Sete de Setembro. Início da noite. Um frio danado aqui na Zona Norte do Rio. Fui para o grupo, como faço todos os dias, simplesmente esperando uma reunião. Às vezes, o destino é extremamente generoso. As partilhas foram se sucedendo. Por coincidência, muitos companheiros que estão voltando às salas depois de recaídas. Tristeza, dor, vergonha. O mínimo de empatia te faz sentir o que eles, amigos que a vida está me dando, sentem naquele momento. Junto vem uma sensação de impotência, vontade de dar simplesmente um abraço, dizer que aquilo também vai passar. Mas aí vem alguém e…
O sujeito surgiu lá do meio da sala. Casacão maneiro, estilo militar. De meia idade. Talvez um pouco mais velho do que eu. Quando começou a falar, me senti um menino ouvindo um sábio. Dirigiu-se especificamente àqueles que, antes dele, expuseram sua dor. E suas palavras foram como um bálsamo. Até para quem não estava sentindo.
Contou estar há uma semana de completar seis anos sem usar drogas. Disse que poderia ser mais tempo. Recaiu após um período de mais dez anos sem usar. Já havia recaído antes depois de um período de oito, se não me engano. E o que transmitiu ali foi uma mensagem de experiência, fé e coragem. Não citou conceitos, tradições, passos, porra nenhuma. Só deixou claro: “É possível. Continue tentando”.
As palavras daquele cara me fizeram viajar por muitos lugares. Trouxeram também recordações dos “doutores da lei” que encontrei tanto na clínica na qual fiquei internado quanto dentro da própria irmandade. Pessoas cheias de verdades, de admoestações àquele que está retornando à sala, cheio de sofrimento e vergonha. “Doutores da lei”, para quem não sabe, eram como se tornaram conhecidos os fariseus a quem Jesus tanto emputeceu em seu ministério.
Juro que, quando aquele camarada falou, meu coração se encheu como se eu estivesse em Pentecostes.
Mas onde entra São Francisco nessa história? Bom. As irmandades não são religiosas, não estão ligadas a nenhum tipo de credo. Mas a Oração de São Francisco é a única exceção. Está presente na literatura da primeira de todas as irmandades.
Não à toa, o santo está tatuado no meu braço esquerdo, a despeito de eu ser ateu. A primeira irmandade tirou sua força do ato de partilhar. Foi assim quando Bill Wilson procurou Bob Smith, na primeira de todas as partilhas, que salvou milhões de vidas de 1935 para cá. Porque, como diz a literatura, “só dando podemos manter o que temos”. É aí que entra São Francisco. E sua oração: “Senhor, fazei-me um instrumento de vossa paz”.
Obrigado, São Francisco. Obrigado, camarada desconhecido. Por lembrar a todo mundo naquela sala e a este ateu aqui que é possível ter fé.





















































