ATUALIZAÇÃO: matéria atualizada às 10h13 do dia 10 de agosto, com o posicionamento de Victor Travancas.
Nos últimos quatro anos, o rombo nas finanças do estado do Rio aumentou — e os gastos do governo com as chamadas despesas com diárias dispararam. Entre janeiro de 2022 e julho de 2026, os valores empenhados — verbas que o estado reservou e se comprometeu a pagar — somaram R$ 90,21 milhões.
Deste total, R$ 84,13 milhões já foram efetivamente depositados nas contas dos beneficiários ao longo dos quatro anos.
Segundo o Executivo estadual, as diárias são um instrumento para cobrir despesas de alimentação, hospedagem e deslocamento de servidores durante viagens a trabalho, tanto no Brasil quanto no exterior.
No estado do Rio de Janeiro, a concessão das diárias a servidores, empregados públicos e contratados temporários é regulamentada pelos decretos estaduais nº 46.611/19 e nº 47.961/22.
Gastos quase dobraram em três anos
Somente em 2025, os pagamentos atingiram um pico histórico de R$ 25,5 milhões, o que representa uma alta de 96,5% na comparação com 2022, quando o valor foi de R$ 12,98 milhões.
A participação das viagens internacionais também cresceu. Elas representavam 9,4% dos pagamentos em 2022 e passaram a responder por 20,3% em 2023, 21,1% em 2025 e 19,4% no acumulado de 2026.
Os dados foram extraídos do Portal da Transparência e do Sistema de Execução Orçamentária e Financeira do Estado do Rio de Janeiro (SIAFE-RJ).
Aumento de gastos com viagens ao exterior
Entre janeiro de 2022 e 14 de julho de 2026, a base estadual registrou R$ 84,13 milhões em pagamentos relacionados a diárias. Desse total, R$ 69,45 milhões foram contabilizados como deslocamentos dentro do país e R$ 14,68 milhões como viagens ao exterior.
O aumento dos gastos acompanha o crescimento no número de viagens: em 2025, o governo autorizou quase 21 mil diárias, frente às cerca de 15 mil registradas no ano anterior.
A alta nas despesas também reflete o aumento das missões oficiais ao exterior. Além de crescerem em quantidade, essas viagens passaram a concentrar os maiores valores pagos em diárias pelo Estado.
Em 2025, as despesas atingiram o pico

Os valores de viagens nacionais e internacionais seguem a classificação contábil oficial, a partir de dados obtidos no Sistema de Execução Orçamentária e Financeira. No entanto, uma análise dos registros mostra inconsistências na base de dados do governo.
Em 2025, por exemplo, um empenho de quase R$ 4,9 mil foi registrado como viagem nacional, embora a justificativa oficial informasse uma missão em Montevidéu, no Uruguai. Mesmo com esse tipo de divergência, o peso das viagens internacionais nos gastos aumentou. A participação delas passou de 9,4% do total pago em 2022 para 21,1% em 2025.
A Secretaria de Estado da Casa Civil foi o epicentro dos deslocamentos internacionais, concentrando mais de um quarto de todas as despesas com viagens ao exterior no período analisado.
Já nas viagens domésticas, a maior concentração de recursos aparece no Detran-RJ, que somou quase R$ 16,7 milhões em recursos totais comprometidos, motivados principalmente por operações de fiscalização de trânsito.
Quem liderou os gastos com diárias em viagens internacionais a cada ano

Em 2023, Bruno de Queiroz Costa, então subsecretário adjunto da Casa Civil, foi o servidor com maior gasto em viagens internacionais no estado. Ao todo, recebeu R$ 119,5 mil distribuídos em oito empenhos.
Entre as viagens estão deslocamentos para conferências do Grupo de Líderes Empresariais em Londres e Milão, agendas em Boston e Washington com visitas ao Massachusetts Institute of Technology (MIT) e à empresa CloudHQ, participação na Conferência das Nações Unidas sobre a Água, em Nova York, além de uma missão para assinatura de um memorando com a área de tecnologia da Nasdaq.
Mas foi em 2024 que o polêmico advogado e também subsecretário adjunto da Casa Civil Victor Rosa Travancas passou a liderar o ranking, com R$ 99,6 mil em despesas classificadas como viagens internacionais. Entre as justificativas estão a representação do Gabinete do Governador no Fórum de Lisboa e agendas na Universidade de Valladolid, na Espanha, e na Universidade de Siena, na Itália.
