Durante décadas, ir ao cinema no Rio significou também ocupar as ruas. Espalhadas por diferentes bairros, as salas de exibição eram pontos de encontro, lazer e convivência, ajudando a movimentar o comércio local e a vida dos arredores do espaço.
Mais do que lugares para assistir filmes, os cinemas de rua se tornaram parte da memória e da identidade carioca.
A relação da cidade com o cinema, aliás, começou cedo. Foi na Rua do Ouvidor que ocorreu, em 1896, a primeira sessão pública de cinema no Brasil, em uma sala alugada do Jornal do Commercio. Poucos anos depois, a recém-inaugurada Avenida Central (atual Avenida Rio Branco) e os arredores se tornaram o coração do entretenimento carioca, com a inauguração, em 1907, do Cine Pathé, na então Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), e o Cine Íris, na Rua da Carioca, inaugurado em 1914.
Ao longo do século XX, as salas se espalharam pela cidade e ganharam espaço também nos subúrbios.
Transformações graduais levaram à extinção dos cinemas de rua no Rio
Com o passar dos anos, porém, o cenário mudou. A televisão, o VHS, o DVD, a internet e, mais recentemente, o streaming ampliaram as possibilidades de acesso aos filmes. Ao mesmo tempo, os cinemas de rua passaram por transformações dentro do próprio mercado de exibição, enquanto os shopping centers se consolidaram como novos espaços para as salas.
Para Talitha Ferraz, professora do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF), o desaparecimento dos cinemas de rua não pode ser explicado por um único motivo.
“Os motivos são muitos, um conjunto de fatores variados, como novas tecnologias, transformação no acesso ao audiovisual, mudanças de ordem urbana, do próprio mercado de entretenimento e lazer, fatores de ordem econômica, além de fatores mais recentes como a pandemia. A sala de cinema passou a enfrentar a concorrência de outras formas de acesso aos filmes, como televisão, mídias físicas, internet e streaming. Com isso, o audiovisual deixou de estar restrito à grande tela. Mas o que se pode precisar na historia do Rio, é que o fechamento acompanhou um fenomeno brasileiro”, explicou a professora.
Foi a partir dos anos 1980 que alguns bairros do Rio começaram a perder suas salas, em um processo que se intensificou na década seguinte. Além das mudanças tecnológicas, houve transformações no próprio modelo de exibição, com salas menores e novas configurações, acompanhando as mudanças do mercado e dos hábitos do público.
Prédios ainda guardam histórias
Mesmo fechados, alguns desses imóveis continuam de pé e carregam marcas de um período em que o cinema fazia parte da rotina dos bairros cariocas. É o caso de antigos espaços como o Cine Matilde, em Bangu; o Cine Vaz Lobo, no bairro de mesmo nome; e o Cine Costinha, em Cachambi.
De acordo com Talitha Ferraz, no bairro de Ramos, outro antigo cinema também chama atenção pelo estado de conservação. O imóvel, conhecido anteriormente como Cine Rosário, está à venda por R$ 4,5 milhões e, de acordo com a professora, ainda mantém sua estrutura interna preservada.
Para a professora, recuperar esses espaços significa também recuperar uma forma de ocupar a cidade. A presença de um cinema na rua cria oportunidades de encontro e fortalece os vínculos entre moradores e o território. Ela destaca ainda o papel que esses espaços podem desempenhar na democratização do acesso à cultura e ao cinema brasileiro. Diferentemente de um equipamento restrito ao ambiente de um shopping, o cinema de rua se insere no cotidiano do bairro.
“Esses equipamentos são importantes para ativar os laços de sociabilidade, para ocupar as cidades. É uma ocupação profícua, uma ocupação muito frutífera do espaço urbano. A gente também pode pensar essas reativações não apenas estritamente como salas de cinema. Mas essa relação também forte desse equipamento com a calçada, de a gente saber que, se a gente andar na rua, se a gente dobrar numa esquina, vai ter ali um equipamento que oferece uma possibilidade de encontro com o audiovisual”, ressaltou Talitha.

Programa Reviver Cinema
É nesse cenário que, por meio da RioFilme, a Prefeitura do Rio lançou o Reviver Cinema, programa voltado à recuperação e modernização de antigos cinemas de rua da cidade.
A iniciativa foi estruturada em três fases, com equipamentos já existentes, imóveis em processo de desapropriação e um mapeamento de outros espaços que poderão receber intervenções.
A primeira etapa reúne três projetos. Em Santa Teresa, o Cine Santa deve ganhar uma nova sala de exibição, com 50 lugares, além de um espaço de convivência e eventos. No Complexo do Alemão, o CineCarioca Nova Brasília passa por um processo de modernização com nova tela, projetor e sistema de som. Enquanto isso, o Estação Botafogo está sendo reformado pela iniciativa privada em parceria com a prefeitura, com previsão de retorno ainda este ano.
A segunda fase mira justamente alguns dos prédios históricos que ficaram pelo caminho: Cine Vaz Lobo; Cine Costinha e Cine Matilde — inaugurado em 1963 e desativado desde os anos 1990, o espaço deverá ser transformado em um equipamento cultural com duas salas de cinema, teatro e outros espaços de atividades.
Já a terceira etapa do programa será dedicada ao mapeamento de outros antigos cinemas que possam ser incorporados ao programa e receber ações de recuperação e modernização.
Depois de décadas em que a sessão de cinema migrou cada vez mais para dentro dos shoppings e para as telas da televisão de casa, a tentativa agora é fazer o caminho inverso: levar novamente o cinema para as ruas dos bairros e da vida cotidiana do Rio.




























































