A partir deste segundo semestre, a história da Pequena África, na Região Portuária do Rio, vai passar a devolver os olhares de quem mirar nos olhos dela. O ateliê Cosmonauta Mosaicos está fechando parceria com a Cury Engenharia para instalar 35 painéis na região do Santo Cristo, retratando figuras icônicas da formação da história e da cultura da região.
A Pequena África é composta dos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, e foi assim batizada pelo cantor, compositor e pintor Heitor dos Prazeres.
“Vamos instalar mosaicos de azulejo, sempre ligando as personagens ao contexto histórico”, explica o artista plástico e historiador Johnson Souza, que trabalha ao lado da também artista plástica Natalia Reyes.
CEO da Cury, o executivo Leonardo Mesquita destaca que a parceria cultural com artistas locais tem sido a tônica da atuação da empresa na região. O futuro sendo erguido sempre de olho no passado.
“A região da Pequena África guarda uma parte importantíssima da história do Rio de Janeiro e do Brasil. Uma história que deveria sempre ser exaltada, mas que por muito tempo foi apagada”, destaca o executivo.
De fato, muitas páginas, algumas delas trágicas, da História do Brasil, foram escritas no local.
Nele, chegaram mais de 500 mil pessoas escravizadas (algumas fontes falam em um milhão), a maioria no Cais do Valongo, que foi construído em 1811. O local foi redescoberto 15 anos atrás e depois declarado Patrimônio Mundial pela Unesco.
Milhares destes escravizados nunca conseguiram passar daquele ponto. Já chegaram mortos ou muito debilitados. Acabaram enterrados ali mesmo. Fundadora do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Merced Guimarães dormiu e acordou, literalmente, sobre esta tragédia.
Em 1996, ao começar uma reforma numa casa que comprara no local, descobriu ossadas humanas sob as fundações. O resto é história.. redescoberta, com a localização do Cemitério dos Pretos Novos.

“Esse lugar tem uma memória sensível. Passaram aqui centenas de milhares de escravizados, que deram tudo a essa cidade. O samba, o carnaval, várias outras manifestações culturais. Tudo que é lindo e maravilhoso”, emociona-se Merced, que vê, no presente, passado e futuro se encontrando.
“Os livros de História estão sendo reescritos ao vivo. Mais de cem mil crianças de escolas públicas já passaram por aqui. No total, cerca de 300 mil pessoas entraram em contato com essa história nos últimos anos”, enumera.
História que não tem só tristeza. De alguma forma, a alegria também atravessou o mar, como diz o samba eterno da União da Ilha, e ancorou por ali. A resistência cultural da população de escravizados e outras etnias que se estabeleceu no local deu origem a um caldeirão de conhecimento, que teve como um de seus pratos principais o samba.

Fragmentos desta história estão sendo remontados em instituições como a Casa da Tia Ciata, que preserva a memória de vários ícones da cultura negra no Rio e no Brasil. Hilária Batista de Almeida foi uma figura de destaque de sua comunidade, respeitada no Candomblé e agitadora cultural por natureza.
Por essa casa passaram nomes como Heitor dos Prazeres, Pixinguinha e Donga, autor de “Pelo telefone”, considerado o primeiro samba da história. Teria sido gestado lá.
“Em qualquer lugar do mundo, qualquer metrópole, um lugar como esse seria muito reverenciado. É o que buscamos”, conta Leonardo.
Quer saber mais da história da história? Então, lá vai: durante muito tempo, o samba e as manifestações culturais de origem africana foram estigmatizadas e até combatidas com violência.
Na própria casa da Tia Ciata, havia rodas de choro, socialmente aceitas, que ajudavam a criar uma fachada que permitisse a realização das rodas de samba, dos rituais da religião de matriz africana. Mas era sempre no fio da navalha. Isso até que Venceslau Brás, presidente do Brasil entre 1914 e 1918, arranjou uma ferida na perna que não sarava.
Lembrando que o Rio era a capital do país, Tia Ciata teve seus préstimos requisitados. Curou o presidente. Desde então, os meganhas passaram a ficar na porta da sua casa. Não mais para reprimir. Mas para garantir a segurança do lugar. E, habilidades de Tia Ciata ou não, o fato é que Venceslau foi o presidente mais longevo da história do país. Viveu até os 98 anos.
Voltando ao presente e projetando o futuro, o artista plástico Johnson Souza conta que os painéis previstos terão figuras muito conhecidas e outras nem tanto. Entre elas Sinhô, autor de “Jura”, que décadas depois de gravado pela primeira vez tornou-se sucesso mais uma vez na voz de Zeca Pagodinho.
“Sinhô tinha uma intensa participação da atividade cultural local. Foi um dos fundadores do Fala, Meu Louro, bloco que acabou sendo criado oficialmente somente em 1938, após a morte de Sinhô. Mas ele estava lá”, conta Johnson.
E mesmo falando só de música, a coisa vai muito além do samba. Outro painel previsto terá a figura de Getúlio Marinho. Conhecido também pelo apelido de Amor, foi mestre-sala e compositor.
“Ele é o autor de ‘Pula a fogueira’ (clássico das festas juninas até hoje) e também foi fundamental na criação do que hoje é a organização das escolas de samba do Rio”, lembra o artista plástico e historiador.
Ou seja, parte da história do Brasil está lá de volta para quem quiser ver. No que depender de pessoas como Johnson e Merced, nos próximos anos vai ter ainda mais. É que ainda falta muito, segundo a fundadora do IPN.
“Podemos fazer muito mais. Espero que os visitantes e os novos moradores que estão chegando à região saibam exatamente a importância para o Brasil do chão em que estão pisando”, diz.



















































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