O camarada se encontrava (ou desencontrava) no Andaraí, ainda de manhã, mais pra hora do almoço, numa sexta-feira. Já estava até a tampa de cocaína nas ventas. Com uma arma na cintura, jogava em duas máquinas caça-níquel ao mesmo tempo. No meio de toda aquela loucura, uma cena chamou a atenção dele. Do outro lado da calçada, três sujeitos que ele conhecia da cheiração diária passaram. Ele olhou pros caras e, jura!, viu um “brilho” neles, uma coisa diferente. Parou a jogatina e atravessou a rua para falar com eles. Queria saber o que tinha mudado neles, algo perceptível até de longe. Os caras contaram a ele que tinham parado de usar drogas e estavam frequentando Narcóticos Anônimos. Dada a mensagem, seguiram seu caminho.
Nosso amigo voltou para a escuridão, para a cocaína e para as maquininhas. Mas alguma coisa ficou na cabeça ele. Na hora, não sabia, mas seria a última sexta-feira em que “sextou” com a cara cheia de pó. Virou a noite no uso. Na manhã seguinte, acabou lembrando do que os antigos companheiros de drogadição tinham dito e procurou um grupo de Narcóticos Anônimos mais ou menos perto da sua casa. Não tão perto, que fosse reconhecido imediatamente, não tão longe, que desistisse de ir antes de chegar.
Entrou na sala, começou a assistir à reunião. Dado momento, discretamente enrolou numa nota de dinheiro, meteu o canudo na saquinho de cocaína e deu um teco. Tomou imediatamente um esporro. “Aqui não!”, falou um camarada. Nosso amigo começou a aprender ali que regras existem para serem respeitadas. Não cheirou mais durante a reunião. Ao sair, pegou a droga que tinha no bolso e jogou num bueiro, na frente da igreja onde fica o grupo. Até se lembrou de outras vezes em que tinha jogado droga no lixo e, na fissura, voltado horas depois para recuperar, mexendo na sujeira, no esgoto, onde fosse necessário. Mas daquela vez foi diferente.
Esse cara está sem usar drogas há 21 anos, desde aquele dia. Encontro com ele em vários grupos diferentes da região da Zona Norte em que costumo frequentá-los. Virou um soldado da irmandade. Nunca mais botou arma na cintura. Quando contou essa história numa partilha num sábado de manhã, no mesmo grupo onde tudo aconteceu, decidi na hora que precisava dividir o relato com vocês.
As irmandades têm muitos relatos do chamado “despertar espiritual”, que acontece de várias formas. No caso do sujeito, o processo levou algumas horas. Tem gente que simplesmente sente um estalo e pronto! Ou quase pronto. Porque a recuperação é para o resto da vida. Engraçado é o que o cara que me contou essa história tem nome de arcanjo, viu três malandros que eram o capeta e apareceram como anjos em sua vida. Há mais mistérios entre a boca e a irmandade do que sonha nossa vã filosofia…




























































