A Polícia Federal (PF) procurava provas sobre os bilhões de reais do RioPrevidência direcionados ao Banco Master. Acabou encontrando, no meio do caminho, um documento que abre uma frente completamente diferente — e que coloca sob questionamento uma antiga operação da AgeRio, agência de fomento controlada pelo governo do estado do Rio de Janeiro.
É o típico caso de quem atirou no que viu e acertou no que não viu.
A descoberta ocorreu durante a Operação Barco de Papel, desdobramento das investigações sobre os investimentos do RioPrevidência no Banco Master. Um dos alvos foi Fernanda Pereira da Silva Machado, que ocupou a Gerência de Controle Interno e Auditoria do fundo previdenciário estadual.
Segundo a PF, Fernanda participou do processo de credenciamento do Banco Master e da Planner Corretora. A investigação sustenta que ela assinou o atestado de credenciamento das duas instituições e que o procedimento teria ocorrido sem as análises técnicas obrigatórias. A Procuradoria-Geral da República incorporou essa descrição ao pedir o aprofundamento das investigações.
Foi justamente na busca contra Fernanda que apareceu o fio que leva à AgeRio.
Um documento que não falava do Master
Entre celulares, computadores, cadernos e papéis recolhidos pela PF, havia um documento identificado no termo de apreensão como bem nº 2026.59083.
A descrição feita pelos policiais é precisa, porém quase indecifrável: tratava-se de um “Termo de declarações, controle interno 008941-1921/2026, procedimento 921-00001/2025, em três laudas”. O papel foi lacrado e incorporado à petição 15.676, que reúne as medidas relacionadas à investigação do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF). O registro da apreensão está na peça 64, página 96.
Essas três páginas reaparecem mais adiante nos autos como a peça 183, folhas 544 a 546.
E não tratam do Banco Master.
São o depoimento prestado à Polícia Civil por Ricardo Iracy Igayara, ex-sócio da Reginalves — empresa conhecida pela marca Rica Alimentos.
É nesse depoimento que surge a AgeRio.
Um salto de R$ 1,2 milhão para R$ 25,4 milhões
A história narrada por Ricardo começa quando ele deixou a sociedade da Rica.
Segundo seu depoimento, em janeiro de 2014 ele recebeu, como parte do acerto para sua saída da empresa, uma área de aproximadamente 36 mil metros quadrados em Engenheiro Pedreira. O terreno teria sido avaliado naquele momento em aproximadamente R$ 1,8 milhão.
Ricardo afirma que tomou posse da área, construiu casa, galpão e realizou outras benfeitorias. Há, entretanto, um detalhe fundamental: ele próprio reconhece que a transferência não chegou a ser registrada no RGI.
Depois veio a surpresa.
Ainda segundo Ricardo, ele descobriu que aquele mesmo imóvel havia sido utilizado pela Reginalves como garantia de um empréstimo de R$ 20 milhões obtido na AgeRio, em operação contratada em abril de 2014.
Para sustentar o financiamento, diz o ex-sócio, a área teria sido avaliada em nada menos que R$ 25,4 milhões.
A diferença chama atenção porque Ricardo afirma no mesmo depoimento que a Reginalves havia comprado o terreno poucos anos antes por cerca de R$ 1,2 milhão. No momento em que a propriedade foi destinada a ele, o valor citado era de aproximadamente R$ 1,8 milhão.
Poucos meses depois, na operação de crédito, aparece o valor de R$ 25,4 milhões.
Em termos simples: segundo a versão prestada à polícia, um terreno adquirido por cerca de R$ 1,2 milhão passou a sustentar um empréstimo público de R$ 20 milhões depois de receber uma avaliação superior a R$ 25 milhões.
É uma multiplicação de mais de vinte vezes sobre o valor de aquisição mencionado pelo depoente.
O dinheiro era público
A relevância do episódio não está apenas na valorização descrita.
A AgeRio é justamente o agente financeiro que aparece no documento como responsável pela concessão dos R$ 20 milhões à empresa.
Ricardo afirma que não participou da contratação do financiamento. Também cita no depoimento nomes relacionados à agência e diz não ter mantido contato com eles durante a operação. Posteriormente, segundo sua narrativa, a dívida deixou de ser paga e a garantia acabou produzindo consequências sobre a área que ele dizia ter recebido quando saiu da sociedade.
O documento, sozinho, não permite concluir que a avaliação de R$ 25,4 milhões tenha sido fraudulenta. Esse é um ponto importante.
O valor consta de um depoimento. Para transformar a suspeita em constatação seria necessário confrontá-la com o laudo de avaliação utilizado pela AgeRio, o contrato original de financiamento, a matrícula histórica do imóvel e os documentos que justificaram a concessão do crédito.
