Esta semana, eu fui abordado por uma querida amiga que, surpreendentemente, me questionou com inusitada veemência:
— É verdade que você não gostou de “A odisseia”? Eu não quero acreditar nisso. Você, um cara inteligente e culto, não pode dizer que um filme tão elogiado não é bom. O mundo inteiro está achando o filme maravilhoso e apostando que vai ganhar um montão de Oscars. Me poupe!
Agradeci o elogio à minha inteligência e cultura (avaliação dela!), mas discordei da obrigação de balizar a minha opinião pela dita unanimidade favorável ao filme. Eu tenho todo o direito de gostar ou não de qualquer obra de arte, mas não me furtarei a externar as razões que me fizeram classificar “A odisseia” como um bom filme, mas nada extraordinário que justifique essa euforia mundial. E digo mais: não acredito que algum dia ele será classificado entre os 50 ou 100 melhores filmes já produzidos.
O grande mérito do filme foi ter trazido a obra de Homero ao conhecimento das novas gerações criadas na internet. Só de ver a garotada do TikTok ficar mais de três horas sentada no escurinho do cinema sem olhar para os celulares, conhecendo uma obra com mais de 2,8 mil anos (sim, meus jovens, existia vida na terra antes dos computadores e apps) já me faz simpatizar com o diretor Christopher Nolan. Mas isso não faz o filme merecer tantos elogios.
Sem entrar nas críticas comuns que tenho ouvido — como aquele cavalo com dimensões externas incompatíveis com o espaço interno, construído com o esmero de uma escultura atual e enfiado na areia da praia, o que nunca poderia ter sido feito à época por rudes soldados —, vou me ater a outros aspectos que me pareceram mais importantes.
É grande a quantidade de explicações e informações verbalizadas pelos personagens. Talvez tenha sido uma tentativa do diretor de traduzir o poema grego para o grande público. Acontece que o cinema dispõe de imagem, som, expressão, montagem e ação para comunicar ideias. Quando os personagens precisam explicar continuamente o que está acontecendo, o filme perde a força cinematográfica e a magia desaparece.
E a Penélope, coitada, foi apresentada como uma simples tapeceira que ficou 20 anos esperando o marido, sem ressaltar que ela manteve o seu reino de pé durante todo aquele tempo, numa época em que isso não era esperado de nenhuma mulher. Acusar o diretor de misógino seria exagero, mas foi triste vê-la tão reduzida.
O filme é pródigo em efeitos especiais com imagens espetaculares e, portanto, podemos admirar “A odisseia” como um grande espetáculo visual, mas sem deixar de criticar o fato de que o Odisseu de Homero não é apenas alguém que enfrenta monstros e perigos em uma sucessão de aventuras, como mostrado no filme. Homero não escreveu apenas sobre um guerreiro tentando voltar para Ítaca, para a sua mulher. Escreveu sobre o significado de voltar, sobre as transformações de um homem após uma guerra; sobre poder, fidelidade e violência. A aventura é apenas a superfície e, debaixo dela, está uma profunda reflexão sobre o ser humano. E isso —que o diretor não conseguiu transmitir, pelo menos para mim — é o que fez a obra de Homero se perpetuar.
Sem querer desmerecer o filme, não posso deixar de dizer que, em alguns momentos, “A odisseia” me lembrou produções medíocres italianas do século passado, como os vários filmes sobre “Maciste”. Claro, com muito mais tecnologia.
Enfim, respeito as opiniões favoráveis ao filme, mas me reservo o direito de discordar da unanimidade, aderindo ao conterrâneo Nelson Rodrigues, apesar de também não concordar com a unanimidade elogiosa a toda sua dramaturgia.
Oscar? Ah, sim. Merece o de “melhores efeitos especiais”. E só.
Pronto, falei.






















































Comentários 6
Partindo do mesmo argumento eu concordo plenamente com a sua opinião sobre a figura de Penélope no filme, a arte da tecelagem não era apenas o que constituia a mesma como uma Rainha e isso deixou muito a desejar no filme. Conhecendo sobre o trabalho de Nolan percebi que essa é uma de suas maiores críticas ao seu trabalho, personagens femininos sempre desorientadas emocionalmente ou mortas.
Não posso concordar mais. Achei uma chatice. Deve ser a mediocridade do meu intelecto.
Concordo.
O cavalo de Troia, enterrado na praia está patético, mal dimensionado. Eu fiquei atento para vrr caber um montão de soldados.
Pra mim não passa de um filme de ação tipo Super Homem, Batman ou Homem Aranha.
Fiquei tão irritado que dei uma saída e fui tomar um cafezinho
Voltei para assistir o final
Eu pensava que o cavalo seria montado num carro com rodas.
Pois eu amei o filme!! Mas não sou tao inteligente e culto como você e não me recordava da história original
Também não achei o filme isso tudo que muitos acharam, mas tenho gostado do debate em torno dele (ahá, textos como esse inclusive!). Viva o cinema e as salas cheias!
Ultimamente, de modo geral, os filmes que têm sido exibidos, são de qualidade duvidosa. Também concordo com você e acho que “A ODISSEIA”, não estará classificado entre os 100 melhores filmes até hoje produzidos. O texto está brilhante e o autor considerado um autêntico cinéfilo. Meus parabéns.