O cantor sertanejo Gustavo, de 43 anos, foi condenado a 28 anos de prisão pela morte a pancadas da companheira, Karen Mancini, de 39, ocorrida em abril de 2024, dentro da casa em que viviam em Lumiar, distrito de Nova Friburgo. O julgamento, que levou 13 horas, terminou na madrugada deste sábado (29), na 3ª Vara Criminal de Niterói.
“A sensação é de justiça sendo feita. Depois de dois anos, saiu um peso das minhas costas. Finalmente vou conseguir dormir de novo”, disse, emocionada, a irmã da vítima, Caroline Mancini, que não segurou as lágrimas quando a juíza Nearis dos Santos Arce leu a sentença.
Discussão que levou o dia inteiro
De acordo com o Ministério Público, a dinâmica no feminicídio começou na manhã de 19 de abril de 2024, uma sexta-feira, quando o casal começou a ter mais uma violenta discussão dentro de casa. Uma testemunha, vizinho que mora a 50 metros do casal, disse que ouviu berros durante todo o dia, com Gustavo, que na verdade se chama Clodoaldo Queiroz de Oliveira, dizendo a todo o tempo que ia embora, enquanto entrava e saía do carro. Isso ocorreu até o início da noite, quando o cantor finalmente foi embora. A testemunha disse que desde aquele momento não ouviu mais a voz de Karen.
Pouco mais de uma hora depois da partida, um motoboy chegou apavorado no portão da casa, chamando por Karen, sem obter resposta. Isso aconteceu porque Gustavo sofreu um acidente, caindo com o carro numa vala à beira da estrada, num local não muito distante da casa. O motoboy chamou o Samu para os primeiros socorros e, a pedido de Gustavo, foi alertar Karen, tendo ido à casa duas vezes, sem obter resposta.
Acidente de carro perto do local do crime
Uma outra testemunha, corretor que alugou a casa para Karen, contou que foi chamado por Gustavo no sábado pela manhã. O cantor ligou dizendo que havia sofrido um acidente e estava no Hospital Raul Sertã, em Nova Friburgo. Pediu ajuda para voltar para casa.
“Ele disse que estava preocupado porque a mulher não tinha notícias dele, ele estava com celular dela (não explicou o motivo). Pediu ajuda, mas antes quis passar no local do acidente para ver o carro. Cheguei a procurar nos bancos e no assoalho a carteira e o celular dele, mas não achei”, contou o corretor em seu depoimento no julgamento.
Um corpo frio no assoalho da casa
Do local do acidente, ainda segundo o corretor, ambos partiram para a casa de Karen. Gustavo entrou sozinho e demorou entre três e quatro minutos. Foi quando o corretor ouviu os gritos e entrou para ajudar.
“Ela estava deitada de bruços. Ele me pediu ajuda para virá-la. Ela estava roxa, o corpo frio”, lembrou o corretor.
Isso tudo aconteceu quase no fim da manhã. O local foi isolado, mas a perícia só feita por volta das 19h30. Fato que viria a amparar a tese da defesa.
114 ferimentos de pancada pelo corpo
Em sua sustentação, o promotor Diogo Erthal disse não haver dúvidas de que Karen foi brutalmente assassinada. E o autor foi Gustavo.
“Ela morreu de porrada. A perícia mostra que havia 114 ferimentos. Somente dez não eram recentes. É difícil saber o quanto ela sofreu. Quando ele foi para o hospital, ela poderia estar agonizando”, ressaltou o promotor.
Erthal disse que Gustavo foi matando Karen um pouco a cada dia desde que começaram a se relacionar. Mostrou aos jurados fotos do cadáver e também imagens dos resultados das agressões que teriam ocorrido ao longo do relacionamento. O casal vivia uma relação turbulenta desde quando se conheceram, em 2018, quando Karen viu Gustavo cantando num bar.
Relatos e inúmeras fotos de agressão
A irmã de Karen, Caroline, contou que ouviu vários relatos e viu inúmeras fotos com os resultados das agressões ao longo dos anos. Ela conta que tentou de tudo para afastar a irmã de Gustavo, mas eles sempre acabavam voltando. Karen chegou a ter medida protetiva contra o agressor.

