Tem gente que entra em nossa convivência e não sabemos exatamente quando. Não foi o caso. Há 20 anos, ele adentrou na minha vida ao cruzar a porta do apartamento da minha filha, para um almoço de apresentação das famílias.
Explico: minha filha estava gostando de um rapaz e, como o caso estava ficando sério, promoveu um almoço para apresentação mútua dos pais. Foi ali que nos conhecemos e, vaidosos dos nossos filhos, iniciamos uma disputa surda para conquistar o outro lado.
Naquele almoço ele chegou em um Mercedes Benz, era antigo, mas era um Mercedes. Eu tinha um simples Scénic. 1×0 pra ele.
Para não ficar por baixo, imediatamente troquei o vinho argentino que seria servido por um portentoso Barca Velha. Empatei: 1×1.
Durante a conversa, dirigi o assunto para futebol e disse ser vascaíno (na época isso era motivo de orgulho), mas ele rebateu dizendo ser flamenguista e exaltou a Copa Toyota. Novo empate: 2×2.
Querendo mostrar erudição futebolística, ele me provocou recitando a escalação do meu Vasco, em 1952: Barbosa, Augusto e Haroldo. Eli, Danilo e Jorge. Edmur, Ademir, Ipojucan, Maneca e Chico. Não me fiz de rogado e rapidamente revidei com a escalação do Flamengo, daquele mesmo ano: Garcia, Biguá e Pavão. Jadir, Dequinha e Jordan. Joel, Rubens, Adãozinho, Benitez e Esquerdinha. Sem muita segurança da correção das escalações, concordamos com um novo empate em 3×3.
Outro encontro e ele, sabendo que valorizo engenheiros que sabem ler e escrever, entrou na literatura discorrendo sobre Guimarães Rosa e seu “Grande Sertão: Veredas”. Foi o que me bastou para, em alto e bom som, discorrer sobre “Ulisses”, de James Joyce, e sua ideia de transformar a aventura do épico de Homero em uma odisseia cotidiana em Dublin. Achei que seria 4×3 para mim, mas concordei com o empate em 4×4.
E, assim, passaram-se os anos. As disputas continuaram a ocorrer já amainadas pela convivência fraternal, até que um dia ele, fingindo desapreço, jactou-se de ter sido presidente do Crea. Não resisti e, “en passant”, joguei sujo dizendo: “quando eu era presidente da Petrobrás…”. De bate pronto ele revidou:
— Mas eu fui eleito, você foi nomeado.
Sem dúvida chegamos ao 5×5.
Os empates continuaram a ocorrer: ambos gostávamos de uísque, 6×6. Tínhamos mulheres bonitas: 7×7. Gostávamos de viajar e de boa comida — ele cozinhando e eu comendo — então, 8×8. Filhos e netos maravilhosos, 9×9. Politicamente, ele era da direita e eu da esquerda: 10×10
Ficou claro que raramente tínhamos opiniões concordantes e, se para algumas testemunhas dos nossos embates ficava a impressão de rivalidade odienta, nada mais errado. Aquilo era apenas o confronto inteligente e salutar de duas cabeças pensantes — sem modéstia alguma — com cultura acima da média.
Na semana passada, Alexandre Duarte nos deixou e sei que sentirei muito a sua falta, até por que, egoisticamente, me pergunto: com quem implicarei nas próximas reuniões familiares? Vitória de 11×10 para ele.
Vitória efêmera, volto a contestá-lo, porque tenho a consciência de que brevemente irei reencontrá-lo e empatarei o nosso jogo.
Comentários 1
Lamentável que os eleitores de Piraí tenham decidido eleger Pezão como prefeito da cidade. Uma pessoa que saiu do governo do Rio de forma bastante vergonhosa não deveria receber autorização para concorrer nem mesmo a síndico de edifício. Simplesmente vergonhoso. Pobre povo de Piraí!!