A cidade do Rio tem inúmeras praias, cartões-postais e paisagens que fazem valer a fama de “cidade maravilhosa”. Mas, por trás das fachadas históricas, dos monumentos e da beleza que atraem milhares de turistas, existe uma versão menos conhecida da capital fluminense, povoada por lendas urbanas, relatos de assombração e histórias que atravessaram gerações.
Do Arco do Teles, onde a figura da suposta bruxa Bárbara dos Prazeres ainda alimenta o imaginário carioca, aos corredores da antiga Cadeia Velha, posterior sede histórica da Alerj, a cidade oferece um roteiro que chama a atenção dos turistas que decidem seu roteiro de destinos com base nas histórias de terror.
Neste sábado (31), quando o Halloween toma conta de festas e fantasias pelo mundo, o turismo de terror convida moradores e visitantes a conhecer esse outro lado do Rio — uma aula de história em que nem todos os personagens parecem ter descansado em paz.
E, por aqui, não é preciso pendurar esqueletos nas janelas ou espalhar teias de aranha falsas para entrar no clima. Em alguns endereços da cidade, o cenário já está pronto há séculos. Basta conhecer as histórias — e decidir se vale a pena passar por lá depois que escurecer.
Aula de história viva — ou ‘morta-viva’
Entre casarões antigos, corredores de prédios históricos e becos do Centro, o Rio guarda narrativas de crimes, tragédias e personagens que ganharam contornos sobrenaturais com o passar do tempo. Guias de turismo da cidade resgatam essas histórias e dividem com os visitantes curiosidades, lendas urbanas e relatos que atravessam gerações, transformando o passeio turístico tradicional em uma viagem pelo lado mais misterioso da capital fluminense. São histórias que sobrevivem nas conversas de rua e no imaginário carioca e que podem deixar uma pergunta incômoda no fim do percurso: foi só o vento ou tinha mais alguém ali?
No encontro entre a memória e o mistério é que fica o turismo de terror, também chamado de “turismo macabro” ou “gótico”. Ainda pouco explorado no Brasil, o segmento propõe conhecer a história das cidades por um ângulo diferente: acontecimentos sombrios que ninguém sabe contar sem pelo menos baixar um pouco o tom da voz.
Segundo a guia de turismo do Rio Aparecida Klebis Jeronymo, os roteiros voltados ao medo e ao horror vêm ganhando espaço na atividade turística da cidade.
“Você fazer o turismo no Rio de Janeiro não quer dizer que, necessariamente, tenha que ficar falando só dessa questão do belo, do maravilhoso, praias lindas. Dentro da nossa história dá para colocar um pouquinho da história que o mundo fala e que o livro não conta”, afirmou a guia.
No Rio, esse roteiro passa pelo Centro e se estende a outras regiões da cidade, reunindo lendas urbanas que atravessaram gerações. Ao contrário dos monstros importados para o Halloween, as figuras que protagonizam essas narrativas têm endereço carioca — e histórias que, verdadeiras ou não, fazem parte do imaginário de quem vive por aqui.
No Arco do Teles, a bruxa que não sai de cena
A passagem histórica do Arco do Teles, na região da Praça XV, que já foi associada à criminalidade e à prostituição, se tornou um dos endereços mais famosos de uma das lendas mais macabras da cidade: Bárbara dos Prazeres, conhecida como a “Bruxa do Arco do Teles”.
“Nós realizamos vários roteiros, mas um deles, que vendeu muito inclusive, foi o de Lendas Urbanas. E uma das coisas que mais atraía o público era exatamente a história da feiticeira, a primeira do Rio, chamada Bárbara dos Prazeres. Era uma senhora maravilhosa, muito bonita, que foi quebrando tabus da mulher brasileira, ou melhor, da mulher de época, que desembarca no Rio e se apaixona por um homem negro, mesmo sendo esposa de um marido poderoso, e com isso ela começa a quebrar tabus na cultura, enfrentando sociedade, preconceitos, só que esse homem a trai e depois de um tempo aparece morto”, explicou a guia Aparecida.

