“Se a vida começasse agora…”. É bem assim, na toada da canção-tema do Rock In Rio, que Sergio Carvalho, orgulhoso portador de um crachá-relíquia da primeira edição do festival, está dando, aos 79 anos, o pontapé inicial em sua carreira musical. O ex-segurança e assistente de produção da fase áurea do Barão Vermelho acabou de finalizar a gravação de “Adeus! Vou-me embora”, feita em parceria com o também compositor Sidney Maestro. A música está sendo lançada nas plataformas digitais.

O curioso é que Sergio, testemunha mais do que ocular da efervescência do Rock Brasil 80, foi buscar inspiração ainda mais longe, em suas origens, para compor. A música é um bolero suingado, mais ao estilo de quando Sérgio começou a dar seus primeiros passos na noite. Já a história da letra? Bem, é uma colcha de retalhos.
“A música surgiu três anos atrás. Eu estava pensando nas dores de amor dos compositores, das histórias que contavam, da experiência em busca dele. Vi muito daquilo. E resolvi tocar a ideia adiante”, conta ele.
Histórias com a banda pelo Brasil inteiro
E Sergio realmente viu muita coisa. Atuou diretamente no mercado musical de 1980 a 1988, sendo os últimos quatro anos dedicados ao Barão Vermelho. Rodou o Brasil inteiro com a banda. E viu muita coisa acontecer.
“Uma vez, estávamos com a banda em Andrelândia (SP). Uma pessoa subiu no palco para dançar. O Frejat fez sinal que deixasse. Depois que o cara desceu, passou um tempo e subiu mais um. Aí, o Frejat pediu para tirar. Levei o cara para trás do palco. Depois do show, estávamos jantando, e apareceu o cara com uns 15. Era filho de um dos sujeitos mais ricos da cidade. Vieram com umas facas. Nós pegamos as facas do restaurante e ficou aquela tensão. Mas, felizmente, não passou disso”, lembra.

O sumiço de Cazuza no meio de uma madrugada qualquer
Sergio, que é empresário e terapeuta em dependência química aposentado, relata que Frejat era um sujeito tranquilão. Já Cazuza, apesar de extremamente doce, era pipa voada.
“Uma vez, em Rondônia, chegamos para um show. O contratante avisou que podíamos fazer de tudo na cidade, menos ir a um bar chamado Copacabana. Tinha bandido, pistoleiro, o diabo por lá. Dá três da manhã, batem no meu quarto e dizem que o Cazuza sumiu. Eu já sabia onde ia achar. Fui até esse tal Copacabana, e Cazuza estava lá. Se divertindo, botando músicas na vitrola eletrônica, cantando, cheio de gente em volta”, conta.
Quarto fechado e máquina de escrever noite adentro
O ex-segurança da banda diz que tinha uma ótima relação com Cazuza. Lembra que o cantor não gostava que entrassem no seu quarto. Somente Sérgio, que passava nos corredores de hotel de madrugada e ouvia o barulho da máquina de escrever Olivetti Lettera 22, que era portátil.
“Cazuza viajava com uma bolsa daquelas de tenista. Enfiava roupas, tudo ali. E a máquina de escrever junto. Ele levava pra qualquer lugar”, relata.
Partida de futebol com direito a Gonzaguinha em campo
Se como segurança, Sérgio precisou tirar a banda de umas roubadas, como assistente de produção teve que jogar nas 11. Literalmente. O pessoal, com exceção de Cazuza, gostava de bater uma bola. E lá ia Sérgio arrumar um campinho e armar a pelada:
“Numa dessas, depois da passagem de som no Mineirinho (BH), achei um campo disponível com um pessoal batendo bola. Era o time do Gonzaguinha, que também curtia futebol”.
O baile perfumado do mito Emílio Santiago
Ao longo da carreira no mundo da música, Sergio colecionou curiosidades. Uma delas com o mítico Emílio Santiago, que considera um dos melhores intérpretes que já ouviu.
“Emílio tinha uns 40 perfumes no camarim, em todos os shows. Antes de vestir a camisa, ele escolhia de seis a oito para usar. Era uma gotinha em cada lóbulo da orelha, em cada mamilo e por aí vai”, conta.
Dos malucos do rock ao trabalho com terapia
De tanto lidar com “maluquez misturada com a lucidez”, como cantou Raul Seixas, Sergio acabou enveredando pela carreira de terapeuta em dependência química, após encerrar as atividades como empresário. Também deu por encerrado esse ciclo. E agora inicia um outro. Diz que tem pelo menos dez temas bem adiantados para se tornarem música nos próximos meses. Os planos para o futuro? Mais ou menos como na música do Barão preferida de Sérgio: “Pro dia nascer feliz”.






















































