Os números estavam diante de todos nós, mas passaram quase despercebidos. Uma reportagem recente do jornal “O Globo”, baseada no Atlas da Mobilidade Social do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Prospera Lab, nos alertou para o retrato duro — e pouco debatido — da dificuldade de ascensão social no Brasil. Se a falta de repercussão indica desconhecimento ou resignação, é justamente por isso que o tema precisa ser trazido ao centro da discussão pública.
O estudo mostra que apenas 37,7% dos jovens pertencentes aos 25% mais ricos concluem o ensino superior. O dado, por si só, já surpreende. Mas o choque maior vem quando olhamos para os 25% mais pobres; somente 1,58% chegam ao diploma universitário. A classe média, que muitos imaginam em posição intermediária, está muito mais próxima dos pobres do que dos ricos: apenas 4,17% completam a graduação.
Esses números não são estatísticas frias. Eles representam a distância real entre nascer pobre e ter chances concretas de melhorar de vida. O ensino superior continua sendo uma das principais portas de acesso a empregos de maior remuneração e estabilidade. Quando só uma minoria chega lá, a desigualdade se perpetua. E ela começa cedo.
No ensino médio, 90,73% dos jovens dos 25% mais ricos concluem essa etapa, contra 47,05% dos mais pobres. A classe média, novamente, fica no meio do caminho — mas mais perto da base: 59,54%. A trajetória escolar, que deveria ser o instrumento mais democrático de transformação, segue reproduzindo desigualdades históricas.
O estudo avança e revela um componente ainda mais grave: a cor da pele. Entre os jovens não brancos nascidos nos 25% mais pobres, 51,5% permanecem na mesma faixa de renda ao chegar à vida adulta. Entre os brancos, o índice cai para 36,3%. A mobilidade social, portanto, não é apenas uma questão de renda: é também de raça.
O recorte de gênero aprofunda o cenário. Entre as mulheres nascidas nas famílias mais pobres, 65,1% continuam na mesma faixa de renda quando adultas — quase o dobro dos 32,9% observados entre os homens. A desigualdade, aqui, se multiplica: ser pobre, mulher e não branca significa enfrentar barreiras que se acumulam e se reforçam.
Não se trata de novidade para quem acompanha a realidade brasileira, mas a força dos números exige mais do que constatação. Exige ação. A pergunta que fica é simples e incômoda: quantos programas de governo — municipais, estaduais ou federais — têm propostas concretas para enfrentar esse quadro? Em tempos de campanhas eleitorais, a ausência desse debate é tão reveladora quanto preocupante.
Ignorar esses dados é aceitar que o destino de milhões de brasileiros está previamente escrito. Discuti-los é o primeiro passo para que, um dia, a ascensão social deixe de ser exceção e se torne possibilidade real.


























































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Comentários 4
Excelente análise, Alfeu. Agora falta 1. encontrar as soluções e 2. implementá-las.
Boa noite Alceu, sou um assíduo leitor de seus artigos.
Creio que o quadro seja mais grave: Não existe interesse dos candidatos pelo assunto e nem do eleitores de votar em alternativas diferentes aos candidatos que se reversão no governo.
O processo de exclusão vem do Brasil Colônia, passa pelo Império e chega à República. Ou seja, nosso processo civilizatório é excludente desde sempre. A classe dominante faz de um tudo para mantê-lo.
O assunto escolhido para o tema desta semana, além de importantíssimo é também super oportuno, uma vez que estamos às vésperas de novas eleições políticas. Acho que a desigualdade desenfreada, está enraizada na classe média. De fato, a hora de uma cicatrização emergencial dessa chaga enraizada na classe média, seria a inclusão do tema ascensão social nos debates políticos, mas os pretensos candidatos, querem mais é distância. Alfeu, mais uma vez, um super parabéns.