Dia desses, resolvi que ia me dar um cinema numa segunda-feira à noite. Como não tinha nada urgente pra fazer durante o dia, resolvi que ia pegar uma reunião na irmandade logo cedo. Caminhei os dois quilômetros habituais e, quando cheguei, estranhei a sala estar fechada. Aguardei um tempo. O secretário poderia ter tido algum contratempo, sei lá. Mas ficou mais esquisito porque nenhum outro membro apareceu.
Como não frequento regularmente aquele grupo específico, achei que poderia ter rolado algum aviso para os frequentadores de praxe. Só para esgotar as possibilidades, liguei para a linha de ajuda da irmandade. O homem que atendeu do outro lado não tinha informações. Acontece que bastaram alguns segundos de conversa para eu reconhecer a voz.
“Fulano?”, perguntei.
“Eu mesmo. Quem é?”.
“João Paulo, lá de Vila Isabel”.
Conversamos um pouco, surpresos pelo encontro telefônico inesperado. O cara simplesmente tinha sido meu quinto-passista. Ou seja, foi o sujeito que se prontificou a ouvir meu inventário pessoal, que escrevi quando fazia o quarto passo do programa, internado numa clínica.
Sem muito o que fazer, peguei um ônibus e fui para o Centro da cidade, onde sabia que começaria em breve uma reunião de outra irmandade. Como sou alcoólatra, as duas me servem muito bem.
Cheguei à reunião e, pouco antes de começar, vi que meu padrinho na irmandade estava lá. Nos encontramos sem marcar, nada. Fiquei pensando o quanto é engraçado você encontrar as pessoas da irmandade quando menos espera. E isso acontece muito. Eles parecem estar em todos os lugares. É bom demais ver isso acontecendo com frequência. A frase “a partir de agora você nunca mais estará sozinho”, que a gente ouve quando ingressa, não é só uma frase-padrão. É coisa que acontece mesmo.
As irmandades levam muito a sério esse compromisso de estarem disponíveis. Além das salas abertas com reuniões em vários horários, há linhas de ajuda, operadas por voluntários como meu camarada do início deste relato. Não bastasse isso, todos dão seus números de telefone a qualquer desconhecido que chega pedindo ajuda.
Outra coisa que acontece é que, chegado o horário do início de uma reunião, pode até não aparecer ninguém, mas o secretário mantém a sala aberta até a hora estabelecida para o fim. Um dependente químico pode surgir faltando um minuto, e ter a oportunidade de uma nova vida caso encontre a sala aberta. Isso é regra de ouro.
Eu já ouvi várias histórias de dependentes que chegaram a uma sala, e apenas o secretário estava lá. Fizeram os dois a reunião. E esses caras acabaram voltando no dia seguinte e voltando e voltando. Um deles é meu amigo. Está limpo há 16 anos. Porque um secretário ficou sozinho na sala com a porta aberta num dia de chuva.
Quando Bill Wilson, cofundador dos Alcoólicos Anônimos, viu-se numa encruzilhada no inicio de sua recuperação, estava sozinho num hotel no Ohio. Desesperadamente, começou a ligar da cabine telefônica identificando-se como um “bêbado que estava sem beber e que precisava conversar com outro bêbado”. Um padre indicou o Dr. Bob Smith. Bill procurou o médico, que disse estar além de qualquer ajuda. “Mas eu não vim ajudar você. Eu vim me ajudar”, explicou Bill.
Bob disse que Bill tinha 15 minutos. Conversaram por mais de seis horas. E juntos fundaram os Alcoólicos Anônimos, que vem salvando milhões de vidas desde 1935. Em 1965, Bill escreveu.
“Eu sou responsável. Quando qualquer um, seja onde for, estender a mão pedindo ajuda, quero que a mão de AA esteja sempre ali”.
Bill ficaria orgulhoso se visse como isso vem se repetindo, milhares, milhões de vezes, a cada 24 horas.
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Não só o Contas Rio, mas o Portal de Remuneração dos Servidores da Prefeitura também está sem atualização. Não se consegue mais baixar as planilhas com os dados compilados, faltam informações sobre empresas como a MOBI, Comlurb, CCPAR… Vale investigar