A cena poderia estar em um romance de realismo fantástico, mas aconteceu no Rio de Janeiro, em plena tarde ensolarada deste setembro.
Um francês, recém-chegado para visitar um amigo, observa perplexo o anfitrião consultar, no celular, um aplicativo chamado OTT — “Onde tem tiro” — como quem verifica a previsão do tempo ou o trânsito. O visitante, com um misto de surpresa, incredulidade e indignação, tenta compreender como um povo tão vibrante e criativo aceita com naturalidade a existência de um serviço que mapeia, em tempo real, os tiroteios na cidade.
A resposta está na forma como o Brasil convive com a violência. Não é por escolha, é resignação.
O espanto do estrangeiro é revelador. Ele enxerga o que nós, brasileiros, já não vemos com nitidez. Quando a violência se torna rotina, ela deixa de ser notícia e passa a ser logística. O OTT não é um símbolo de conformismo, é um sintoma de sobrevivência. Em muitas regiões do Rio, a pergunta “onde tem tiro?” não é mórbida; é prática. É o tipo de informação que define se uma mãe leva o filho à escola, se um trabalhador arrisca atravessar determinada rua ou se um idoso pode ir ao posto de saúde. O aplicativo não celebra o caos, apenas o traduz.
Mas o fato de existir e de ser usado com naturalidade deveria nos inquietar. Ele revela uma sociedade que aprendeu a se adaptar ao risco em vez de combatê-lo. O brasileiro, especialmente o carioca, desenvolveu uma espécie de blindagem emocional, em que o humor, o improviso e a resiliência são mecanismos de defesa, mas não deveriam ser de aceitação.
O visitante francês reage como alguém que ainda acredita que violência urbana é um desvio, não uma normalidade. Para ele, o aplicativo é um absurdo. Para nós, é um recurso. Essa diferença de percepção diz mais sobre o Brasil do que gostaríamos de admitir. Em países onde o Estado cumpre minimamente seu papel de garantir segurança, aplicativos como o OTT seriam impensáveis. Aqui, surgem como soluções comunitárias para suprir a ausência de políticas públicas eficazes.
Este texto não é sobre o aplicativo, mas sobre o que ele simboliza. Quando cidadãos precisam de alertas de tiroteio para circular pela própria cidade, algo essencial se rompeu. E o mais grave é que esse rompimento já não causa espanto. O francês estranha porque ainda não se acostumou. Nós já nos acostumamos. E aí está o nosso erro. Deixamos de nos indignar.
O Brasil precisa recuperar a capacidade de se indignar. Não a indignação performática das redes sociais, mas a indignação que exige mudança. A naturalização da violência não é apenas um problema de segurança pública; é um problema de identidade nacional. Um país que se acostuma ao absurdo perde a capacidade de imaginar o possível.
O OTT é útil, necessário e, em certo sentido, admirável como iniciativa comunitária. Mas sua existência deveria ser um alerta, não apenas sobre onde tem tiro, mas sobre onde perdemos o rumo que precisamos recuperar, pressionando os governadores estaduais, que elegemos democraticamente e que são os únicos responsáveis pela segurança pública.
Comentários 1
Não gostei !!!! O nome deveria ter sido Terminal Margarida !!!!!!