Eu acredito que já nasci com o genoma de ateu.
Família católica, batismo, primeira comunhão, colégio de padres, crisma, nada disso conseguiu me sensibilizar para acreditar em uma vida eterna.
Na infância, os meninos da minha idade, nas missas, obrigatórias aos domingos, rezavam compenetrados e, na hora da eucaristia, quando o padre erguia a hóstia consagrada e o coroinha fazia soar a campainha, fechavam os olhos e baixavam a cabeça, respeitosos, como todos na igreja. Eu nunca resisti à curiosidade; sempre fingi fazer o mesmo, mas, discretamente, olhava para tudo, para todos os lados e, principalmente, para o gestual do celebrante. Nunca vi nada de extraordinário ou sobrenatural.
Os antigos não adoravam o sol e a lua por pura ignorância? Do mesmo modo, acredito que a existência de inúmeros fenômenos que a ciência ainda não consegue explicar, leva o homem moderno ao mesmo erro dos seus longínquos antepassados. E aí ele cria “a vontade de Deus” e os dogmas que justificam o, ainda, inexplicável.
Céu, inferno, purgatório, almas, perispíritos e reencarnação sempre me pareceram cenários e personagens de ótimos ficcionistas. E só. Ferreira Gullar definiu bem essas coisas quando disse que as religiões existem para dar respostas para o que não tem resposta. Talvez, por pensar assim, nunca receei a morte. Morreu? Velou, enterrou ou cremou. Acabou. Portanto, temer o quê?
Já li ou ouvi em algum lugar que a sensação após a morte é a mesma de antes de nascer, ou seja, nenhuma. Acredito nisso e vivo muito bem assim. Amo a quem amo, e são muitos. Odeio a quem odeio, e são poucos. Faço o bem ou o mal de acordo com a minha sensibilidade mundana e terrena, sem me preocupar se aquelas atitudes irão contar pontos em um possível Juízo Final.
Mas, o que me levou a escrever tudo isso? Tenho pensado na morte. Não mais nas dos parentes e amigos mais velhos, mas na minha própria, que fica mais próxima a cada dia. E isto estava me deixando angustiado. Inexplicavelmente angustiado, por não fazer sentido devido às minhas convicções.
Um trecho de uma antiga crônica de Martha Medeiros me chamou a atenção. Citando Amós Oz, ela escreveu que a gente vive até o dia em que morre a última pessoa que se lembra de nós. Enquanto essa pessoa viver, mesmo a gente já tendo morrido, viveremos através da lembrança dela. Só quando essa pessoa morrer é que morreremos em definitivo, como se nunca tivéssemos existido.
Aquele pensamento me fez ver que eu realmente não tenho medo da morte. E me fez entender essa minha angústia recente. Não é medo de morrer, é medo de ser esquecido. Nunca tinha me dado conta disso. Uma forma de egoísmo ou de vaidade. Ou ambas, não sei. Mas uma verdade absoluta, agora entendida e aceita.
O constante desejo de ter netos, que me inquietou há alguns anos, foi um primeiro aviso, não reconhecido. A concordância com minha filha para publicar os livros que escrevi, e que tanto posterguei, foi um novo sinal, que também não percebi. O arquivamento de notas e papéis antes deixados no abandono. O registro de fatos e muitas outras atitudes recentes. A feitura dos livros infantis homenageando cada um dos netos: Luana, Mariana, Antonio e Paula, também se encaixa no pensamento filosófico do escritor israelense porque, percebo agora, que todos esses fatos foram maneiras inconscientes de tentar a minha perpetuação e me levaram a aceitar que do mesmo modo que não temo a morte, morro de medo de ser esquecido.


Nisto estamos juntos. Abraços.
Vc está nas minhas lembranças e eternamente nas minhas memórias. Não tenho a menor pressa, mas daqui a uns 50/60 anos, um dia, vamos morrer de rir lá no céu do que vc escreveu.
compartilho dos mesmos pensamentos, porem com medo da morte.
Não tenho medo da morte afinal, no mesmo centésimo de segundo que ela chega eu saio. Temeria a sofrimento que a precede se não acreditasse que o sofrimento burila o espírito. O pior é a saudade quando é a gente que fica.
O Senhor é inesquecível, Alfeu, ou seja, imortal,
Vc jamais será esquecido por tantas e tantas pessoas que foram ajudadas por vc, inclusive eu e os meus eqto aqui estivermos .
Vc tem um coração maior que vc e é isso que importa .
Serás lembrado sempre.
O tema escolhido é muito interessante e de grande profundidade. Alfeu, admirei sua sinceridade durante todo o texto. Nota 1000.
Total respeito! Melhor um ateu do bem, do que tantos “crentes”do mal…o verbo amar, sintetiza tudo, pois quem ama, lembra, e quem é lembrado, existe, uma vez que o ato de lembrar, passa pela ação de pensar em alguém…como bem disse Descartes, penso, logo existo! Assim, enquanto alguém pensar em nós, existiremos naquela lembrança…Mas, quando a própria pessoa é que “esquece” de si mesmo e perde a faculdade de “pensar”, deixaria ela de existir? Ou estaria “morta” de fato? Ou apenas viveria nas lembranças de quem continuasse a pensar nela?! Bem assim…Segundo Shakespeare em Hamlet, há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia…De pensamento em pensamento, existência e existência, sabemos que o Bem e o Mal existem…caso contrário, não estaríamos ainda de guerra em guerra, aguardando mais uma vez, o inimaginável, captaneado por pessoas inomináveis… depois de tudo que sabemos, lemos, estudamos, criamos e desenvolvemos…Assim, sou Cristã e igualmente ao meu querido e admirado padrinho de batismo, não tenho medo de morrer e sim de me esquecer e ser esquecida…por isso, proponho, como diz a música do rei e seu inesquecível amigo, “se o bem e o mal existem, você pode escolher, É PRECISO SABER VIVER!”
A exuberante cultura, e o texto limpissimo de minha afilhada Salviana, me faz orgulhoso dela. Grato pelo comentário
Oi, Alfeu. Seu texto me fez lembrar um poema que publiquei em um de meus livros. Intitula-se “Apelo” e corre assim:
Quando eu me for, / não terei hino em louvor, / não estarei entre os mitos, / nem serei nome de rua. / Daí meus apelos aflitos: / preservem os meus escritos, / não deixem que o tempo os destrua.
Sei que a vida é um mistério, mas como explicar o porquê de estarmos aqui? Tão pouco tempo neste plano! Pra que?
Amor que serena nunca termina
Sendo religioso ou ateu, acho que a condição não alteraria meu medo maior, que é perder as pessoas que amo.
Meu ateu preferido! Fala e escreve com propriedade. Quiçá todos os ateus fossem generosos e praticassem o bem como você. Como não sou ateia, tenho certeza de que nos encontraremos em outro plano.
Sempre me pego pensando que cada dia a mais é um dia a menos, e confesso que fico com uma sensação de vazio e com medo , não por mim ou por não saber se existe ou não outra etapa a mim reservada no pós morte, mas pela angústia de deixar aqueles que amo, acho que como a maioria dos maridos, pais e avós o nosso maior medo é pensar que não estaremos disponíveis para quando eles precisarem do colo aconchegante, do braço já não tão forte ou apenas dos ouvidos, essa certeza me deixa sempre muito triste .
Onde quer que eu esteja, você estará sempre comigo. Te amo!