Os registros também incluem um pagamento de R$ 24,6 mil para um “estudo científico de modelos de abertura dos Palácios Guanabara e Laranjeiras”, realizado em parceria com instituições italianas. Já outro empenho, de R$ 30 mil, foi registrado apenas como despesa com viagens internacionais, sem informar o destino da missão.
Travancas parece ter tomado gostinho pela agenda internacional. No ano seguinte, em 2025, ele recebeu R$ 228.632,48; e o roteiro incluiu Roma, Madri, Nova York, Montevidéu, Paris, Lisboa, Amsterdã, Houston, Barcelona, Buenos Aires, Miami e Cracóvia; sempre com a justificativa de visitas a universidades e cooperação acadêmica.
E em 2026, ele ainda recebeu R$ 97.738,24. Neste ano, as visitas foram a Dubai, Dublin, Doha, Cairo, Bangkok, Phuket, Singapura, Bali, Nova York e Orlando. A justificativa?
As mesmas visitas institucionais a universidades e intercâmbio acadêmico.
Ranking total de maiores gastos com diárias, de 2022 a julho de 2026

A Casa Civil concentra seis dos dez primeiros nomes com os maiores volumes financeiros recebidos em toda a estrutura estadual. O ex-governador Cláudio Castro (PL), vejam só, aparece na quarta posição, cujas diárias somaram quase R$ 370 mil no período avaliado, principalmente em agendas com comitivas estaduais em cidades como Nova York e Dubai, além de viagens a Brasília e São Paulo.O grande destaque do alto escalão foi mesmo Victor Travancas.
Ele assumiu o topo das listas de 2024 e 2025, somando mais de meio milhão de reais em toda a série histórica, sendo a imensa maioria referente a roteiros internacionais.
Travancas foi exonerado da Casa Civil em março deste ano após dizer que o “Palácio Guanabara é o gabinete do crime organizado”, em uma participação no podcast “Pode Garotinho?”.
Viagens internacionais sob pretexto acadêmico
Apenas no exercício de 2025, as despesas ligadas a Victor Travancas dispararam e chegaram a R$ 228,6 mil, distribuídas em viagens para destinos que incluem Roma, Madri, Nova York, Paris, Amsterdã e Barcelona.
As justificativas oficiais para as viagens do subsecretário costumam citar cooperação internacional, visitas a universidades e representação institucional. Mas os próprios registros apresentam erros evidentes. Há viagens com datas preenchidas com um mês inexistente ou até com o ano registrado como “20255”.
Também há casos de textos repetidos em missões diferentes. Em viagens para Argentina, França, Itália e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, foi usada a mesma justificativa que menciona uma aproximação com o “cenário acadêmico norte-americano”, mesmo quando o destino não era os Estados Unidos.
Essas inconsistências, somadas aos pagamentos registrados de forma genérica, permitem identificar o forte aumento dos gastos e das viagens internacionais da cúpula do governo. Por outro lado, o detalhamento das viagens continua pouco transparente.
Na prática, a base de dados não permite saber com clareza todas as agendas realizadas, os deslocamentos feitos e o destino dos recursos em cada missão oficial, apenas identificar o aumento exponencial nos últimos anos.

Apesar de concentrarem a maior parte dos gastos, as viagens nacionais esbarram em um problema de transparência. Em alguns órgãos, milhares de reais são pagos por meio de uma única nota de empenho anual ou com descrições genéricas, como apenas “diárias”. É o caso do Detran-RJ e da Representação do Governo em Brasília.
A lista dos gastos em voos nacionais também revela uma falha na transparência dos gastos: em alguns órgãos, dezenas de milhares de reais são concentrados em um único empenho anual, descrito apenas como “diárias” ou como uma autorização genérica para todo o ano.
Com esse modelo, não é possível identificar quantas viagens foram realizadas, quais foram os destinos nem quanto foi gasto em cada deslocamento.
Um dos exemplos é o de Ricardo Cardoso dos Santos. Em 2023, a base de dados detalhava viagens individuais da Representação do governo estadual do Rio em Brasília para compromissos no Rio de Janeiro. Já em 2024 e 2025, a maior parte dos pagamentos passou a ser concentrada em empenhos anuais.
