Há uma década, eram realizados os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro. Desde então, a cidade convive com a herança deixada pelo maior evento esportivo do mundo. Impulsionado por promessas de transformação urbana, mobilidade e revitalização de áreas degradadas, o chamado “legado olímpico” revela alguns avanços, mas também estruturas subutilizadas e projetos que não se concretizaram como previsto.
Para o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), a situação da cidade, uma década depois, revela uma combinação entre iniciativas bem-sucedidas “nascidas” dos Jogos Olímpicos com equipamentos que enfrentam graves problemas de uso, manutenção e gestão.
Ao avaliar o panorama do legado olímpico, o presidente do CAU/RJ, Sydnei Menezes, ressalta que os resultados ainda estão abaixo do esperado para um projeto dessa magnitude.
“O que se percebe é que o legado aconteceu de forma parcial e lenta. Já nos aproximamos de praticamente dez anos desde a Olimpíada, e ainda há questões relevantes a serem resolvidas”, observa.
A renovação da mobilidade urbana
Uma das novidades na cidade que a competição deixou foi a implementação do sistema BRT. Os corredores Transoeste, Transcarioca, Transolímpica e, posteriormente, Transbrasil, ampliaram a integração entre diferentes regiões do Rio, nas zonas Norte e Oeste, além de reduzirem o tempo de deslocamento da população.
No Centro, o destaque foi a chegada do sistema de VLT, que contribuiu para a integração dos transportes na região central e portuária, conectando diferentes modais.
A Linha 4 do Metrô do Rio de Janeiro também integra o legado olímpico, ao conectar a Zona Sul à Barra da Tijuca e ampliar a capacidade de transporte na cidade. No entanto, a sua implantação foi marcada por altos custos e questionamentos sobre planejamento e prioridades, sem que houvesse continuidade na expansão do sistema após a sua entrega.
“O legado, de um modo geral, foi apenas parcialmente cumprido. Em relação aos transportes públicos, houve avanços, apesar das deficiências do sistema BRT, que até hoje passa por aprimoramentos”, afirma o presidente do CAU/RJ.
Outras estruturas enfrentam abandono
Enquanto isso, o destino de algumas estruturas do Parque Olímpico levanta questionamentos, como a Arena Carioca 3, transformada em escola municipal de tempo integral; a Arena do Futuro, que teve sua estrutura desmontada para a construção de unidades escolares; e as demais unidades que apresentam baixa utilização ou dependem de novos usos e gestão, como o Centro Olímpico de Tênis, entre outras arenas.
As áreas que deveriam funcionar como espaços de convivência e lazer também enfrentam desafios. O Parque dos Atletas, que já recebeu grandes eventos internacionais, atualmente apresenta sinais de abandono, com relatos de falta de manutenção e segurança. Porém, a situação não é exclusiva dessas áreas: situação semelhante é observada em outros espaços públicos que surgiram no contexto olímpico.
Já a revitalização da Praça Mauá e a criação de equipamentos culturais, como o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio (MAR), localizado no Porto Maravilha, consolidaram a região como um novo polo turístico e cultural da cidade, embora em um ritmo mais lento do que o previsto, conforme destaca o presidente do CAU/RJ.
“Demorou mais que o esperado, mas os museus representam um legado cumprido, uma vez que contribuíram para a revitalização da região portuária”, afirma Sydnei Menezes.