Quando a gente passar a frequentar as irmandades, adquire um olhar diferente para muitas coisas. E para pessoas também. Um personagem muito citado nas reuniões é o Homem do Saco Preto. Em primeira pessoa. Não foi uma, nem duas, nem dez que ouvi um companheiro dizer: “se eu continuasse, ia virar o Homem do Saco Preto”. Ou: “Eu já fui o Homem do Saco Preto”.
O personagem em questão nada mais é do que alguém que despencou tanto no abismo da dependência química que se tornou um recolhedor de lixo, no limiar da loucura, fazendo garimpo e correndo para comprar a próxima dose. Está normalmente associado aos usuários do crack, mas dependência química não é uma ciência exata, acreditem. Há casos e casos.
“Esses cracudos são foda! Tinha que matar tudo!”. O companheiro, que faz mototáxi, ouviu isso do passageiro que transportava, nas imediações da favela do Jacaré. O homem que disse a frase não podia imaginar. Porém…
“Só lembrei que eu era um daqueles cracudos que o passageiro queria matar. E não fazia muito tempo. Entrei para a irmandade, parei de fumar pedra, tirei carteira de habilitação. Agora trabalho como mototaxista. Por isso, cada dia estou em uma reunião diferente. Fico trabalhando e, quando vai chegando o horário, paro onde tiver uma mais perto”.
Um dos folhetos que mais gosto de uma das irmandades que frequento tem um texto que enfatiza: “Nós nos recuperamos!” No presente. Não no pretérito perfeito. Até porque nosso pretérito foi tudo, menos perfeito. Mas o fato é que a gente se recupera, sim. Eu estou em recuperação, pelo menos até o momento em que escrevo essa frase. No parágrafo seguinte, já não sei. O mototaxista que contou a história está em recuperação. Ou estava, naquela hora em que fez a partilha no grupo. Faz tempo que não o vejo. Espero que ainda esteja fazendo suas paradas estratégicas por aí, entre passageiros e partilhas.
O fato é que eu posso ser o Homem do Saco Preto amanhã. Ou ele pode vir a ser eu hoje. Essa é a beleza e a maldição do doença que temos. Porque é possível se recuperar. Vemos isso todos os dias nas salas da irmandade.
Conheço um parceiro que ainda mexe com lixo. Mas saiu da imundície faz muito tempo. Virou um verdadeiro garimpeiro de coisas que as pessoas desejam e nem sabem. E é no lixo que encontra. E estava no lixo quando se encontrou. Essa vida da gente é muito curiosa.
Portanto, quando você vir uma dessas pessoas na rua, não tenha certeza de que acabou para elas. Nem deseje sua morte. Suas vidas podem se entrelaçar em algum momento. E dentro do saco preto, e até da alma de quem o carrega, pode ter um troço que já foi até nome de filme: Lixo extraordinário.


























































