Nós, os pernambucanos, temos uma habilidade rara. Nós conseguimos transformar qualquer conversa, absolutamente qualquer uma, em uma celebração épica do nosso estado natal. É como se cada um de nós nascesse com um manual interno de orgulho oficial, atualizado anualmente com novos motivos para exaltação. E utilizamos esse manual com a mesma naturalidade com que usamos a bandeira (a mais bonita do Brasil) como camisa, boné, capa de chuva ou traje de gala.
Afinal, não é todo dia que alguém pode dizer, com a maior tranquilidade do mundo, que sua terra já foi um país independente. E nós dizemos. Repetimos. Relembramos. Se deixarem, mostramos até o mapa, o brasão e a linha do tempo. Sim, amigos; Pernambuco, por quase três meses em 1817, foi nação soberana, na única revolta do período colonial que ultrapassou a fase de conspiração, tomando o poder local e instalando uma nova República.
O movimento foi violentamente esmagado pelas tropas monarquistas, e nos restou o heroísmo de Frei Caneca, fuzilado em 1825 por se meter na Confederação do Equador, outro movimento separatista ocorrido em 1824. Isso basta para que nos sintamos, até hoje, como uma espécie de cidadãos de um império tropical que só não dominou o mundo porque estávamos ocupados demais inventando o frevo.
E, por falar em frevo, não há experiência antropológica mais fascinante do que ver um bloco de carnaval, em Olinda, parar no meio da ladeira para cantar o hino do estado, cuja letra todos sabemos de cabo a rabo. “Salve ó terra dos altos coqueiros…”, cantamos com emoção. Com orgulho. Com aquela convicção de quem acredita que Capibaribe e Beberibe não apenas se encontram, mas se abraçam, conversam e seguem juntos para formar o oceano Atlântico como dois velhos amigos indo tomar uma gelada.
Gelada que, aliás, pode muito bem ser substituída por vinho do Vale do São Francisco. Porque aquele vinho, para a gente, não é apenas bom. É praticamente um Premier Cru bordalês que resolveu nascer no sertão por pura ousadia.
Também é nosso o maior teatro a céu aberto do universo, em Fazenda Nova, onde, todos os anos, encenamos a Paixão de Cristo. E alardeamos isso com a mesma firmeza com que defendemos a Caxangá como a maior avenida em linha reta da Terra, mesmo que ninguém nunca tenha comprovado. Quem precisa de comprovação quando se tem a convicção de que o Galo da Madrugada é o maior bloco de carnaval do mundo?
Convicção também não falta quando o assunto é arte. E lá vem um rosário de nomes que orgulhariam qualquer rincão. Mas é o nosso rincão e, entre outros, lembramos de Gilberto Freyre, Paulo Freire, Anita Paes Barreto, Cicero Dias, Francisco Brennand, Capiba, Nelson Ferreira, Lula Cardoso Ayres, Ladjane Bandeira, Vicente do Rego Monteiro, Gilvan Samico, Carlos Pena Filho, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Lenine, Reinaldo Fonseca, Bajado, Nando Cordel, Ascenso Ferreira, Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, João Gomes, Nelson Rodrigues, Waldemar de Oliveira, Hermilo Borba Filho, Marco Nanini, Irandhir Santos, Hermila Guedes, Arlete Salles, Fabiana Karla, Jesuíta Barbosa, Renato Goes, Tuca Andrade, Kleber Mendonça Filho, Lirio Ferreira, Guel Arraes, Geninha da Rosa Borges, João Falcão, Chico Science, Mestre Vitalino, Dona Nuca, Antonio Nóbrega, J. Borges e Zezinha de Tracunhaém.
Eita, a lista é infindável! É tanta gente que, certamente, esqueci alguns. Mas seria imperdoável esquecer os meus primos: o engenheiro poeta Joaquim Cardozo, pelo ramo Moreira, e Gilvan Lemos, Camila, Érika, Clívio, Ilana, Juba, Ceceu e Alceu, pelo lado Valença.
Parece que Pernambuco tem uma fábrica secreta de artistas, abastecida por doses generosas de autoestima. E, olhem, ainda nos damos ao luxo de ter adotado alguns luminares como Castro Alves, Tobias Barreto, Clarice Lispector e Ariano Suassuna. Se implicarem, ainda podemos tirar da cartola a lembrança de que os futebolistas campeões do mundo Ricardo Rocha, Rivaldo e Vavá também são de lá.
