No que já pode ser considerada a saga do Reservatório Novo Marapicu, o que era crítico sempre pode piorar. Pois o contrato original já havia acumulado atraso superior a 50% do prazo inicialmente previsto, advertência à empreiteira, mudança da própria concepção do reservatório, rerratificações da planilha e novos milhões acrescentados à obra.
Agora surge uma novidade que, tecnicamente, tem muito pouco de nova: a Cedae colocou na rua uma licitação estimada em R$ 46,265 milhões para executar a obra que permitirá ao reservatório extravasar sua água. A entrada em operação do Novo Marapicu fica, no mínimo, condicionada à existência de uma solução segura para os 12 m³/s que precisarão ser descarregados.
Acontece que usar a estrutura apontada no edital, segundo a própria Cedae, pode agravar os alagamentos que já atingem a região.
Canal já não dá conta da água da chuva, sem o extravasor
A nova licitação prevê a elaboração do projeto executivo e a nova canalização do canal da Rua Ingá, em Nova Iguaçu, que deságua no Rio Cabenga e “será utilizado para a extravasão do Reservatório Novo Marapicu”.
As propostas serão abertas no dia 15 de setembro de 2026, com orçamento máximo de R$ 46.265.266,67 e prazo de execução de mais 450 dias corridos.
O mais impressionante, contudo, está no projeto básico SEI nº 126313895, assinado pelo diretor técnico e de projetos da Cedae, engenheiro Humberto de Mello Filho. É a própria companhia quem reconhece que o canal da Rua Ingá, “em seu atual estado, não comporta o acréscimo de vazão no momento da extravasão do Reservatório Novo Marapicu”. A análise técnica ainda classifica as travessias existentes como “subdimensionadas” e afirma que a passagem sob a Rua do Trevo, feita por tubo DN 1.200 mm, possui capacidade “totalmente incompatível com as vazões provenientes do extravasor e do sistema de macrodrenagem da região”.

E tem (bem) mais.
Segundo a Cedae, “nas condições atuais do canal, mesmo sem a contribuição do extravasor, em eventos de chuva ocorre o transbordamento, provocando alagamentos em todo o bairro do entorno”. É justamente para esse canal, que já transborda sem o reservatório, que deverão ser encaminhados mais 12 m³/s.
Não se trata, portanto, de uma obra acessória ou de uma melhoria opcional.
O próprio memorial descritivo (SEI nº 122014832) reconhece que o canal atualmente não comporta sequer as contribuições de drenagem nas épocas de chuva e que, com os 12 m³/s adicionais do reservatório, “a melhoria do canal tornou-se peremptória”.
A palavra escolhida pela própria Cedae é perfeita: peremptória, isto é, indispensável.
A pergunta inevitável é: por que uma intervenção indispensável ao funcionamento seguro do sistema somente está sendo licitada em 2026, mais de três anos depois do início da construção do reservatório?
A cronologia torna a situação ainda mais difícil de explicar
A obra principal começou em 27 de fevereiro de 2023, com prazo de 900 dias e conclusão prevista para 14 de agosto de 2025. A Cedae, posteriormente, concedeu mais 480 dias, elevando o prazo para 1.380 dias e transferindo a conclusão para 7 de dezembro de 2026.
Agora, quando o reservatório originalmente já deveria estar pronto, abre-se outra licitação com prazo próprio de mais 450 dias. A história sem fim ganhou um novo contrato — e um novo cronograma.
A necessidade de extravasamento evidentemente não surgiu no decorrer da obra. Um reservatório dessa dimensão precisa dispor de solução hidráulica para descarregar água com segurança, e a capacidade do corpo receptor deveria integrar o planejamento do sistema.
O próprio objeto do contrato original já abrangia “Reservatório Novo Marapicu, Tronco, Extravasor e Adutora”. Mais: quando a Cedae alterou a concepção do reservatório de duas células retangulares para seis circulares, um dos benefícios apontados pela fiscalização foi justamente a “flexibilização do extravasor/drenagem”.
