Era uma bela manhã de outono quando aquele senhor com bem penteados cabelos brancos entrou no banco e dirigiu-se ao guichê do caixa mais próximo, estranhamente sem enfrentar filas. “Que banco eficiente, conseguiu eliminar aquelas filas intermináveis. Certamente já adotaram IA e outras tecnologias modernas, facilitando a nossa vida”, ele pensou.
Ao ser atendido gentilmente pelo encarregado daquele guichê, ele, falando mais do que o necessário, como costumam fazer os idosos, explicou que pretendia viajar para o exterior e, passando na porta do banco, aproveitou e entrou para fazê-lo logo.
– Queria comprar mil dólares, usando dinheiro da sua conta corrente. Tudo bem?
O bancário pediu o seu CPF, digitou aquele monte de números no terminal à sua frente, confirmou tudo o que queria confirmar e, franzindo a testa, respondeu:
– Senhor, aqui mostra que não há reserva para aquisição desses dólares.
– E quem falou que eu fiz reserva? Eu disse que ia passando e resolvi entrar para comprar esses dólares.
– Lamento muito, senhor, mas não poderei atendê-lo. O senhor terá que fazer reserva para adquirir qualquer moeda estrangeira.
– Não entendo a razão disso, mas tudo bem. Então, fazendo a reserva, quantos dias são necessários para os dólares ficarem disponíveis?
– Dias? Não, apenas alguns minutos. O senhor pega o seu celular, entra no aplicativo do banco e faz a reserva. O dinheiro será liberado imediatamente.
– Ah, ótimo, então. Vou fazer a reserva agora mesmo, pode ser diretamente com você?
– Não, como eu falei, o senhor deve usar o seu celular para acessar o aplicativo do banco. Lá as instruções são autoexplicativas. Num instantinho, o senhor faz.
– Meu amigo, você me desculpe, mas nós estamos aqui, frente a frente, conversando como humanos que somos. E você me diz que não poderá atender a minha solicitação pessoal e que isso somente será possível se eu usar uma máquina para fazer meu pedido. O senhor está dizendo que o meu celular falará com o seu computador, e que o seu computador lhe dirá para atender ao meu pedido. E você obedecerá. É isso mesmo, ou eu não entendi direito?
– Isso mesmo. Agora o senhor entendeu direitinho.
– Mas se eu não tiver um celular, não poderei comprar os dólares?
– O senhor está brincando, né? Imagine se alguém hoje em dia não tem telefone celular. Claro que o senhor tem um, tenho certeza.
– Você acertou, eu tenho celular, sim. O que eu não tenho é a obrigação de usá-lo para comprar dólares se posso fazer isso falando pessoalmente com o senhor.
– Senhor, eu não posso fazer nada. São as normas e procedimentos do banco que exigem isso.
– Ora, meu caro, o banco não pode criar procedimentos que obriguem o cidadão a ter celular, computador, notebook, tablet ou outros que tais. O banco apenas pode sugerir esses equipamentos como mais uma alternativa para facilitar a vida do cliente, que os usará se quiser, se for da sua conveniência.
Afinal, os bancos existem para atender os seus clientes, pois vivem do que pagamos pelos serviços que eles nos prestam, e não o contrário.
– Desculpe, mas se alguma culpa há acuse a tecnologia e o sistema de informática que exigem isso.
– Calma lá, meu jovem, assim você está subestimando a minha inteligência. O sistema de informática não nasce espontaneamente, são vocês que dizem o que querem que ele faça. Não, meu prezado, não culpe a tecnologia. A culpa é da burrice, incompetência administrativa. Porque não faz sentido, eu aqui, você aí, nos falando, nos comunicando como dois seres inteligentes, precisarmos de um telefone pra realizarmos uma simples transação de compra e venda de moeda estrangeira. É demais pra mim. Por favor, avise ao seu gerente que o seu banco moderninho e tecnológico acabou de perder um velho cliente.
E não fique com essa cara de espanto, porque ainda tenho uma pergunta: – Você está apto para encerrar minha conta agora, ou tenho que fazê-lo usando o tal aplicativo?

