Recife. Ilha do Retiro, estádio de futebol do Sport. Recém chegado do interior, com pouco mais de 12 anos, o menino foi levado por um tio ao estádio, o que, por si só, já era um sonho.
O jogo era noturno, coisa nunca imaginada na sua cidadezinha onde a eletricidade era promovida por um gerador da prefeitura, que funcionava apenas entre seis da tarde e meia-noite.
Os arredores do estádio eram, naquela época, formados por mangues e terrenos baldios sem nenhuma iluminação. O caminho entre o ponto do ônibus e o estádio, era apenas iluminado pelo luar, o que fez aumentar o choque visual ao adentrarem no estádio: saíram da penumbra dos arredores para a feérica luz dos holofotes que, iluminando o verde vivo do gramado e refletida nas coloridas camisas dos jogadores, provocava uma beleza plástica inesquecível, principalmente para quem somente conhecia o acanhado campo de futebol, sem grama e sem arquibancadas, da sua terra.
Bandeiras coloridas eram agitadas por torcedores que gritavam estimulando seus ídolos suados. Ah, e a bola feita de couro branco — até então nunca imaginada — correndo macia sobre o gramado!
Fascinado, apesar da pouca idade, naquele momento o garoto tomou consciência de que o futebol seria eternamente sua paixão esportiva. Quem ganhou aquele jogo? Claro que foi o Santa Cruz, fazendo nascer um torcedor fanático que persiste até hoje, mesmo com o clube competindo na série C do Brasileirão.
Muitos anos depois aquele menino foi tomado pelo mesmo deslumbramento quando, já adulto e se considerando quase um cidadão do mundo, sentiu novamente a mesma sensação de enlevo e admiração do belo ao assistir, pela primeira vez, uma corrida de cavalos no Jockey Club do Rio de Janeiro.
Era um páreo noturno. Mulheres elegantes e senhores, com ares de ricos, se misturavam a pessoas comuns. Mais idosos do que jovens, ele pode perceber, os aficionados se agitavam nas arquibancadas incentivando os jóqueis e falando em um dialeto desconhecido. Sem entender nada da linguagem do turfe: Tordilho, Placê, Dupla Exata, Trifeta, Ponta, Photochart e outros que tais, preferiu fixar-se no visual exuberante do lugar.
A beleza verde da grama na raia iluminada por poderosos holofotes, aliada ao exagerado colorido das camisas dos jóqueis e somada ao brilho suarento dos bem-tratados cavalos Puro-Sangue Inglês, foi tão inebriante que, extasiado, ele jurou, para si mesmo, nunca mais ir às corridas com receio de que o costume apagasse da sua memória aquele momento mágico.
Cumpriu o juramento e continua, até hoje, sem saber o que é Trifeta ou Placê.
Aquele menino, matuto, cresceu e criou asas. Primeira vez em Paris. Ao entardecer, o amigo francês o buscou no hotel, próximo à Champs Elisées e o conduziu, caminhando, por toda a avenida George V. Depois, chegaram à praça Trocadero, após percorrer a avenida Presidente Roosevelt. Ali, sentaram-se em um bistrô e ficaram conversando, bebendo pastis e degustando ostras do Vale do Loire. Ao escurecer, quando as luzes se acenderam, o amigo se levantou, falando:
— Vamos, que eu vou lhe apresentar a francesa mais bonita do mundo.
Caminharam até as escadarias do Museu de Antropologia. Naquele ponto, o francês disse:
— Vou ficar aqui. Você suba a escadaria para vê-la sozinho. Vá — concluiu, quase o empurrando. Cheio de curiosidade ele subiu aqueles degraus, inicialmente devagar e depois acelerando e olhando pra ela. A cada degrau, mais um pouco. No final da escadaria, lá estava ela. Alta, isolada, majestosa, iluminada, inesquecível: a Torre Eiffel.


Depois de 12 horas percorrendo os marcos de Davincci, chegamos a torre. O cansaço era tanto que deu coragem de subir um degrau, sentar e nada mais. Perdi a beleza dela. Parabéns pelo texto.
Ótimo texto, mas fui me envolvendo na leitura e quase tive um susto. Mas não me decepcionei com o meu primo. Kkkkkk
Na minha visita à Cidade Luz visitei a Torre. Fiquei impressionado com a quantidade de gente. Brindamos a cidade sorvendo uma taça de champanhe, lá no último estágio de sua altura. Subi através do elevador e desci pelas escadas.
Olá, Alfeu. Seu texto me lembrou um de Eduardo Galeano, no qual o pai leva o filho para ver o mar. O menino, que nunca vivera aquela experiência, tomado pelo deslumbramento, exclama: “Pai, me ensina a olhar!”
Corrigindo: “Me ajuda a olhar!”
Seu texto me transportou para acontecimentos e lugares que possuem um lugar de destaque em minhas memórias. Como a primeira vez que também conheci a francesa mais bonita do mundo.
Torre Eiffel. Quando estive lá, pela primeira vez, há mais de 30 anos atrás, após subir alguns degraus, tive uma ligeira crise de acrofobia e desci imediatamente, mas não deixei de ficar vislumbrado, pela sua suntuosidade. Alfeu, parabéns pelo excelente texto.
Que texto bacana! Podia incluir no final, quem sabe, sua ida naquele dia mágico em São Januário… não supera mesmo as lembranças espetaculares de como criança, mas pode servir de comparação, um retorno àquele momento, até um fechamento de ciclo!!!