A companhia, portanto, não apenas conhecia a necessidade do extravasor como discutiu e modificou sua concepção durante a execução.
A documentação disponível não permite afirmar que toda a canalização da Rua Ingá integrava juridicamente o escopo do contrato nº 023/2023. O problema é outro: se adequar o canal é necessário para receber com segurança os 12 m³/s, por que essa obra não foi planejada e contratada de maneira coordenada com o reservatório? Poderia ter integrado o contrato original, caso técnica e juridicamente compatível; poderia ter sido licitada paralelamente; ou, no mínimo, contratada com antecedência suficiente para que ambas as obras terminassem sincronizadas.
Há ainda uma continuidade administrativa que torna a pergunta mais relevante. O diretor Técnico e de Projetos da Cedae assinou aditivos da obra principal, inclusive o 4º termo aditivo, que concedeu os 480 dias adicionais. É também Humberto de Mello Filho quem assina o projeto básico SEI nº 126313895 da nova obra, documento que reconhece a incapacidade atual do canal e os riscos de transbordamento.
O edital LI nº 014/2026 (SEI nº 138823827) também leva sua assinatura como diretor Técnico e de Projetos. Ou seja, a mesma Diretoria Técnica que acompanhou os aditivos do reservatório agora conduz a contratação necessária para adequar o destino de sua extravasão.
E não estamos falando de uma intervenção pequena. Serão seis trechos de canal aberto, cinco travessias em galerias fechadas duplas, estruturas em concreto armado, gabiões, desassoreamento do Rio Cabenga e intervenções nas vias adjacentes. O orçamento de R$ 46,265 milhões representa cerca de 16,7% dos R$ 277,81 milhões originalmente contratados para a obra principal.
O calendário chama atenção: o memorial descritivo é de 5 de janeiro de 2026, o projeto básico foi assinado em março e a licitação foi publicada em agosto. Depois da abertura das propostas, ainda haverá julgamento, eventuais recursos, contratação, elaboração do projeto executivo e até 450 dias de obras.
Assim, mesmo que o reservatório seja concluído no novo prazo de dezembro de 2026, o canal necessário à sua extravasão segura poderá continuar em construção.
Um resumo dos capítulos anteriores
O contrato principal começou por R$ 277,81 milhões e 900 dias. Em abril de 2024, a fiscalização advertiu a contratada OECI S.A. porque deveriam estar assentados 2.532 metros de tubulação, mas apenas 1.121 metros haviam sido executados: uma defasagem de 55,73%.
Depois, o projeto do reservatório foi profundamente alterado, passando de duas células retangulares para seis circulares. Vieram a prorrogação de 480 dias — aumento de 53,3% do prazo original — e, posteriormente, mais R$ 17,892 milhões em aditivo, levando o contrato a aproximadamente R$ 296,12 milhões.
A própria fiscalização registrou problemas de fluxo de caixa da contratada antes de sua recuperação judicial, enquanto o jurídico da Cedae alertou para o risco de algumas modificações serem interpretadas como correção de imprecisões do projeto básico ou executivo.
Agora sabemos que, além de tudo isso, ainda faltava preparar o caminho para a água sair.
Uma obra estratégica para a expansão do Guandu
O Reservatório Novo Marapicu deveria simbolizar a primeira etapa da expansão do Sistema Guandu. Até aqui, porém, tornou-se também um estudo de caso sobre o custo da falta de planejamento integrado.
Primeiro muda-se o reservatório. Depois aumenta-se o prazo. Depois aumenta-se o contrato. E, quando a obra principal já deveria estar pronta, abre-se uma licitação de outros R$ 46,265 milhões e mais 450 dias para adequar o canal que receberá sua extravasão.
Na engenharia, reservatórios precisam de extravasores. Na gestão pública, projetos precisam de planejamento. Em Marapicu, ao que parece, as duas coisas resolveram chegar depois.
COM FÁBIO MARTINS






























































