As tradicionais escolas agrícolas do estado do Rio vivem um processo de esvaziamento que ameaça a continuidade desse modelo de ensino no estado. De acordo com um levantamento recente feito pela equipe técnica da Comissão de Segurança Alimentar da Alerj, na década de 1980, eram 14 unidades; hoje, restam apenas cinco, uma redução de 64%.
A importância da educação agrícola vai muito além de produzir mão de obra para o setor rural. Ela tem a estratégia de possibilitar o crescimento pessoal de crianças, jovens e adultos; colabora para erradicação da exclusão social e êxodo rural; permite a abordagem socioambiental e agroecológica; valoriza a produção local e apoia a diversificação econômica dos municípios.
O Centro Interescolar de Agropecuária (CIA) José Francisco Lippi, também conhecido como Escola Agrícola de Teresópolis, na Região Serrana, é uma das instituições que resistem ao cenário de fechamento destas unidades.
A escola mantém uma tradição fundamental para a agricultura familiar, formando jovens para permanecerem no campo com dignidade, conhecimento técnico e capacidade de inovação, ainda que a instituição passe por dificuldades para “se manter de pé”.
Escola em Teresópolis é uma das que resistiu
A escola de Teresópolis fica em Venda Nova, no quilômetro 15 da Estrada Teresópolis–Friburgo. De acordo com Carol Quintana, que atua como professora de Sociologia na CIA há 16 anos, a escola possui um curso em técnicas agrícolas e agropecuárias e ganhou, em 2011, o Prêmio de Gestão Escolar do estado. Apesar dos desafios, como a falta de professores especializados na área, a escola resiste.
“A nossa escola é uma escola modelo, uma das poucas que está funcionando. Uma das nossas dificuldades é em relação ao concurso público para os professores. Há muito tempo não abre concurso para a área específica da área técnica”, destacou Carol Quintana.
Marina do MST destinou R$ 90 mil para reformar escola
A deputada estadual Marina do MST (PT) destinou R$ 90 mil do orçamento do estado do Rio ao Centro Interescolar de Agropecuária José Francisco Lippi, escola agrícola de Teresópolis. Os recursos foram assegurados por meio de uma emenda parlamentar impositiva apresentada ao fim de 2024 para compor o orçamento estadual de 2025.
“As escolas agrícolas são estratégicas para o desenvolvimento do nosso estado, mas infelizmente ainda não recebem o reconhecimento e o orçamento que merecem do poder público. Apoiar essas instituições é defender diretamente a agricultura familiar, que é responsável pela maior parte do alimento que chega à mesa do povo fluminense. Precisamos garantir infraestrutura técnica e dignidade para que a juventude permaneça no campo, inovando e produzindo com qualidade”, destacou a parlamentar.
A verba foi destinada à aquisição de equipamentos, insumos e utensílios, com o objetivo de fortalecer as aulas técnicas e contribuir para a manutenção das atividades desenvolvidas pela instituição.
“Recentemente recebemos uma emenda parlamentar da deputada Marina do MST, com isso a gente pôde reformar as nossas estufas e reformar a área técnica, o que contribui bastante para a valorização do curso, que, aqui em Teresópolis, tem uma função social muito importante, porque 30% da geração de renda e trabalho da cidade vem da agricultura familiar. No estado do Rio, Teresópolis está entre os municípios que mais valorizam a agricultura familiar, que mais tem agricultura familiar como geração de emprego e renda. Então o curso, ele tem uma função social fundamental, que é capacitar a mão de obra dos filhos dos agricultores para eles permanecerem na terra”, disse a professora Carol Quintana.
O que diz a Secretaria de Estado de Educação
Procurada, a Secretaria de Estado de Educação enviou uma nota sobre o caso. Eis a íntegra:
“A Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc-RJ) esclarece que a informação não procede, tendo em vista que o Governo do Estado possui atualmente 112 escolas localizadas em área rural, conforme dados do Censo Escolar 2025. Estas unidades atendem 25.657 estudantes. Dentre elas, destacam-se seis escolas que ofertam o Itinerário de Formação Técnica e Profissional em Agropecuária, distribuídas nas localizadas do Centro Sul, Noroeste Fluminense, Serrana I e Serrana II. A oferta está concentrada em territórios historicamente vinculados à atividade agropecuária e contempla tanto turmas de Ensino Médio Integrado quanto de Educação Profissional Técnica, buscando atender às demandas locais.
Com a adesão da Seeduc à Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas – Novo Pronacampo, a Secretaria passa a integrar as ações e programas estruturados pelo Ministério da Educação no âmbito da Educação do Campo, fortalecendo as discussões relacionadas à construção de normativos próprios para implementação de uma política pública educacional alinhada às especificidades das populações do campo.”