Agora, se for pra falar de política conosco, é melhor mudar de assunto. Ou você conhece outro lugar que tenha eleito um conterrâneo Presidente da República por “apenas” quatro vezes?
No fim das contas, o nosso bairrismo é uma força da natureza. Não é arrogância, não é exagero. É afeto. É uma alegria quase infantil de celebrar o próprio quintal. É a certeza de que, se o mundo inteiro resolvesse acabar, Pernambuco continuaria firme, cantando seu hino, defendendo seus rios e exaltando seus artistas e intelectuais. E jurando que não só sua avenida é a maior do planeta, como foi de lá que saíram uns cristãos-novos para fundar uma cidade numa ilha chamada Manhattan.
E quer saber? É impossível não simpatizar com isso. Porque, no fundo, todo mundo queria amar seu lugar do jeito que nós amamos o nosso.
Comentários 9
Engraçado que o Eduardo Paes não se mete nos imóveis caindo aos pedaços no Centro.
Aí ele queria agradar ao povo da FGV. Por que será?
Alguém tem alguma dúvida que um supermercado, em substituição ao outro que já ocupava o imóvel antes, tem muito mais interesse público do que a ampliação da FGV ??? Muito estranha essa postura subserviente do MP considerando a decisão autoritária da prefeitura, pra dizer o mínimo. Já tinha havido uma disputa comercial pelo imóvel onde a FGV perdeu, a oferta do supermercado Mundial foi superior, não havia nenhuma justificativa para essa intervenção da prefeitura. Isso gera uma insegurança jurídica enorme para os investidores do mercado imobiliário.
@fernanda ,concordo plenamente, ah tem uma explicação NAONTEM NENHUM EMPRESÁRIO FORTE so moradores com problemas financeiros ai nao interessa …””ALO IMPRENSA “” VAI UMA DICA DE UMA REPORTAGEM, O QUE TERA POR TRAS DA BRIGA E DISPUTA DA DESAPROPRIAÇÃO DO IMÓVEL AONDE SERIA O SUPERMERCADO QUE A POPULAÇÃO TANTO DESEJA.
Eu sou morador da rua Barão de Itambi. O supermercado desapropriado era fundamental para os moradores, da rua, que pagam IPTU. Além de abastecer os moradores da região, impedia que a rua, sobretudo a noite, ficasse vazia e mais escura.
Curioso, o prefeito: favorecendo a FGV. Ainda mais curioso, proibir as câmeras de segurança “Gabriel”, onde os edifícios já estão retirando-as. Mas, pasmem todos, na rua Barão de Itambi, somente a FGV possui e mantém as câmeras de segurança supracitadas. E agora o MP estadual indo contra os interesses da população. Eduardo Paes, inclusive, derrubou árvores na rua. Terá sido pedido da FGV também?
@carlos perfeito o seu comentário, Ao invés de apoiar para gerar ,trabalho, renda e outros, Estao dificultando quem ainda consegue num momento desses investir no rio , MUITO, MUITO, MUITO, MAS MUITO ESTRANHO, todos contra , e a população querendo, fala sério,
A desapropriação é por conta de “renovação urbana”. No entanto o morador tem que conviver com gente fazendo sexo sobre cx de papelão , barracas que impedem crianças andar pelas calçadas e cocô de adulto pelas calçadas
O centro do Rio, precisa urgente de revitalização,e nada é feito,os prédios lindos,com fachadas incríveis,mas isso não interessa,ao prefeito,prefere prejudicar os comerciantes,com VLT,acabou com a Rio Branco,e o iptu absurdo, que ninguém consegue alugar as lojas, que estão fechadas, absurdo,um lugar que os turistas adoram, é só passar em frente a Colombo,para ver filas enormes de turista
Nossa região é carente de supermercados. FGV pode procurar se instalar na Universidade Ssnta Úrsula. Está subutilizada e conta com intenção de IPTU.
Supermercados tem que ter estacionamento se não repete-se o engarrafamento causado na Voluntários pelos fregueses do Mundial