No princípio era o verbo. Mais os pronomes, os adjuntos e muita imaginação para dar uma resposta aos episódios de violência que, vez ou outra, atravessavam um cotidiano de vida pulsante, afetiva e criativa no Morro da Providência. O que nasceu pequeno, com o Projeto Pretinhas Leitoras amadureceu: o projeto resultou na co-criação da Biblioteca Erê, em parceria com a Associação Cultural Lanchonete<>Lanchonete, e em breve vai ganhar espaço num empreendimento residencial que será erguido na região conhecida como Pequena África, na Zona Portuária do Rio.
“A expectativa é que nossa ação no local possa transformar a vida das pessoas com a criação de um espaço alegre, criativo, de encontros, que vá além da Biblioteca Erê”, explica a pedagoga Elen Ferreira, co-criadora do Pretinhas Leitoras e diretora-técnica e pedagógica da Associação Cultural Lanchonete Lanchonete.
Mas, antes que o leitor se confunda nesta viagem pelo conhecimento, a gente explica. A Biblioteca Erê é hoje um projeto conjunto que nasce de duas frentes. De um lado, o Pretinhas Leitoras, idealizado a partir das experiências das agora adolescentes Helena e Duda Ferreira, de 17 anos. Do outro lado, a Associação Cultural Lanchonete Lanchonete, instituição-obra fundada pela artista fotógrafa e pedagoga Thelma Vilas Boas, que funciona como um espaço de arte, cultura, debate e criação, na Gamboa.
O projeto Pretinhas Leitoras começou em 2015, com as então meninas gêmeas procurando a ajuda da mãe, Elen, para expandir seu universo de leitura, que proporcionava não só a segurança do lar, enquanto os conflitos se desenrolavam do lado de fora, no Morro da Providência, mas também a possibilidade ultrapassar fronteiras através da literatura.

Hoje, as duas iniciativas caminham organicamente ligadas, e é desse encontro que nasceu em 2024 a Biblioteca Erê.
As iniciativas foram longe. Por sugestão das meninas, as atividades culturais ganharam o mundo virtual, democratizando ainda mais o acesso ao que era aprendido e ensinado ali. Depois, as Pretinhas Leitoras ganharam um quadro no programa “Encontro”, da TV Globo, chamado Encontro com as Letrinhas.
Sempre com o mesmo objetivo: entender e criar narrativas tendo a ancestralidade afro-brasileira como referência. Elen explica que a escolha do foco não é uma restrição, mas um recorte necessário.
“A literatura eurocêntrica já está disponível o tempo todo em todos os lugares, inclusive no ambiente escolar”.
A Lanchonete Lanchonete já inspirou a vida de mais de 300 alunos e em 2026 atende mais de 70 pessoas entre crianças, adolescentes e mulheres da região, nas mais variadas oficinas nas áreas de arte, cultura e literatura. Atualmente, uma turma na Biblioteca Erê tem 10 alunas.
As atividades vão desde criação de histórias a rodas de leituras, que já atraíram gente de muita responsa na cultura brasileira, como Conceição Evaristo, que viu seu livro “Olhos d’água” ganhar nova vida pelos olhares da garotada da Biblioteca Erê.
“Foi muito difícil segurar a emoção naquele momento”, lembra Elen.
A pedagoga destaca que a abordagem da ancestralidade se mostra fundamental para construir o futuro. Sem lastro, navio nenhum pode se aventurar em direção ao infinito, afinal de contas.
“Conversar sobre o que fomos, somos e o que queremos ser está profundamente ligado ao conhecimento da sociedade a qual integramos. Por muito tempo, pessoas pretas estiveram invisibilizadas do cenário político, social, cultural e educacional do nosso país”, destaca um trecho de apresentação da Biblioteca Erê.
Atualmente, a iniciativa disponibiliza cerca de 500 títulos de referência afro-indígena. Nela estão obras de autores como Sônia Rosa, Ailton Krenak, Kusan de Oliveira, Renato Nogueira, Conceição Evaristo, Daniel Munduruku, Elisa Lucinda e Lázaro Ramos.
Parte da experiência também está no Youtube, com o documentário “Biblioteca Erê: uma aventura na Pequena África”.
Através dos livros, das publicações nas redes sociais, a atuação na TV aberta e os jovens formados nos projetos, que se tornam multiplicadores de cultura, a ideia é ir cada vez mais longe. Como provam as histórias do orixás e as experiências das novas gerações, o céu não é o limite.
“Sagrado não é o livro, sagrado é quem lê”, pontifica Elen, citando o celebrado poeta brasileiro Sérgio Vaz.


























































