A Assembleia Legislativa (Alerj) já gosta de cumprimentar o público com o chapéu alheio — ainda mais em ano eleitoral. Pois o projeto de lei 2.106/2023, aprovado em plenário e encaminhado ao Poder Executivo nesta terça-feira (11), parece ser um bom exemplo. O texto, que ainda aguarda sanção ou veto do governador em exercício Ricardo Couto, determina que novos hidrômetros sejam instalados, como regra, dentro dos imóveis.
A proposta de Dionísio Lins (PP) (e coautoria de outros deputados) pode criar uma dor de cabeça que vai além do combate aos furtos de equipamentos, já tão comum nos dias atuais: o risco de aumento da tarifa de água e de problemas de abastecimento em locais onde o sistema já opera sob pressão.
É que a mudança pode dificultar, e muito, o trabalho das concessionárias. Com os medidores dentro de casas e estabelecimentos, leituristas e equipes de manutenção passam a depender da presença ou autorização dos moradores para acessar o equipamento. Imóveis fechados ou sem acesso podem exigir novas visitas, deslocamentos e custos, além de tornar mais difícil a fiscalização de fraudes, furtos, ligações clandestinas e falhas de medição.
O alerta ganha peso diante do tamanho das perdas de água no país. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) classifica fraudes, furtos, ligações clandestinas, submedição e erros de leitura como “perdas aparentes” e estabelece regras para combatê-las. No município do Rio, o índice de perdas na distribuição chegou a 38,9%, segundo o dado mais recente do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa). Isso não significa que toda essa água seja furtada, mas mostra o tamanho do desafio para controlar o que é produzido e o que efetivamente chega ao consumidor.
Furto de hidrômetros gerou um prejuízo de R$ 3 milhões a uma concessionária entre 2024 e 2025
O problema dos hidrômetros está longe de ser pequeno. Só a concessionária Águas do Rio registrou mais de 29 mil furtos de equipamentos entre janeiro de 2024 e abril de 2025, com prejuízo estimado em R$ 3 milhões. A Agência Reguladora de Energia e Saneamento Básico do Estado do Rio (Agenersa) já registrou o caso de um imóvel, em Duque de Caxias, que ficou sete dias sem abastecimento após o furto do hidrômetro.
Mas existe uma diferença importante. O furto do hidrômetro, embora gere transtorno, é um problema pontual: o equipamento desaparece, a ocorrência pode ser identificada e o medidor pode ser substituído. Já uma regra que dificulte o acesso ao equipamento pode criar um problema contínuo e muito mais difícil de perceber. Sem leitura e fiscalização regulares, fraudes, ligações clandestinas, submedição e desperdícios podem permanecer por mais tempo sem serem identificados, gerando perdas permanentes para o sistema.
E alguém terá de pagar essa conta. Se a nova regra aumentar os custos de operação ou dificultar o controle das perdas, será preciso definir como esse impacto será absorvido. O presidente da Agenersa, Rafael Menezes, já afirmou que prejuízos provocados por furtos, fraudes e dificuldades de fiscalização podem chegar aos demais usuários por meio de mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos.
Isso não significa que o PL vá automaticamente aumentar a tarifa ou provocar falta d’água — mas cria um risco que precisará ser avaliado antes de a mudança virar regra.
A pergunta que fica é simples: ao tentar proteger o hidrômetro contra o ladrão, o projeto pode acabar criando uma conta maior para quem paga a água em dia?




















