Caroline diz que a vida de Karen desmoronou a partir do momento em que conheceu Gustavo. A vítima havia enfrentado uma depressão após o término de um relacionamento, que piorou quando ela perdeu os pais num intervalo de três meses em 2018. A essa altura, já havia conhecido Gustavo.
“Ela se tornou dependente emocional dele”, disse Caroline.
De emprego público com bom salário a Pix de R$ 27
Segundo ela, a irmã, que tinha um ótimo emprego no Tribunal de Contas do Estado, começou a afundar financeiramente durante o relacionamento com Gustavo. Caroline disse ter contraído um empréstimo de R$ 50 mil para ajudar a irmã.
“Tempos depois, ela chegou a me pedir um Pix de R$ 27. Uma funcionária do TCE quase precisando mendigar para comer”, revoltou-se Caroline.
Rotina de remédios controlados e bebida alcoólica
A irmã da vítima disse ainda que viu várias vezes Gustavo incentivando Karen a tomar remédios controlados e misturar com bebida alcoólica. Segundo ela, nessas ocasiões ele aproveitava para deixar Karen dormindo e sair com o cartão de banco e o carro dela.
Caroline disse que, quando se deu conta, a situação estava tão insustentável que Karen sequer podia usar seu plano de saúde, por falta de pagamento. Foi por ocasião de sua primeira internação, após surto provocado por abuso de remédios e álcool. Ao todo, foram três internações.
80 pinos de cocaína que seriam do réu
Outras testemunhas reafirmaram o abuso de remédios e álcool por parte de Karen. Uma amiga, que chegou a morar com ela por alguns períodos, disse que todos a sua volta se preocupavam, e chegou a romper com ela devido à obsessão de Karen em se manter no relacionamento abusivo.
Caroline relatou que, após várias suspeitas, descobriu que Gustavo era viciado em cocaína e, numa busca pela casa, achou 80 pinos da droga. A informação em nenhum momento foi contestada pela defesa durante o julgamento.
Horário da morte vira argumento da defesa
Na hora de sustentar sua tese de inocência, a defesa se agarrou à hipótese de dúvida razoável, inclusive questionando os verdadeiros horários e dias da morte. Alegando que a rigidez cadavérica começa entre duas a quatro horas após o óbito, baseou-se no laudo do perito para abrir a possibilidade de a morte ter ocorrido no dia 20, não no dia 19. Nesse caso, Gustavo estaria, comprovadamente internado no hospital quando o óbito ocorreu de fato, que seria um fator que poderia inocentá-lo.
Uma das advogadas da defesa, que apresentou uma equipe de oito pessoas, levantou a hipótese de que convulsões ocasionadas pelo uso de álcool e remédios podem ter causados os ferimentos fatais em Karen. A defesa até sugeriu que quando o corretor tocou o corpo da vítima e sentiu que estava frio, a temperatura simplesmente poderia estar assim porque ela estava deitada no chão gelado. A hipótese levanta uma possibilidade macabra. De o local ter ficado isolado, enquanto Karen ainda agonizava, e os outros achavam que ela já estava morta. Em nenhum momento, porém, a defesa questionou o fato das agressões realizadas pelo cantor ao longo do relacionamento que deixaram marcas visíveis no rosto de Karen.
Muletas, falta de respostas e choro silencioso no fim
Gustavo ficou fora da sala de audiência durante mais da metade do julgamento, para não constranger testemunhas. Nos momentos em que ocupou seu lugar, permaneceu de cabeça baixa, quase sempre de olhos fechados.
O cantor estava de muletas. Alegou sofrer sequelas de um Acidente Vascular Encefálico que teria sofrido. Foi, aliás, esse o motivo alegado por ele para usar a prerrogativa de se manter em silêncio durante o julgamento e não ser inquirido nem pelo Ministério Público nem pela defesa. O promotor mostrou laudos em que alega não haver nenhum tipo de dano neurológico em Gustavo. A defesa não questionou isso.
Impassível a maior parte do tempo, finalmente chorou, em silêncio, depois de a sentença, que levou pouco mais de dez minutos entre a decisão dos jurados e a dosimetria da juíza, ser lida.


























































