Muito antes de o Rio ganhar os contornos que hoje percorrem o mundo todo por meio das fotografias — e, mais recentemente, das redes sociais —, um pequeno teleférico começou a transportar passageiros entre a Praia Vermelha e o alto do Pão de Açúcar. Inaugurado em 1912, o Bondinho, primeiro teleférico do Brasil e terceiro do mundo, completa 114 anos na próxima terça-feira (27) com uma trajetória que se confunde com a própria história do turismo carioca e atravessa avanços tecnológicos, mudanças na paisagem da cidade e, claro, a vista, que continua sendo unanimidade entre moradores e visitantes.
A ideia de construir um “caminho pelo ar” surgiu em 1908, quando o engenheiro brasileiro Augusto Ferreira Ramos participou da organização da Exposição Nacional. O projeto parecia ousado para a época: vencer os paredões de pedra para conectar os três pontos por meio de um sistema de cabos suspensos. As obras começaram em 1910, com o trabalho de centenas de operários, que precisaram transportar materiais por terrenos íngremes e de difícil acesso.

Em 27 de outubro de 1912, o primeiro trecho do Bondinho entrou em funcionamento, ligando a Praia Vermelha ao Morro da Urca. Mas só em 1969 a Companhia do Pão de Açúcar foi autorizada a duplicar a linha. Depois dessas reformas, os bondinhos também foram trocados, passando para a capacidade de 75 passageiros.
A terceira parte do trajeto, que iria ligar o Bondinho ao Morro da Babilônia, nunca chegou a ser feita. A primeira e a segunda parte possuem 600 e 850 metros de extensão, respectivamente, e estão ativas até hoje no passeio.
De acordo com o historiador Carlos Ditadi, do Arquivo Nacional, o Bondinho foi uma iniciativa privada e, até hoje, pertence à mesma família do construtor.
“O bondinho foi construído por alpinistas suíços especialmente treinados que levaram as peças nas costas em escaladas super perigosas. Estima-se que, ao todo, carregaram quatro toneladas de equipamentos. Os dois bondinhos de madeira maciça, feitos na Alemanha, com capacidade para 22 passageiros, foram içados por cabos de aço e um guincho manual desmontável construído no topo do Morro da Urca”, disse o historiador.

Cinema e música marcam a história do Bondinho
Na época, as cabines eram diferentes das atuais e também transportavam menos passageiros. Mas o sistema passou por uma grande modernização em 1972, quando os antigos bondinhos deram lugar a cabines maiores, com laterais transparentes, ampliando a capacidade de transporte através da oferta de uma nova experiência para quem fazia o trajeto: além de chegar ao alto dos morros, o visitante passou a ter uma visão ainda mais ampla da cidade durante a subida.
A história do bondinho também se cruza com momentos que “furam a bolha” e ultrapassam os limites do turismo. Em 1979, o teleférico foi cenário de produções internacionais, como o filme 007 Contra o Foguete da Morte, de 1979. da franquia James Bond, além de receber personalidades como Albert Einstein, em 1925; Marie Curie, em 1926; o ex-presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, em 1941; e Bob Marley, em 1980.
Alguns anos antes, em 1973, o conjunto formado pelos morros do Pão de Açúcar, da Urca, Cara de Cão e Babilônia — complexo geográfico e histórico na Zona Sul do Rio — foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em reconhecimento à sua importância para a paisagem do município.
O Morro da Urca também ganhou “vida própria” para além do embarque e desembarque dos passageiros e em 1980 passou a receber o projeto Noites Cariocas, idealizado pelo produtor Nelson Motta, que levou artistas e shows ao espaço e ajudou a consolidá-lo como um verdadeiro palco da música brasileira.

