No Dia de Finados, celebrado neste domingo (02), o Cemitério dos Ingleses, na Gamboa, é um dos lugares do Rio que ajudam a contar como a cidade lidava com a morte há mais de dois séculos. Fundado no início do século XIX, o espaço é a necrópole a céu aberto mais antiga ainda em atividade no país e preserva túmulos históricos, árvores antigas e uma capela mortuária.
O cemitério particular, tombado pelo Iphan como patrimônio cultural, está aberto para visitação de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h, e faz parte de um movimento crescente no Rio: o “necroturismo”.
Cemitério dos Ingleses foi criado durante o Brasil império
Localizado na Rua da Gamboa, na Zona Portuária do Rio, o cemitério foi criado para atender à comunidade protestante vinda do Reino Unido que vivia na cidade.
A chegada da Corte portuguesa, em 1808, e a abertura dos portos ao comércio com outras nações ampliaram a presença de estrangeiros no Rio, que ainda tinha o costume de realizar sepultamentos dentro das igrejas.
Sua criação está ligada às relações entre Portugal e Inglaterra. Em 1810, o Tratado de Amizade e Comércio entre os dois países estabeleceu condições para o sepultamento de súditos britânicos em território português. O local foi instalado em terras associadas à concessão do príncipe regente Dom João ao representante britânico Lord Strangford.
Embora documentos históricos apontem a implantação do espaço por volta de 1809, registros patrimoniais e históricos indicam 1811 como o ano de sua inauguração. O cemitério passou a receber também estrangeiros de outras nacionalidades e religiões, diante da escassez de locais destinados a pessoas que não seguiam o catolicismo.
Na época, a área ficava em uma encosta voltada para o mar. O terreno elevado, que hoje integra a paisagem urbana da Gamboa, tinha uma relação direta com a região portuária.
Segundo o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), da Prefeitura do Rio, a beleza do lugar e seu caráter bucólico foram registrados por viajantes europeus que passaram pela cidade.
Patrimônio histórico
O Cemitério dos Ingleses foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), com proteção provisória em 1985 e definitiva em 1988. O reconhecimento levou em conta sua importância histórica, arquitetônica e cultural.
O conjunto mantém características de um cemitério-jardim, com caminhos que acompanham o declive do terreno, vegetação frondosa e lápides de diferentes épocas. A capela mortuária é a única edificação identificada no terreno pelo guia de bens tombados do IRPH.
De acordo com a Rio Film Commission, órgão ligado à Prefeitura do Rio, o espaço tem cerca de 11 mil metros quadrados e continua em funcionamento, com quadras de jazigos ativas. A estrutura e a vegetação centenária fazem do local também um cenário utilizado em produções audiovisuais.
‘Necroturismo’ transforma cemitérios em roteiros de história
As visitas ao Cemitério dos Ingleses podem ser incluídas em um novo movimento cultural que tem crescido no Rio de Janeiro, o chamado “necroturismo”, ou “necrotours”, em que os visitantes aprendem mais sobre a história da cidade por meio dos túmulos e das personalidades sepultadas.
Os necrotours são visitas guiadas que percorrem túmulos e construções funerárias para apresentar episódios históricos e aspectos culturais que nem sempre são conhecidos pelo público.
Um dos locais que recebem esse tipo de atividade é o Cemitério de São Francisco de Paula, no Catumbi. A programação do projeto Necrotour RJ, divulgada na plataforma oficial Visite Museus, vinculada ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), inclui visitas guiadas à necrópole.
No caso do Cemitério dos Ingleses, a própria origem do espaço ajuda a compreender a presença estrangeira na cidade e as mudanças nas práticas de sepultamento desde o período colonial.

























