De acordo com os relatos, ela era uma portuguesa que chegou ao Rio no fim do século XVIII. Após um romance turbulento e de uma vida que teria passado por escândalos, teria recorrido a práticas de feitiçaria para tentar recuperar a juventude. A versão mais assustadora da lenda diz que, aconselhada por um feiticeiro, Bárbara passou a matar crianças para usar o sangue das vítimas em supostos rituais de rejuvenescimento.
“Bárbara vai chegando a um ponto em que vai ficando mais envelhecida, menos poderosa, mas ainda muito bela, e começa praticamente a ter que se prostituir, porque ela perde todos os poderes econômicos possíveis da época. E, a partir daí, ela começa a andar muito ali pelo Arco dos Teles, quando passa a existir uma lenda de que ela foi procurar um feiticeiro, e esse feiticeiro coloca para ela uma questão que pode ajudá-la bastante, que seria o sangue, quanto mais nova fosse a vítima, mais nova ela ficaria. Então, existe a lenda de que ela poderia tomar o banho, outros dizem beber o sangue, e que ficaria mais jovem”, completou.
A história atravessou gerações, e há quem diga que gargalhadas femininas ainda ecoam pelo beco nas madrugadas cariocas, deixando claro que o Arco do Teles tem uma vantagem sobre qualquer outra atração de Halloween: não precisa de efeitos sonoros para carregar uma história, no mínimo, sinistra.
Na antiga Cadeia Velha, nem o passado descansa em paz
Da região da Praça XV, a rota do medo segue para o Palácio Tiradentes, sede histórica da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Antes de abrigar o Legislativo, o local foi conhecido como Cadeia Velha e passou por diferentes usos ao longo da história.
Em narrativas de guias de turismo, o espaço aparece ligado a histórias de sofrimento, gritos, lamentos e até mesmo supostos ruídos. A construção também é associada à memória de pessoas escravizadas e de presos que passaram pelo local.

No turismo convencional, o visitante costuma prestar atenção à arquitetura, às obras de arte e aos personagens políticos que passaram por ali. Já na versão, digamos, macabra, o desafio é imaginar quantas histórias ficaram pelo caminho entre aquelas paredes.
No Castelinho do Flamengo, uma história de arrepiar
A Rota do Medo no Rio também passa pela Zona Sul, onde o centenário prédio do Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho, mais conhecido como Castelinho do Flamengo, é cenário de uma das lendas mais conhecidas da região.
A história envolve o casal Avelino Fernandes e Dona Rosalina Feu Fernandes, que, segundo relatos, morreu atropelado por um bonde em frente ao imóvel. Após a tragédia, a filha dos dois, Maria de Lourdes Feu Fernandes, teria sido roubada e maltratada pelo tutor, que a manteve presa na torre principal da construção. Ainda segundo a lenda, a jovem teria se jogado do alto do prédio e, desde então, seu espírito assombraria o local.

Ao longo dos anos, antigos ocupantes relataram barulhos estranhos e supostas aparições. Os relatos, no entanto, nunca tiveram comprovação e permanecem no campo das lendas associadas ao prédio.
Hoje, o imóvel abriga o Centro Cultural Municipal Oduvaldo Vianna Filho. A torre que alimenta a imaginação dos curiosos faz parte de uma construção com função cultural — prova de que nem todo castelo precisa de um vampiro para continuar atraindo olhares.
Entre ruínas e lendas, os segredos do Morro da Viúva
Entre Botafogo e Flamengo, o Morro da Viúva guarda um cenário menos conhecido por quem circula pela cidade. Escondidos atrás das construções da Avenida Oswaldo Cruz, há vestígios de antigas estruturas, um reservatório do século XIX e um pequeno castelo que também carrega fama de mal-assombrado.

O lugar tem um detalhe curioso: o próprio nome remete a uma história antiga. A área passou a pertencer, em 1753, à viúva de Joaquim Figueiredo Pessoa de Barros. A origem do nome, portanto, tem explicação histórica, enquanto a fama sobrenatural do castelinho faz parte das narrativas que cercam o local.
É um daqueles lugares que mostram como o turismo de terror não depende apenas de fantasmas famosos. Às vezes, basta uma construção pouco acessível, uma história mal explicada e a imaginação fazendo o restante do trabalho.
O medo que virou passeio
A curiosidade por esses lugares ajuda a explicar a existência de roteiros turísticos dedicados às histórias mais sombrias da cidade. Em vez de apresentar apenas monumentos e datas, os passeios exploram lendas, personagens controversos e episódios pouco conhecidos da memória carioca.
O interesse não é inteiramente novo. O Rio já teve roteiros especializados em fantasmas, conduzidos por guias que reuniam histórias associadas a prédios históricos e pontos tradicionais do Centro. Hoje, a programação temática continua aparecendo em iniciativas voltadas a quem quer conhecer outro lado da cidade.
“A importância desse tipo de turismo e dessas histórias para o fortalecimento da cultura carioca é plena. A história da Bárbara dos Prazeres, por exemplo, daria até mesmo um filme”, ressaltou a guia carioca.
Na última sexta (30), um passeio intitulado “Tour de Halloween — Assombrações do Rio” foi realizado com saída na escadaria do Theatro Municipal e percurso por histórias fantasmagóricas do Centro da cidade.
O roteiro evidencia a existência de um público interessado em trocar, ao menos por algumas horas, os cartões-postais tradicionais por becos, casarões e histórias de arrepiar. É uma forma de turismo que mistura entretenimento e memória — e que transforma o medo em um atrativo a mais para explorar a cidade.
No fim, o Rio continua sendo maravilhoso. Só que, em alguns endereços, vale conferir se a visita guiada termina antes da meia-noite.




















































