Costumava ir a Del Castilho lá na década de 1990 quando, ainda na trincheira do jornalismo diário, tinha folgas em dias de semana, quando costumava me enfiar no cinema para dois filmes na sequência e o Shopping Nova América tinha boas salas e programação variada. Mas creio que não fui lá neste século. Com o vizinho bairro de Maria da Graça, também na Zona Norte, tenho uma relação mais estável, proporcionada pelo Bar Amendoeira, um precioso exemplar dos botequins cariocas. Mas fui levado a voltar a esse trecho da Zona Norte porque os vereadores aprovaram e o prefeito sancionou a criação do novo Bairro dos Ingleses, delimitado pela subdivisão de Maria da Graça e Del Castilho, como estabelece a Lei Complementar 302/2026.
Maria da Graça e Del Castilho são estações da Linha 2 do metrô do Rio e este carioca – favorável ao transporte público mesmo quando tinha carro – sempre usou os bons serviços dos trilhos para ir até lá. Mas nunca tinha ouvido falar desses ingleses que viraram bairro. Falha nossa, naturalmente: desde meados do século passado, os moradores de um conjunto de ruas usavam esse nome para denominar a região – até alguns ingleses viveram ali. A origem do novo bairro e do nome está na Companhia Nova América de Tecidos, fábrica inaugurada em 1925 em Del Castilho – e fechada em 1991 para dar lugar ao shopping. A empresa trouxe da Inglaterra alguns engenheiros, para a construção, e técnicos, para a operação fabril: para eles e outros funcionários, a Nova América alugava a preços subsidiados imóveis num numa área urbana recém-loteada, vizinha à fábrica.
Essa área está na origem do bairro Maria da Graça: foi lançado, também em 1925, o Bairro-Jardim Maria da Graça pela Companhia Immobiliaria Nacional S/A, que comprara a antiga Fazenda Maria da Graça. O empreendimento foi erguido sob o conceito de garden-city, surgido na Inglaterra (olha os ingleses novamente) com previsão de ruas arborizadas e praças – uma espécie de oásis paliativo para as cidades poluídas da Revolução Industrial. Foi, aliás, a Imobiliária Nacional que patrocinou a construção da estação ferroviária de Maria da Graça – da linha auxiliar da Central do Brasil – em 1929. O traçado dessa linha foi usado na Linha 2 do Metrô: sua estação Maria Graça fica no lugar da antiga estação ferroviária.

Para chegar ao novo Bairro das Ingleses, basta desembarcar do metrô exatamente naquela estação – as 10 ruas (Pires de Carvalho, Domingos de Barros, Ferreira Cardoso, Silva Rosa, Antônio de Freitas, Atílio Milano, Guanacás, Jacutinga, Resende Costa e Travessa Malafaia) que formam o bairro faziam, quase todas, parte de Maria da Graça. E elas têm mesmo características próprias na pequena elevação no lado direito dos trilhos na direção da Pavuna: muitas casas, prédios baixos, residências na grande maioria.
Há alguns poucos serviços – academia de ginástica, cabeleireiro, oficina mecânica – ocupando os cerca de 800 imóveis, pelas contas da Associação de Moradores e Amigos do Bairro dos Ingleses, fundada em janeiro pelo pessoal empenhado na oficialização do novo bairro, finalmente formalizado com a aprovação pela Câmara no começo de agosto (com um jabuti municipal, abrindo caminho para a criação de fundos imobiliários: mas isso é outra história). Mas comércio de verdade só na Avenida Dom Helder, que contorna o Bairro dos Ingleses e serve de divisa com os vizinhos Maria da Graça e Del Castilho. E há grades na entrada de, ao menos, quatro ruas para delimitar o bairro – e uma cabine telefônica ao estilo londrino, com uma placa caprichada na frente, no acesso pela Pires de Carvalho.

A segurança é preocupação evidente; e, natural, numa Zona Norte onde o policiamento ostensivo é sempre precário. As casas e edifícios têm, em maioria, muros altos e cercas de arame farpado; câmeras de segurança também tornam a paisagem menos inglesa. Numa tarde nublada deste setembro um tanto londrino no Rio de Janeiro, poucas pessoas e poucos carros circulam pelo bairro – a velocidade nas ruas é limitada por seguidos quebra-molas. Um morador garante que, nos fins de semana, há mais movimento, que os vizinhos se frequentam, crianças brincam na calçada e idosos se exercitam na pracinha.

Mas, como qualquer britânico legítimo iria reparar, falta um pub neste Bairro dos Ingleses no subúrbio carioca. No perímetro delimitado pela prefeitura, a opção para uma cerveja é na fieira de barracas vizinhas à estação do metrô. Para as almas boêmios, melhor atravessar a linha – por dentro da estação – e andar pouco mais de 10 minutos até o Bar da Amendoeira, onde matei as saudades da moela da casa, cantarolando um samba de Aldir Blanc para homenagear os 80 anos (em 2 de setembro) do cronista da alma carioca.
Ali, entre o balcão e as mesas sob a amendoeira que rebatizou o Café e Bar Lisbela, os frequentadores parecem não se opor à criação do novo bairro, tirando uma costela de Maria da Graça; um morador deste lado dos trilhos do metrô lembra que “tem gente do lado de lá que se acha mesmo meio inglês”. Só não podem, concordam os companheiros de mesa, tirar a brasileira Maria da Graça do nome da estação.

























































