“Está faltando alguma coisa. Está sempre faltando alguma coisa. Se é uma bebida, se é um amor. Oh, diabo, eu não sei”. Raul Seixas escreveu isso em algum momento de sua carreira, retrato da turbulenta vida que levava. Não à toa, era dependente químico. E o que ele disse encaixa perfeitamente na vida de um bêbado que está sem beber como eu. Quando estava na ativa, faltava sempre a próxima dose. E a próxima, e a próxima. Até o esgotamento. Em recuperação, vêm momentos em que surge aquele estalo. “Está faltando alguma coisa”. Acontece deitado na rede, andando pela rua, dentro do ônibus.
Nessas horas é preciso fazer o movimento contrário. “Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite”, era a música que eu ouvia direto numa balada que ia nos anos 90. Achava insuportável. Mas eu me divertia assim mesmo. Bebendo, bebendo e bebendo. E tudo parecia que ia dar certo. O fundo de poço estava muito distante naquela ocasião.
Muito velório rolou de lá pra cá, como diria Mano Brown. E quase o meu próprio. Hoje, posso dizer com certeza o que espero deste sábado à noite. Uma reunião no meu grupo de escolha da irmandade. Talvez uma leitura depois, com o gato Severino no colo. Se eu me organizar, vou passar num sebo e tentar achar um exemplar de “A vingança do timão”, de Carlos Moraes. Sempre compro esse livro. Nunca tenho. É tão importante na minha vida que compro, releio e passo adiante.
Nos dias de sinto, nas noites de laço, preciso olhar para minha personalidade multifacetada e encontrar os melhores que sou. Por exemplo, me transformo em Belchior quando estou caminhando pela manhã rumo à praça e canto “vou viver as coisas novas, que também são boas, o amor e o humor das praças, cheias de pessoas. Agora eu quero tudo. Tudo outra vez”. Noutras ocasiões, indo tomar um sorvete de três reais (baunilha, sempre!) no shopping, sou Gal Costa, cantando “Baby”.
De repente, vou entrar numa igreja hoje. Não para pedir porra nenhuma. Mas para agradecer. Não importa o fato de eu ser ateu. Tenho um cachorro e quatro gatos. Eles, sem dúvida, acreditam em São Francisco. Isso me basta.
Por falar no cachorro, Lunga nos últimos dias finalmente conseguiu fazer amizade com a gatinha da oficina da Rua Teodoro da Silva. Foram meses. Inicialmente, ela corria pros fundos. Depois, olhava curiosa. Mais um tempo e passou se aproximar, desconfiada. Nesta semana ela fez focinho com focinho com ele. Ele foi pra casa com o coração saltitando. Eu fiquei com o meu quentinho.
O universo não tolera o vazio. Nem eu. Pra mim, o grande segredo atualmente consiste em preenchê-lo com coisas que já estão ali. E foi pensando nisso que descobri o que está faltando neste momento. Estava no 232, indo pro trabalho no Centro, em plena Radial, quando tive a iluminação. Está faltando uma carrocinha de churros na Praça Edmundo Rêgo, no Grajaú. Que é onde fica a igreja que abriga meu grupo. Pra que eu saia da reunião, lambuze os dedos, a barba e não sinta nem um tantinho de culpa por aquela quantidade de gordura e doce de leite. Afinal de contas, é só por hoje!





















































