Era uma noite de terça-feira quando o companheiro relatou sua história ao grupo. Aconteceu quando estava há mais de um ano recaído, depois de um longo período sem usar drogas e frequentando a irmandade. E a recaída foi feia. Como diz a literatura do Programa dos Doze Passos, foi pior do que o uso de drogas anterior. O cara estava completamente derrotado. Numa noite, com o bolso cheio de drogas, estava descendo o morro, quando sua moto deu pane total. Do nada. O cara praguejou, se enfureceu. E foi quando se deu conta de onde estava.
A moto parou justamente em frente a um grupo da irmandade. Próximo ao horário em que iria acontecer uma reunião. O camarada parou, pensou. Entro ou não entro? Quando se está sob efeito de drogas e prestes a usar ainda mais, a sanidade não é exatamente uma coisa que aflora no momento. Por isso, tomou uma decisão meio canhestra, que no fim se mostrou certa. Mesmo que por linhas tortas.
O camarada fazia parte da irmandade, mesmo estando afastado. Sabia que o sugerido era nunca entrar num local de reunião portando drogas ou qualquer objeto costumeiramente utilizado no uso. Sendo assim, arrumou um lugar, cheirou toda a cocaína que tinha no bolso, tentou se recompor, como se isso fosse possível, e entrou na reunião.
Lá dentro, escutou as partilhas. Ao fim da reunião, pediu ajuda a um companheiro. Desde aquele dia, frequenta assiduamente as reuniões e não está usando drogas. Inclusive atua como servidor em um grupo. Não sabe explicar o que aconteceu naquela noite. A pane na moto, o despertar espiritual. Só tem uma resposta, que parece simples, mas não é: O Poder Superior.
As irmandades destacam que existe um Poder Superior, que é maior do que a doença do vício. Pode ser uma divindade, uma pessoa, um animal. Não importa. Existe e está lá para ser acessado pelo dependente químico. Muitos nas irmandades acreditam ainda que o tal Poder Superior resolve interferir às vezes. Destino? Vá saber. O fato é que existem milhares de relatos. Aqui só faço dois que conheço de perto.
O segundo se deu quando o Poder Superior pode ter se manifestado, de certa forma, por um terceiro. Aconteceu que o viciado chegou à boca de fumo para comprar cocaína. Na hora de puxar o dinheiro, deixou a chave cair. Nela estava um chaveiro de Narcóticos Anônimos. O traficante viu. O bandido tinha um pai que estava tentando se livrar da dependência química havia anos e frequentava a irmandade. Ao ver o chaveiro, o traficante se recusou a vender para o rapaz. O que aconteceu depois não sabemos. Mas o fato é que, naquela noite, naquela boca de fumo, o cara não comprou nada.
Eu sou ateu convicto, a despeito de me pegar dando atenção a certos misticismos. “Quem é ateu e viu milagres como eu”, como canta o Caetano Veloso. O fato é que considero meio inexplicável ainda a circunstância de estar sem beber há um ano. A coisa tinha se tornado muito feia pra mim. Não via luz no fim do túnel, tampouco acreditava no poder do Programa dos Doze Passos. Não para mim, pelo menos. Mas vem acontecendo. E isso eu atribuo muito à frequência diária das reuniões das irmandades (sou membro de duas). De fato, tem algo inexplicável dentro daquelas salas quando começa uma reunião. Meu lado racional grita que é apenas apoio terapêutico de um viciado para o outro, como prevê o programa. Mas o mesmo programa diz que existe algo a mais lá dentro. E de certa forma eu posso sentir.
Por isso escolhi esse tema para esse primeiro texto sobre o assunto. Para quem não me conhece, sou escritor, jornalista há 32 anos e alcoólatra. Publiquei um livro chamado “Garrafas ao mar”, escrito à mão durante minha internação de 110 dias numa clínica. Desde então, venho me dedicando a entender o programa e compartilhar um pouco dele com os outros através do meus textos.
Convido vocês a participar dessa viagem interior comigo. E finalizo a de hoje com uma curiosidade. Horas atrás, eu estava com o cachorro Lunga na rua. Parei para acender um cigarro. Estava justamente pensando neste texto, no tal Poder Superior, seus sinais, quando um motoqueiro numa Harley Davidson encostou, esperando o sinal abrir. Estava tocando uma música bem alto. Era Bob Dylan cantando “It’s all over now, baby blue”. Aquela música que tem os versos “As pedras do caminho / deixe para trás / Esqueça os mortos / eles não levantam mais”. Essas coincidências…


































