Também há outra peculiaridade: como o próprio Ricardo afirma que não registrou a transferência no cartório de imóveis, é possível que a Reginalves ainda aparecesse formalmente como proprietária quando ofereceu a área em garantia.
O problema que permanece é outro: como se chegou aos R$ 25,4 milhões?
A Rica entrou em recuperação judicial
A cronologia relatada no documento também chama atenção.
Ricardo diz que deixou a companhia no início de 2014. O empréstimo da AgeRio teria sido contratado em abril daquele ano e os recursos liberados posteriormente. Em julho de 2015, a Reginalves entrou em recuperação judicial.
No mesmo depoimento, o ex-sócio faz outras acusações sobre a gestão da empresa, entre elas a existência de um suposto processo de “esvaziamento de patrimônio”.
Mais uma vez, é preciso separar as coisas: o documento comprova que Ricardo fez essa declaração à Polícia Civil. Não significa que a acusação já tenha sido comprovada.
Há ainda uma ramificação mais recente. O depoimento menciona que a Fictor Alimentos foi aprovada como arrendatária da Reginalves durante a recuperação judicial e registra também a posterior recuperação judicial da Fictor Holding.
Mas o que isso tem a ver com o Master?
Até aqui, nada demonstra que a AgeRio tenha participado do esquema investigado em torno do Banco Master.
Esse é justamente o aspecto curioso da descoberta.
A investigação do Master chegou à AgeRio por causa de um documento encontrado com uma das investigadas do núcleo RioPrevidência.
Fernanda não era uma personagem periférica. Segundo a PF, ela integrava o chamado núcleo operacional do caso e, como gerente de Controle Interno e Auditoria, teria assinado o credenciamento do Master e da Planner.
A busca revelou também uma conexão financeira que a PF registrou nos autos: Fernanda possuía conta de pessoa física na Planner Corretora e era atendida pela Saga – Agentes Autônomos de Investimentos.
O operador Ricardo Siqueira, personagem central da investigação sobre a captação de dinheiro de regimes de previdência para o Master, também era cliente da Planner e utilizava a mesma Saga como assessora de investimentos.
A PF apreendeu ainda cadernos de Fernanda e registrou que algumas das anotações “aparentam ter relação direta com os fatos apurados” no caso RioPrevidência.
E a própria Fernanda, durante a busca, disse aos policiais e aos representantes da OAB que imaginava estar sendo alvo da operação justamente por causa das investigações relacionadas ao RioPrevidência.
A pergunta que o inquérito deixou
É nesse ponto que o caso se divide em duas histórias.
Uma é a investigação sobre Banco Master, RioPrevidência, Planner e os bilhões de reais em recursos previdenciários.
A outra é uma operação ocorrida mais de uma década antes envolvendo Rica Alimentos e um financiamento de R$ 20 milhões da AgeRio, lastreado, segundo o depoimento apreendido, em um terreno avaliado em R$ 25,4 milhões.
Os documentos analisados não ligam as duas operações.
Mas deixam no ar uma pergunta: por que uma ex-gerente de Controle Interno do RioPrevidência investigada no caso Master guardava, em maio de 2026, uma cópia de um depoimento policial recente sobre uma operação de crédito da AgeRio realizada em 2014?
Foi procurando o Banco Master que a Polícia Federal encontrou essa história.
Agora, a resposta sobre a AgeRio depende de outro conjunto de papéis: o contrato de R$ 20 milhões, o laudo que atribuiu R$ 25,4 milhões ao terreno, a matrícula do imóvel e o processo administrativo que autorizou a operação.
Por enquanto, o que existe nos autos é uma suspeita documental que surgiu por acaso dentro de outra investigação — relevante o suficiente para justificar novas perguntas, mas ainda insuficiente para afirmar que houve fraude na AgeRio ou qualquer participação da agência no esquema atribuído ao Banco Master.
Comments 4
Moro no prédio em frente e a banca, no mesmo dia que foi instalada, já serviu como escudo para um assalto às 20h50. Tenho o vídeo gravado do assalto.
Em menos de 24h já aconteceu o famoso assalto com duas motos pressionando o morador contra a banca. A banca já serviu de biombo para emboscadas! Não precisamos de mais lojas de conveniências, muito menos na área de saída e entrada de escolas!
Um horror essa banca que já está inclusive contribuindo para que bandidismo pratiquem assaltos dos moradores que perderam totalmente a visão da rua!
Eles retiraram a banca dali e jogaram na praça Ben Gurion, num local onde há a ciclovia, poste e apenas alguns centímetros pro pedestre atravessar. Além de fazer um paredão bom para bandido surpreender pedestre. Dá medo só de olhar aquele bloco cinza imenso no nosso caminho.