Em 2025, por exemplo, os R$ 91.989,25 pagos ao servidor aparecem em uma única nota de empenho para custear “diárias e translados” ao longo de todo o exercício. O documento não informa quantas viagens foram feitas nem detalha os períodos ou as agendas que motivaram os pagamentos.
O que diz Travancas
O advogado Victor Rosa Travancas se posicionou sobre o caso em nota. Confira a nota na íntegra:
“Cumpre restituir aos fatos a sua verdade, antes que a retórica das aparências faça do trabalhador o réu, e dos corruptos o julgador. As viagens oficiais que realizei não foram fruto de capricho, lazer ou vantagem pessoal. Foram serviço. Foram ordens superiores, emanadas no exercício do poder administrativo, às quais, por força do dever funcional e da legalidade, não me era lícito simplesmente opor a minha vontade. E mais: embora tenha requerido minha exoneração, fui compelido, por decisão do Órgão Especial do Tribunal de Justiça, em mandado de segurança, a permanecer a serviço do Estado contra a minha própria vontade.
As chamadas “diárias” tampouco constituíram salário, prêmio ou benesse. Eram mera recomposição, e nem sequer integral, das despesas que o próprio trabalhador antecipava para poder trabalhar. Hospedagem, alimentação e transporte eram pagos por mim, com recursos próprios, sem adiantamento, muitas vezes meses antes de qualquer ressarcimento. Houve missões em que este operário desembolsou mais do que posteriormente recebeu, permanecendo longe da família e submetido, inclusive, a lugares longínquos.
Ressalte-se que nesta época eu era Chefe da Assessoria Acadêmica da Casa Civil e Secretário Executivo do Comitê de Internacionalização do Estado. O meu nome foi escolhido para as missões porque eu era o único Professor Doutor da Estrutura do Governo. E aqui recorde-se, que no Brasil apenas 0,2% da sociedade possui Diploma de Doutorado, e nas academias e nas mais prestigiadas Universidade do mundo, somente são aceitos nos debates de alto nível acadêmico, detentores desta titulação. E mais, órgãos de ciência e pesquisa não recebem que não seja portador deste diploma.
Mais a mais, nunca fui ordenador de despesa. As missões decorreram de determinações do Governador Cláudio Castro e do Secretário-Chefe da Casa Civil, Nicola Miccione. Já as respectivas ordens de pagamento foram subscritas pelas autoridades administrativas competentes, entre elas o atual Subsecretário Executivo da Casa Civil, Aroldo Netto, que permanece no Governo Couto, e o atual Secretário de Governo, Marcos Simões, recentemente promovido pelo atual Governador. As prestações de contas, ademais, foram submetidas aos mecanismos ordinários de controle interno da Administração e todas aprovadas.
O que me causa espanto, portanto, é o viés classista de uma narrativa que procura converter o trabalhador em objeto de escárnio justamente porque trabalhou. É a velha estrutura de dominação: quando o operário cumpre a ordem, sua força de trabalho é invisível; quando recebe a indenização correspondente às despesas que suportou, passa a ser tratado como privilegiado.
E não esqueçamos quem era esse “privilegiado”: o mesmo trabalhador que denunciou a corrupção no CEPERJ, os milhares de funcionários fantasmas e que afirmou que o Palácio Guanabara se transformara no Quartel-General do Crime Organizado. Não recebi privilégios por denunciar o poder; recebi, muitas vezes, o preço político de enfrentá-lo.
Se há algo verdadeiramente vergonhoso nesta história, não é o trabalhador ter viajado para cumprir ordens do Estado. Vergonhoso é pretender transformar o trabalhador em culpado por haver trabalhado, enquanto ainda existe mais de 30 mil funcionários fantasmas no Estado.
Rui Barbosa dizia que, no Brasil, chegáramos ao triste ponto em que se podia ter vergonha de ser honesto. Hoje, talvez se queira algo ainda mais perverso: que o trabalhador tenha vergonha de haver trabalhado, de haver obedecido à lei e, sobretudo, de haver tido a coragem de denunciar os poderosos.
Não me envergonho. Se esta é a luta entre os que mandam e os que trabalham, fico, sem hesitação, ao lado do operário humilhado — porque foi precisamente desse lugar, e não dos salões da burguesia, que sempre enfrentei os que fizeram do Estado instrumento de seus próprios interesses.”

























































