Há quem enxergue a crise recente no STF (Supremo Tribunal Federal) como um choque inevitável. Uma pororoca de egos. Uma divergência jurídica que saiu do controle. Talvez seja. Mas existe outra hipótese que merece atenção.
E se nada disso tiver sido improvisado?
André Mendonça não é um novato. Não chegou ontem ao Supremo. Conhece os ritos, conhece os colegas, conhece os limites e, principalmente, conhece as consequências de cada movimento dentro de uma Corte que vive sob tensão permanente.
Por isso chama atenção o momento escolhido para determinados gestos e manifestações, como observou Gilmar Mendes. Não apenas pelo conteúdo, mas pelo contexto. A data. O ambiente político. O início da gestão de Edson Fachin na presidência do tribunal. Tudo isso compõe um cenário que dificilmente pode ser tratado como coincidência. O raio da peleja tem alcance a perder de “vistas”.
Fachin assume uma Corte fragmentada. Herdou um tribunal marcado por disputas internas, vazamentos seletivos, divergências públicas e uma exposição cada vez maior de suas próprias contradições. Não é segredo para ninguém que a Suprema Corte atravessa uma crise de imagem. Nesse ambiente, qualquer movimento calculado produz efeitos exponenciais.
A reação vista no plenário era previsível. Nunes Marques saiu pela tangente. Gilmar Mendes elevou o tom. Mendonça mais ainda. Moraes dobrou a aposta. Dino arqueou as sobrancelhas. Fux fez um corta-lux. Cármen Lúcia proferiu as palavras mais duras e tristes, som esse que ecoou ao redor de um plenário com viés de caldeirão. O país assistiu. E, mais uma vez, a instituição saiu menor do que entrou.
Data venia. Talvez este seja justamente o ponto.
Não se trata necessariamente vencer uma disputa jurídica. Nem mesmo alterar o resultado imediato de processos específicos. O objetivo pode ser outro: expor fragilidades, aprofundar divisões e reforçar perante a opinião pública a percepção de um tribunal desorganizado e sem comando.
Se essa leitura estiver correta, o dano não se limita aos ministros envolvidos na controvérsia dos M&M’s. Atinge a própria instituição. E abre espaço para que decisões passadas, especialmente as relacionadas ao 08 de Janeiro, passem a ser questionadas não pelo mérito, mas pela credibilidade de quem as julgou.
Isso não absolve a Suprema Corte de seus próprios erros. As relações pouco transparentes entre integrantes do sistema de Justiça, empresários, políticos, banqueiros, escritórios de advocacia e personagens que orbitam o poder continuam merecendo escrutínio. O tribunal não está acima de críticas. Nem da lei.
Mas talvez a pergunta mais importante neste momento não seja quem venceu a última batalha verbal do plenário.
A questão é outra: quem ganha quando o STF perde autoridade diante da sociedade?
Porque, na política, quase nada acontece por acaso. E, muitas vezes, o verdadeiro movimento não está na superfície do conflito, mas nos efeitos que ele produz — em especial à vesperas de uma eleição presidencial.
























































