“Existe uma cura para tudo, exceto a morte.”
A frase lapidar do clássico filme italiano de Vittorio De Sica, reproduzida pelo personagem Antonio Ricci, interpretado por Lamberto Maggiorani, atravessa gerações e ganha mais uma esquina no Rio de Janeiro.
No filme, a bicicleta é o objeto que desaparece. No Rio de Janeiro de 2026, a vida é que vira objeto.
Sim, porque há uma espécie de violência que começa antes do primeiro golpe, no momento em que alguém olha para outra pessoa e decide, sem conhecê-la, quem ela é. Ou quem poderia ser.
Talvez seja a parte mais incômoda da história de Cláudio Rafael Landeiro Moreira, assassinado depois de ser brutalmente espancado em Copacabana. Segundo as investigações da polícia, ele foi abordado depois que um segurança suspeitou que a bicicleta que conduzia fosse roubada. Depois da abordagem, Cláudio foi levado para outra rua e agredido por um grupo de homens, entre eles entregadores. Não resistiu.
Agora, os quatro homens identificados nas imagens da agressão — do abate — estão presos. Dois entregadores e dois seguranças foram localizados pela polícia e se entregaram. A investigação, no entanto, continua, e a polícia ainda apura a participação de outras pessoas.
Mas isso é porque foi em Copacabana, onde no fuso-horário social carioca, miliciano vira justiceiro.
A família de Cláudio conta que ele tinha transtornos psicológicos. Mas essa informação não deveria ser necessária para que a tragédia nos causasse indignação. Uma pessoa não precisa apresentar diagnóstico, profissão ou qualquer documento de pertencimento para ter direito à própria vida.
É justamente aí que o caso de Cláudio faz lembrar de outras histórias que o Rio de Janeiro parece insistir em não esquecer e, ao mesmo tempo, parece insistir em repetir.
Em 2007, a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto esperava um ônibus na Barra da Tijuca quando foi atacada por cinco jovens. Foi espancada e roubada. A justificativa foi a de que os agressores haviam pensado (ou confundido, nas palavras de quem decide sobre o futuro da vida alheia) que Sirlei fosse uma prostituta.
Em 2022, foi a vez de Moïse Mugenyi Kabagambe. Congolês, refugiado, 24 anos. Estrangeiro, mas não “gringo”. Foi ao quiosque onde trabalhava, na Barra, para cobrar duas diárias atrasadas. Acabou espancado até a morte. Não era um europeu que caiu no golpe da caipirinha.
Agora, em Copacabana, a história volta a nos colocar diante da mesma pergunta: o que acontece quando uma pessoa deixa de ser vista como pessoa e passa a ser classificada apenas pela categoria que alguém decidiu atribuir a ela?
O ladrão. A prostituta. O estrangeiro. O sujeito “estranho”. Sem contrato social assinado pelo destino. Ou pelo acaso.
O que existe entre esses casos é a ideia, assustadora, de que uma classificação, um rótulo, pode diminuir o valor de uma vida. Ou ceifá-la.
Se é ladrão, então pode apanhar. Se é prostituta, então pode ser agredida. Se é estrangeiro, mas não gringo, não pega nada. Mas nenhuma dessas temeridades autoriza a violência.
Porque há algo ainda mais perigoso e vil do que a violência em si: a justificativa que vem depois.
“Eu achei que fosse.” Em seguida, um “E daí?”.
O problema começa quando o “achei” passa a valer mais do que o “achado”: a vida de quem está diante de nós. Quase vinte anos separam a agressão de Sirlei do espancamento de Cláudio.
Talvez por isso o linchamento comece antes da agressão física: quando a sociedade aceita que algumas pessoas valem menos do que outras. Ninguém pode ser condenado à morte aleatoriamente, com verniz de justiçamento.
Em que momento passamos a achar que saber ou pressupor quem alguém é nos dá o direito de decidir o que podemos fazer com essa pessoa? E com as próprias mãos?
Pois é.
Comments 2
Kkkkk. Dividida em que? Se o Eduardo Paes, pensava que iria ganhar essa eleição igual foi com o Ramagem, pensou errado. Será uma das eleições mais disputadas das últimas décadas.
Ao contrário do que o povo pensa o Ex-prefeito da cidade de Miguel Pereira não é a pessoa preparada pra assumir o Governo do Estado. O povo quer transparência, e uma política de puso forte.
Miguel Pereira hoje é uma das cidades onde mais sofre com o descaso da política local. Onde o atual prefeito não consegue fazer muito. Pois está de mãos amarradas pelo ex- prefeito que ainda governa. Uma cidade “Maquiada” pra enganar o ” de fora”. Para iludir empresários.
Triste mais é a realidade!
Visitem Miguel Pereira, os bairros afastados e conhecerá a verdade!