Ela mora em Copacabana há mil anos. Viúva, tem um filho único e, dele, uma neta única. Fez da nora a filha que não teve. O filho mora ali pertinho, no Leblon, mas, com dignidade, ela nunca quis ir morar com ele, apesar dos inúmeros convites da nora que a adotou como substituta da mãe que perdeu cedo. Acostumada com a viuvez, ela aprendeu a sentir-se dona do seu nariz, resolvendo os problemas e atribuições de uma dona de casa “cabeça do casal”, no caso cabeça dela própria.
Na juventude, já demonstrava empatia e solidariedade, qualidades que soube transmitir ao filho, ao aprender a escrita Braille e ensinar aos cegos do Instituto Benjamin Constant.
Por ser muito independente, defende com fervor as suas ideias e sua independência; talvez por isso ela, até hoje, não aceitou a instalação de equipamentos de segurança no apartamento, tem ojeriza pela palavra cuidadora e não quer nem ouvir falar em acompanhante de idosos.
Sozinha faz suas compras no supermercado. Não abre mão de sair para tomar todas as vacinas, o que significa ser prevenida e não hipocondríaca, como comprova com suas poucas visitas periódicas aos médicos — exceção feita ao oftalmologista e ao dentista. Nunca fez os “modernosos” exames de imagens!
Estudiosa e atualizada, gasta parte do seu tempo acompanhando os noticiários na TV, além de ainda tocar piano com maestria.
Cuida pessoalmente da sua vida financeira e sempre fez a sua própria declaração anual do Imposto de Renda. Gosta de ir ao banco pagar seus boletos de água, luz, telefone e condomínio. Nega-se a fazer esses pagamentos por aplicativos de celular ou alternativas tecnológicas e, com muita convicção e razão, explica que fazer aquelas transações bancárias pessoalmente a fazem sentir-se mais viva e útil.
No banco, algumas vezes, de modo levemente arrogante, se recusa a aceitar os convites para as filas de prioritários, alegando que aquele privilégio não é justo para quem, como ela, está se sentindo muito bem.
Magra e elegante, considerada uma linda baiana na juventude, continua bonita até hoje. Vaidosa, não dispensa um bom perfume. Opinativa, costuma ampliar o conceito de Nelson Rodrigues sobre unanimidade, dizendo que toda generalização embute uma boa dosagem de burrice ou preconceito.
Orgulha-se do reconhecido sucesso profissional de seu filho, educado, competente e probo, refletindo a eficácia dos valores e disciplina com que ela o educou e continua orientando. Ainda hoje, quando discorda do filho, já sessentão, não titubeia e, pessoalmente ou por telefone, chama a sua atenção. Ao ouvir a velha desculpa/justificativa: “ora, mãe, todo mundo faz isso, todo mundo faz assim”, ela rebate energicamente, imediatamente, sem dar chance à réplica: “mas eu não sou a mãe de todo mundo”.
Eu discordo dela. Estou convencido de que o mundo seria muito melhor se ela fosse a mãe de todo mundo.
Em novembro, dona Lili fará 97 anos.




















































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Comments 14
Muito bom esse texto. abração
Kkkkkkkkkkk muito bom!
Que delícia de pessoa, eu que já estou às portas dos 82, preciso ser sua pupila!
Sou grata à Deus por conhecer uma pessoa tão especial e que me inspira como exemplo de mulher e de mãe.
Excelente!! D. Lili deve estar louca com a inversão de valores que impera no mundo…
Que maravilha de texto!!! Você é o cara!!!
Uma pessoa maravilhosa. Exemplo de mulher e guerreira. É maravilhoso ter essa senhora, Dona Lili em nossa família..
Que bela a vida de D. Lili. Viajei no texto.
Minha segunda mãe de coração! Deus soube me presentear com essa família. Pena não ter conhecido o marido e pai Formigli, mas tenho certeza que ele combinaria muito comigo pelas histórias que ouço da Lili.
Essa Lili, não conheço pessoa mais prestativa pra todos e nunca ousa pedir ajuda.
Obrigada, minha sogra querida!
Belo texto. Ela existe? Sugiro filme argentino ( acho que Netflix) “ Parque Lezama”, sobre o tema
Admirável senhora , inteligente, uma boa sogra e mãe que sobe bem ser mãe de verdade.
Eu tenho o privilégio de conhecer esta senhora mãe e amiga. Sou feliz por isso.
Um amor de pessoa. Gentil, sempre preocupada com todos nós, sempre orando por todos nós. Não esquece um aniversário, liga todos os anos nos parabenizando.
Uma mulher, forte, guerreira e linda (por dentro e por fora). Amo como se fosse minha mãe.
A vida de Dona Lili é um beĺíssimo exemplo de longevidade. Texto importantíssimo. Merece mais do que um parabéns.