Modernização ao longo de uma história que se confunde com a do próprio Rio
Ao longo das décadas, o Bondinho passou por modernizações para acompanhar os avanços tecnológicos e ampliar a segurança da operação. Em 2008, as cabines foram substituídas por modelos fabricados na Suíça, com recursos como sistema digitalizado, controle automatizado do trajeto e painéis que monitoram fatores como o vento e a pressão dos freios. O processo de modernização incluiu ainda a implantação de um novo sistema de esgoto, trazendo mais eficiência e suporte à operação do atrativo.
Quatro anos depois, no centenário do teleférico, o Rio recebeu da Unesco o título de Patrimônio Mundial na categoria Paisagem Cultural, que reconhece e contempla a relação entre a natureza e a ocupação humana na cidade, incluindo áreas como a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar e a orla de Copacabana.
De acordo com informações divulgadas pelo Parque Bondinho Pão de Açúcar, mais de 50 milhões de visitantes passaram pelo local desde a inauguração, em 1912.
Disputa pela tirolesa no Pão de Açúcar
Mas a relação entre turismo e preservação da paisagem, que acompanha a história do Bondinho, também está no centro de uma disputa mais recente na Justiça. O projeto de instalação de uma tirolesa entre os morros da Urca e do Pão de Açúcar provocou questionamentos sobre os impactos da estrutura em uma das áreas mais emblemáticas do Rio.
Em julho deste ano, a Justiça Federal negou um novo pedido do Parque Bondinho para retomar as obras da tirolesa do Pão de Açúcar. Suspensa desde abril de 2026, a construção previa a instalação de quatro linhas entre o Pão de Açúcar e o Morro da Urca.
A concessionária do parque tentou retomar os planos para a atração, mas o Tribunal Regional Federal manteve a paralisação e a exigência de que a empresa apresente um plano de recuperação da área degradada. Isso porque o projeto é alvo de críticas sobre os impactos ambientais provocados pelo corte das rochas.
O projeto da Tirolesa do Parque Bondinho foi aprovado em maio de 2022 e, desde então, passou por sucessivas paralisações e tentativas de retomada. Segundo a concessionária do parque, a nova atração teria quatro linhas de 755 metros, por onde os visitantes poderiam atingir uma velocidade máxima de 100 km/h em menos de um minuto.

Novo posicionamento de marca nos 114 anos
A tentativa de ampliar as experiências oferecidas aos visitantes não é a única novidade do Bondinho. O parque também passa por uma renovação de imagem, com o lançamento do novo posicionamento de marca: Original do Rio, que procura destacar a relação da atração centenária com a identidade da cidade.
O conceito faz referência tanto ao pioneirismo do parque, primeiro atrativo turístico do Brasil, criado a partir de uma ideia visionária, quanto à essência carioca que inclui criatividade, simpatia e a capacidade de ainda se surpreender com a beleza do Rio — mesmo já acostumado com a paisagem.
O posicionamento também destaca que, embora seja um cartão-postal visitado por turistas de todas as partes do mundo, o Parque Bondinho é genuinamente carioca. Essa identidade também se expressa na relação do parque com a cultura, a música e outras expressões culturais do Rio.
Programação especial para o dia 27
Além do trajeto entre os morros, o Parque Bondinho mantém uma programação que inclui atividades culturais, ações ligadas à natureza e iniciativas voltadas à memória do local. Entre elas estão o projeto Amanhecer no Parque Bondinho, o Bem-Estar no Parque Bondinho, o Bosque das Artes e o Espaço de Memória Cocuruto.
Ao longo de 114 anos, o teleférico passou por mudanças tecnológicas e acompanhou as transformações do Rio, mas manteve o percurso que o tornou conhecido.
A vista da cidade a partir dos morros da Urca e do Pão de Açúcar continua sendo uma das principais atrações para quem visita o local e, para marcar o aniversário na próxima terça-feira (27), o parque preparou uma programação com atividades culturais, música e experiências para diferentes faixas etárias. Confira:
- 10h: recepção dos visitantes do Parque Bondinho com mate, Biscoito Globo e exposição;
- De 10h às 17h: oficina de personalização de cartões-postais;
- 14h: apresentação do grupo de passinho “Charme Du Bom”;
- 15h: hora do “parabéns” no Espaço Maria Ercília para celebrar os 114 anos do parque;
- 16h: Sunset Brasilidades com a DJ Yasmin Lisboa.

























































