O povo está usando inteligência artificial em qualquer texto — ou, de tão habituada com a nova linguagem (cheia de clichês, é verdade), já está escrevendo como os robôs da IA? Para quem atravessou décadas lendo apenas no impresso — como esta que vos digita — a dúvida hoje permeia quase qualquer leitura. Ainda como se dizia na época do impresso: o que veio primeiro, o ovo ou a galinha?
Afinal, a inteligência artificial já escreve discursos, resume relatórios, organiza planilhas e faz cálculos em poucos segundos. Seria estranho imaginar que ela passaria longe justamente dos planos de governo, documentos que exigem pesquisa, organização de dados e propostas para praticamente todas as áreas da administração pública.
Mas será que os nossos aspirantes pediram à IA que fizesse os seus planos de governo — ou os redatores de campanha já escrevem como robôs?
Para procurar sinais de participação digital, analisamos os planos de governo de André Marinho, Anthony Garotinho, William Siri, Coronel Busnello, Douglas Ruas, Eduardo Paes e Cyro Garcia. A apuração não teve como objetivo carimbar os documentos como “escritos por robôs”, mas identificar características compatíveis com o uso de ferramentas de inteligência artificial.
E aqui cabe a ressalva mais importante: não existe, atualmente, um detector capaz de determinar com certeza quanto de um texto foi produzido por IA. O próprio classificador lançado pela OpenAI acabou retirado do ar por sua baixa precisão. Nos testes divulgados pela empresa, ele identificava apenas 26% dos textos produzidos por IA e classificava incorretamente 9% dos textos humanos como sintéticos.
Em português, a margem de erro pode ser ainda maior.
Por isso, trabalhamos com um “Índice de Autoria Sintética”, o IAS. O índice vai de zero a cem, mas não representa literalmente a porcentagem de palavras escritas por uma máquina. Um resultado de 82 pontos, por exemplo, não significa que 82% do documento tenha sido feito pelo ChatGPT. Significa apenas que aquele plano acumulou mais sinais normalmente associados à geração ou expansão de textos por IA.
Como a análise foi realizada
A primeira etapa foi quase um serviço de cartório: conferir, identificar e organizar os documentos. Depois disso, foram retirados sumários, cabeçalhos, rodapés, números de página e outros elementos que poderiam distorcer a contagem. O foco ficou no conteúdo propriamente dito.
A análise estatística observou o tamanho das frases, a variação entre períodos curtos e longos, a diversidade do vocabulário, a repetição de expressões e estruturas, a quantidade de números e a presença de referências específicas ao Rio de Janeiro.
Textos produzidos por inteligência artificial costumam ser muito organizados, previsíveis e simétricos. É comum apresentarem sucessivas listas com verbos como “promover”, “garantir”, “fortalecer”, “implementar” e “assegurar”. Também aparecem com frequência frases que parecem corretas e bem acabadas, mas dizem pouco sobre prazos, custos, responsáveis e meios concretos de execução.
Em seguida, foi feita uma leitura humana dos trechos que receberam as maiores pontuações. Essa revisão foi fundamental porque um plano de governo, por sua própria natureza, já usa linguagem repetitiva e burocrática. Uma lista com dezenas de propostas começando por “garantir” não é, isoladamente, prova de que alguém apertou um botão e pediu: “ChatGPT, faça um programa eleitoral”.
Também foram considerados fatores que diminuem a suspeita, como referências a leis específicas, instituições estaduais, municípios, bairros, equipamentos públicos, números verificáveis e posições políticas próprias do candidato ou do partido.
Quem apresentou mais indícios de inteligência artificial
Pelo IAS, o plano de governo mais recente de André Marinho, enviado à Justiça Eleitoral em agosto, tem 68% de sinais compatíveis com geração ou expansão assistida por inteligência artificial, com confiança de 88%.
De acordo com a análise, o plano do candidato do Novo não teria sido integralmente automatizado nem consiste em puro trabalho humano. Tudo indica tratar-se de um documento de autoria híbrida. As diretrizes políticas, o vocabulário retórico de campanha e os dados contextuais locais do Rio de Janeiro teriam sido fornecidos por assessoria técnica e pelo próprio candidato. Mas a redação, a paralelização de argumentos e o balanceamento sintático foram estruturados por modelos de linguagem (IA Generativa).
Entre os indícios, o uso massivo e repetitivo de paralelismos retóricos característicos de prompts instrucionais como reset, ruptura, renovação; frases prontas como “A bússola aponta; o corpo caminha” e “Quem pula o reset constrói na areia”. Há também um vocabulário genérico característico de IA em termos como “ativo estratégico”, “arquipélago vs. sistema”, “orquestra e não barulho”, “engenharia de cinco frentes”, “janela de oportunidade”.
Mas dá para dizer que melhorou. O texto anterior registrado em nome de Marinho — que o candidato explicou ser apenas um plano de governo provisário — alcançou 82 pontos no IAS.
Plano de Garotinho tem quase 400 páginas
O plano de Anthony Garotinho também alcançou 68 pontos pelo IAS. O documento chama atenção pelas 386 páginas e por cerca de 59 mil palavras. Ele apresenta grande quantidade de propostas específicas, mas também dezenas de blocos montados segundo estruturas muito semelhantes, normalmente com nome do programa, objetivo, lista de ações e uma justificativa completa.
Uma estrutura clássica da Inteligência Artificial.
O segundo pelotão nos sinais de automatização
Na faixa intermediária ficaram os planos de William Siri e do PSOL, com 47 pontos; Coronel Busnello, com 46; e Douglas Ruas, com 44. Nesses casos, a linguagem técnica e as listas padronizadas aumentaram a pontuação.
Mas a presença de propostas locais, referências administrativas e identidade política própria impediu uma conclusão mais firme.
Programa de Paes tem apenas oito páginas
O plano de Eduardo Paes recebeu 37 pontos. Com apenas oito páginas e aproximadamente duas mil palavras, é o documento mais curto da amostra, o que reduz a confiabilidade estatística da análise.
O programa de Cyro Garcia, do PSTU, apresentou o menor índice, com 23 pontos. O texto possui um vocabulário ideológico muito marcado, teses políticas específicas e uma forma de argumentação menos genérica.
Usar inteligência artificial não é necessariamente o problema
O uso de inteligência artificial não significa, por si só, fraude ou falta de conteúdo. Uma campanha pode empregar IA para pesquisar dados, organizar propostas recebidas por diferentes grupos, revisar a redação, fazer cálculos preliminares, comparar indicadores ou estruturar capítulos.
O problema surge quando uma ferramenta produz metas, números ou soluções que não passaram por conferência técnica — ou quando o plano apresenta como compromisso fechado aquilo que ainda estava “a confirmar”.
Em tempos de IA, seria justo com o eleitor que as campanhas informassem voluntariamente como essas ferramentas foram usadas. Uma nota simples poderia esclarecer se houve ajuda de inteligência artificial na pesquisa, na organização do documento, na revisão do texto, na realização de cálculos ou na elaboração inicial das propostas.
Essa transparência permitiria separar situações muito diferentes. Uma coisa é usar IA como apoio para organizar informações. Outra é delegar a uma máquina a formulação de promessas públicas sem verificar custos, competências legais e viabilidade.
O levantamento, portanto, não determina quem escreveu cada frase nem pretende acusar candidatos de esconder a autoria de seus programas. Ele aponta sinais, mostra as limitações da tecnologia de detecção e abre uma pergunta que as campanhas talvez precisem começar a responder: este plano foi feito apenas por pessoas ou também contou com uma mãozinha — ou alguns bilhões de parâmetros — da inteligência artificial?


























































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