Tem um camarada que frequenta o mesmo grupo que eu da irmandade. Marrentão, cara de poucos amigos, mal-humorado… Tudo fachada. Eu logo passei a gostar dele. Tanto que o chamo de meu Malvado Favorito. Outro dia, um sábado, ele fez uma partilha emocionante. Falou de sua batalha contra a dependência química e contou que naquele dia havia recebido a notícia de que não estava com câncer, como acreditara a semana toda.
É que esse companheiro passou por uma cirurgia semanas atrás, retirou parte de um rim. A biópsia teria indicado indícios de tumor maligno. Mas a coisa acabou tendo uma reviravolta. E a notícia de ruim passou para ótima. Em determinado momento, meu Malvado Favorito lembrou uma máxima muito repetida na irmandade, a de que usar drogas dá azar. São centenas, milhares, milhões de relatos de pessoas que contam como tiveram dissabores e passaram por situações ruins, péssimas, horríveis que nem eram somente por causa do uso da droga. Mas a energia ruim costumava ser atraída o tempo todo.
Meu Malvado Favorito tem seguido muito fielmente os conselhos que são dados na irmandade. Não à toa consegue se manter limpo dia após dia. Encontro com ele quase sempre nas reuniões. Em vários grupos diferentes. Volta e meia estamos na porta fumando um cigarro. Ele também fuma Camel.
Pois bem. Eis que na segunda-feira, esse companheiro me avisa, antes da reunião: “Se prepara pra minha partilha de hoje!”. Quando ele começa a falar, conta da história de que sempre desconfiou ter um filho, mas não tinha como confirmar. A mãe do menino, hoje um homem de quase 40 anos, tinha um envolvimento amoroso com um sujeito, digamos, perigoso. Muito perigoso. Que inclusive veio a morrer da forma violenta como sempre viveu. Meu Malvado Favorito nunca tirou essa dúvida sobre a paternidade.
Isso até que, no domingo, o rapaz, depois de uma troca de mensagens, apareceu na casa dele. A ponte foi feita por uma das filhas do camarada da minha irmandade, que sempre ouviu falar da história e resolveu agir. Parece que o sujeito é a cara dele. Conversaram, comeram churrasco. Se deram bem. Combinaram de fazer um exame de DNA e tirar isso a limpo. Ele está muito feliz em talvez ser pai de menino. Agora homem. Mas, pra quem é pai, vai ser sempre menino. Ficamos todos felizes por ele também.
Até que em outra partilha, no outro dia, meu Malvado Favorito vem falando da maré de sorte, que atribui ao fato de não estar usando drogas, e conta que resolveu testar uma air fryer que estava encostada, que ele achou ter algum defeito. A bicha foi ligada na tomada e funcionou. Quando ele contou isso, quase caí pra trás. Que vontade de dar um tapa na orelha dele!
Depois de duas histórias fantásticas, ele me vem botar uma air fryer no meio de relatos tão edificantes? Ora vá… Mas tudo bem. O importante é que ele está feliz. E não usar drogas vem dando uma sorte danada. Só por hoje!



























































