“Padre, é pecado ter amigo maconheiro?” Diante da pergunta, o padre Josileudo Queiroz respondeu em sua rede social que não, não é pecado. “Devemos ser amigos das pessoas, não dos defeitos das pessoas. Sendo amigos, criamos uma abertura para ter a oportunidade de ajudar quem precisa”, respondeu o padre, uma das pessoas a quem sigo nas redes. Conto essa pequena passagem para dar um exemplo de que é possível, de certa fora, treinar o algoritmo. Se você segue gente boa, a rede social, mesmo sendo uma coisa horrorosa, se obriga a te oferecer coisa legal. Pensando nisso, fiz um paralelo comigo mesmo. Um alcoólatra pode ser treinado. É um caminho longo, em que se anda devagar, um passo de cada vez. Mas é possível.
Da mesma forma que um dia cliquei num vídeo do incrível pianista Jonathan Ferr, que faz lindas versões para pontos de umbanda, e passei a receber sugestões de pessoas ótimas da umbanda e do candomblé, com sábios conselhos e palavras e paz e serenidade.
Quando olho para minha rotina hoje é impossível não lembrar dos meus primeiros dias na clínica. Passadas as primeiras horas de horror absoluto, comecei a fazer exercícios físicos toda manhã, tentando domar minhas mãos, que tremiam incontrolavelmente por causa da abstinência. Devagar, um dia de cada vez, flexionava os joelhos, fazia exercícios de pernas, empurrava paredes enquanto não tinha força para fazer flexões. Tudo para afastar a ideia de ficar deitado, lendo e remoendo minha própria miséria. A leitura passou ser somente antes de dormir. E o sono ficou melhor também.
No auge do meu fundo de poço, ao acordar tremendo e vomitando em seco, a única alternativa que eu via era uma dose. Uma, não. Três. Para começar a estabilizar o corpo. E o ciclo seguia indefinidamente. Até que foi interrompido de forma radical. Mas alguma coisa precisava ser colocada no lugar. Foi o que fiz.
Hoje, acordo antes das seis na maioria dos dias. Café, um cigarro (hábito horrível que ainda não consegui largar) e rua com Lunga a tiracolo. Tomo a direção da praça do Grajaú, prendo o cachorro no cercadinho dos aparelhos e começo a fazer exercícios logo cedo. A rotina, além de saudável, é uma espécie de exorcismo de tudo o que passei. Ainda odeio muito as restrições que considerava nazistas da clínica. Minha resposta é caminhar livre, finalmente livre daquele raciocínio imbecil dos donos do confinamento, mas com propósito. E com olhar atento. Para os buracos na calçada, os sinais de trânsito e, principalmente, o passado. Reconheço minhas pegadas naquele caminho tão familiar e desvio para não pisar nelas outra vez.
Então, digo a vocês que é possível treinar seu dragão interior. Nós dependentes químicos que frequentamos irmandades sabemos que ele nunca estará morto. Mora dentro de nós. E lá ficará até fim de nossas vidas. Mas é possível voar em suas costas em vez de ser devorado por ele.





























































