Tudo começa no portão de embarque, quando anunciam calmamente: “senhores passageiros, embarque por grupos…” E aí, como num passe de mágica, todos viram o Grupo 1. É impressionante. Gente que estava sentada, tranquila, lendo revista, de repente se levanta num salto digno de atleta olímpico. Empurra, passa na frente, atravessa a fila como se estivesse fugindo de um incêndio. E o mais curioso: os lugares são marcados. Não existe prêmio para quem entra primeiro. Não tem medalha, não tem troféu, não tem “upgrade” surpresa. Mas a galera corre como se o avião fosse um ônibus lotado às seis da tarde, onde só senta quem entra primeiro.
A pressa é tanta que parece que o voo vai decolar imediatamente e quem ficar pra trás vai ter que ir correndo atrás da aeronave pela pista, gritando “espera eu!”. E ninguém demonstra o menor medo do avião cair, de turbulência, de nada. É um destemor geral: na hora de embarcar, o avião é a coisa mais segura do mundo. Acredito que se a cabine estivesse pegando fogo o pessoal entraria correndo do mesmo jeito.
Aí o avião sobe, estabiliza, e todos ficam zen. Uma paz. Uma tranquilidade. Uma confiança absoluta na engenharia aeronáutica. Juro que se o comandante dissesse: “senhores, vamos fazer um looping agora”, a maioria ia aplaudir.
Mas não se iludam; aquela serenidade tem prazo de validade. Acaba no pouso. Quando o avião toca o solo, pronto, sai a civilização e começa a barbárie. O comandante implora com toda a calma do mundo: “Senhores passageiros, permaneçam sentados até a parada total das turbinas.” E o que acontece? Um balé caótico. Um carnaval fora de época. Um surto coletivo. Todo mundo se levanta ao mesmo tempo, como se o assento estivesse pegando fogo. Abrem os bagageiros com a delicadeza de quem está arrombando cofres. Empurram, atropelam, passam por cima de crianças, idosos, grávidas, malas, o que encontrarem pela frente. Incoerentemente, já com o avião no solo bate o pânico naqueles que entraram na aeronave destemidamente.
E tudo isso pra quê?
Pra saírem correndo. Pra chegarem no corredor. Pra andarem até a esteira e ficarem lá, em pé, cansados, suados, irritados, esperando impacientes as malas que não chegam nunca.
A pessoa que empurrou, que correu, que quase escalou o bagageiro pra sair primeiro está, agora, parada, imóvel, olhando a esteira como se fosse um aquário. A mala não vem. A vida passa, evapora. A mala aparece, dá uma volta, não é a dele. Aí aparece outra, também não é. E ele ali, refletindo sobre nada.
O comportamento dos passageiros de avião é uma obra-prima da incoerência. E é universal. Tanto faz na rica Suécia ou no Haiti. Em qualquer lugar eles entram como se não houvesse amanhã e saem como se o amanhã estivesse atrasado. E esperam a mala como se o tempo não existisse. É quase trágico. Mas acima de tudo é humano.

























































Comentários 10
E é porque o senhor vai na primeira classe! kkkk
Imagine eu, quando viajo!
Como dito, e bem dito, esse fato me remete aos anos 90, quando ainda na Universidade Católica do Recife, que por muitas vezes, voltando para casa, no ônibus “Jardim Atlnatico”, presenciei e sofri com essa situação. Ou, ou, ou, nada mudou!
Abraço, tio.
Por iso tenho uma mala Amarelo Ovo.
E quando se viaja pela ryanair (que não é teu caso), os comissários se transformam em vendedor de raspadinha e ambulantes. Não existe paz. Outro dia, de raiva comprei 10 euros de raspadinha… sabe o que ganhei? O que Luzia ganhou na Capoeira: nada.
E um deralhe: quando tem o ônibus, que parece que vai pra Tacaimbó, os apressadoas entram e ficam na espera dos últimos que serão os primeiros.
Já não existe passageiros como antigamente. muito antigamente.
Com certeza vc. alcançou o tempo que não haviam assentos mercados. Quando abriam o portão de embarque a boiada corria pela pista com malas na mão para sentarem nos primeiros assentos. As vezes até brigavam por isso. Era muito pior. Isso quando acendiam um vicário em lugares proibidos.
Muito bom e realista. Só minha mulher que foge a regra. Entra já querendo sair. Cada pequeno solavanco afunda as unhas no meu braço. Curioso que tem sempre a sensação que o bicho vai cair, mas não deixa de viajar.
Ah Alfeu quantas vezes vivenciei estas cenas. E sua palavra final resumindo com perfeição “ é humano” disse tudo.
No mês passado, revivi mais uma vez, a mesma mesmice. Gostei do texto. Não deixa de ser interessantíssimo.
No comment! 😅😭
50 anos atras, entrar e sair de um aeronavio era uma experiença de aventura, quasi espiritual… Attenção e calmo…
Mismo na classe economica!
Por coincidência lia sua coluna ao mesmo tempo que vivenciava novamente essa inexplicável situação!
Parece que estou assistindo. É assim mesmo!
Uma coisa que eu gostava da época da pandemia era quando, na hora do desembarque, a comissária de vôo ia liberando as pessoas para o desembarque. Era bem mais organizado, ninguém atropelava ninguém ☺️