A Polícia Federal aponta que o desembargador Guaraci de Campos Vianna teve despesas pessoais custeadas por uma estrutura ligada ao entorno econômico da Refit em troca de decisões judiciais favoráveis. Entre os gastos identificados estão o aluguel de um Jeep Compass, honorários advocatícios milionários e R$ 71 mil em despesas relacionadas a um procedimento cardíaco no hospital particular Copa Star.
A investigação chegou aos pagamentos após analisar o celular de Guaraci, que foi apreendido na primeira fase da Operação Sem Refino em maio deste ano. A PF diz ter encontrado conversas e documentos que indicam o uso de terceiros e empresas relacionadas a pessoas que orbitavam economicamente a Refit para financiar despesas pessoais do desembargador.
E o vínculo com a atuação do desembargador em processos envolvendo a refinaria aparece expressamente no documento divulgado pelo Supremo Tribunal Federal nesta quinta-feira (03).
Honorários milionários para defesa de Guaraci no CNJ seriam pagos por ‘advogado da refinaria’
Na análise do telefone de Guaraci, a PF encontrou uma conversa de 7 de abril na qual o desembargador, afastado do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) desde março por suspeitas sobre sua atuação em processos envolvendo a Refit, discutia alternativas de advogados para sua defesa. O afastamento foi determinado pela Corregedoria Nacional de Justiça após a identificação interna de indícios de decisões irregulares em um processo de recuperação judicial da refinaria.
Na conversa, o desembargador e uma interlocutora identificada como Ana Carolina discutiam nomes de advogados e escritórios para assumir a defesa do desembargador, incluindo profissionais cujos honorários custariam até R$ 4 milhões.
O magistrado afirmou que “o adv. da Refinaria ainda não respondeu se irá ou não pagar os honorários do advogado escolhido”. Ainda segundo a PF, Guaraci sugeriu que os recursos fossem depositados na conta da 7 Pilares e que o contrato com o escritório fosse formalizado pela empresa.

Ana Carolina Godinho Motta Miranda e Maurício Castro de Jesus Leite são sócios na empresa 7 Pilares Assessoria, que aparece na investigação da PF como intermediária em pagamentos relacionados a Guaraci e a Refit.
Empresa também pagava aluguel de Jeep usado pelo desembargador
Durante as buscas, a PF encontrou um Jeep Compass Sport Turbo na garagem do imóvel de Guaraci. Segundo o relatório, a esposa do desembargador confirmou que o veículo era utilizado exclusivamente por ele.
A corporação procurou a empresa responsável pela locação e identificou que o carro havia sido alugado pela empresa 7 Pilares. O contrato tinha valor global de R$ 12.102,40.
Em abril, quando o contrato estava perto do fim, Guaraci e Ana Carolina voltaram a conversar sobre a renovação do aluguel. Segundo a PF, o desembargador afirmou que esperava que aquela fosse “a última renovação”.
R$ 71 mil em despesas médicas no Copa Star
A PF também identificou pagamentos de despesas médicas do desembargador feitos após transferências de recursos de Maurício Castro para a conta do desembargador. Em 27 de abril, Guaraci enviou ao homem um documento chamado “Relatório de Honorários”, referente a procedimentos médicos cardíacos realizados em seu nome, no valor de R$ 52 mil. Logo depois, perguntou: “Tem como transferir 40?”.
Segundo a investigação, Maurício fez a transferência e, em seguida, Guaraci realizou o pagamento de R$ 52 mil a partir de sua própria conta. O desembargador também encaminhou os dados bancários de duas empresas responsáveis por serviços de anestesia, solicitando transferências de R$ 9,5 mil para cada uma, totalizando R$ 19 mil.
Após receber os comprovantes, o empresário respondeu ao desembargador: “Poxa irmão, nem deu tempo de esquentar na sua conta rsrs”. Para a PF, as conversas revelam a transferência de recursos utilizados para custear despesas médicas pessoais do desembargador.
Na conclusão da análise, a Polícia Federal afirma que a empresa 7 Pilares aparece reiteradamente como “instrumento de suporte financeiro ao investigado” e aponta um padrão de “financiamento indireto de despesas privadas”, mediante a utilização de terceiros e empresas relacionadas a pessoas ligadas ao universo econômico da Refit. Para a PF, essa dinâmica, associada à atuação jurídica favorável anteriormente identificada, é um forte indicativo de mecanismos de dissimulação da origem e do destino dos recursos em benefício do desembargador.
A Procuradoria-Geral da República também relaciona diretamente os pagamentos à refinaria. Segundo a Procuradoria, Ana Carolina Godinho Miranda e Maurício Castro funcionavam como “elo de repasse financeiro entre os benefícios concedidos pela Refit e o desembargador Guaraci de Campos Vianna”.























































