“Nós ainda estamos no jogo”. É uma frase que eu costumo repetir em momentos difíceis. Nos últimos dias, venho recebendo mensagens de amigos ainda atônitos, muitos revoltados, outros desanimados e receosos com o futuro que nos espera. Estranhamente, eu me sinto diferente. Enviei a Oração da Serenidade para todo mundo que veio falar comigo. Por ter descido ao inferno e também pelo treinamento que recebo diariamente nas irmandades, minha vida tem se pautado em avaliar com muito cuidado o que é êxtase e o que é abismo. Duas coisas das quais fujo como o diabo da cruz. Na maioria das vezes, chego à conclusão de que foram apenas 24 horas.
Fui buscar, e tentar transmitir, uma energia que vejo em sala constantemente, e que atinge picos inacreditáveis, espirituais ao extremo, mesmo para um ateu como eu, em determinadas ocasiões. Estas se dão quando entra na reunião um recém-chegado ou retorna à irmandade um companheiro que recaiu e voltou ao inferno.
Imediatamente, a sala se transforma. Todos esquecem um pouco de suas próprias dores e passam a dividir sua via crucis e posterior ascensão com o recém-chegado ou retornado. É nesses momentos que a solidariedade nas irmandades brilha tão forte, é tão intensa, que chega a ser palpável.
Quase todos os dias, o que se ouve na irmandade são desabafos e partilhas que acabam se transformando em exemplos para mostrar que e é necessário fazer todo o possível para ficar longe do álcool e de outras drogas. Mas se isso não foi possível, a palavra desistência é algo inaceitável para nós. O tempo todo somos avisados de que uma recaída pode ser tão terrível que tenha consequências que impeçam o companheiro de voltar a tempo. Para a sala e para a vida. Mas, tendo dado tempo, a hora é de carinho, amparo, uma ou outra admoestação, mas, principalmente, de esperança. Cresce a esperança.
E vem a inevitável frase: “Se você está limpo hoje, está no jogo!”. Cheia de poder, maravilhas e possibilidades. Porque nós estamos jogo enquanto houver uma sala aberta. Seja de uma irmandade, de associação de moradores. De aula! Ouço isso todos os dias e repito pra vocês agora. Você que me lê está no jogo! E não sou eu quem diz. A frase vem de pessoas muito especiais, aqueles a quem chamo companheiros.






















































