A semana foi decisiva, na Câmara dos Vereadores do Rio, para o projeto Praça Onze Maravilha. As comissões da casa legislativa estiveram reunidas, na última segunda-feira (20), e aprovaram um parecer conjunto favorável ao ambicioso plano de revitalização da região — que é o berço das escolas de samba e o caminho para recuperação urbana do Centro em direção à Zona Norte.
O projeto já pode ser levado a plenário.
Antes, porém, ainda tem uma audiência pública no dia 6 de maio, no Circo Crescer e Viver. Os vereadores vão ouvir sugestões e dúvidas da população, para dar andamento à proposta e marcar a primeira votação. A revitalização da área inclui todo o entorno do Sambódromo, os bairros do Catumbi, Estácio, além da Praça da Cruz Vermelha.
“A Praça Onze tem uma importância enorme para o Rio e para todo o Brasil, e esse patrimônio precisa ser valorizado. Além de ser palco dos desfiles de Carnaval, o maior espetáculo da nossa cidade, a área também é um dos berços do samba. O projeto Praça Onze Maravilha reforça esse valor. Mas as intervenções são profundas, e afetam inclusive a mobilidade do carioca. Por isso, a Câmara já fez uma audiência pública e uma reunião técnica, ouvindo as secretarias, CET-Rio, e diversos setores da sociedade. Queremos garantir que o projeto avance com diálogo, responsabilidade, respeito à memória do Rio, aos moradores da região e a todos que circulam por lá”, diz o presidente da Câmara dos Vereadores, Carlo Caiado.
Entre as intervenções, está prevista a derrubada do Viaduto 31 de Março, que liga o Santo Cristo à Zona Sul. A ideia é que isso aconteça até 2028, com uma série de alterações de trânsito, inclusive a possível construção de mergulhões. Outro ponto importante será a implementação de parcerias público-privadas para a realização das obras e a atração de novos moradores para o local, a exemplo do que já vem acontecendo nas regiões do Porto Maravilha e do Reviver Centro. Trata-se de um caminho natural, que começou na Zona Portuária, avançou pelo Centro e agora pretende unir mais uma área vizinha.
O presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara, Pedro Duarte (PSD), afirma que faz todo sentido utilizar uma das áreas mais consolidadas da cidade, inclusive nas questões de serviços públicos e mobilidade, para estimular o crescimento das zonas centrais do Rio — que não vinha acontecendo, segundo ele, há pelo menos duas décadas.
“Vamos discutir com a sociedade o que deve e precisa ser feito, para que seja um sucesso como o Porto Maravilha”, garante Pedro Duarte.
O projeto da prefeitura que cria a Área de Especial Interesse Urbanístico Praça Onze Maravilha inclui, além das alterações viárias e dos incentivos para novos empreendimentos, a revitalização cultural da região. Para isso está prevista a construção de uma nova Cidade do Samba na Avenida Presidente Vargas. Além de recuperar a área hoje ocupada por muitos terrenos praticamente abandonados, a nova estrutura facilitaria o acesso de carros alegóricos ao Sambódromo, o que permitiria, inclusive, o aumento de escolas de samba no Grupo Especial, algo que já acontecerá nos próximos carnavais.

Outro ponto importante do projeto é a construção da Biblioteca dos Saberes no terreno onde hoje fica o pouco utilizado Terreirão do Samba. A concepção da obra será do arquiteto Francis Kéré, de Burkina Faso. O profissional é especialista em arquitetura sustentável. A Serpentine Galleries, em Londres (Inglaterra), foi concebida por ele. Kéré tem como marca registrada da arquitetura sustentável e socialmente engajada, ou seja, utilizando materiais e saberes que colocam a comunidade no centro do processo criativo. Suas obras incluem o uso de muita madeira, pedra laterita (típica de ambientes tropicais, como o Rio) e barro.
Pedro Duarte destaca a importância da recuperação do patrimônio histórico local e diz que é necessária especial atenção à Vila Operária Gamboa, no Santo Cristo. Ele diz que também é preciso discutir mais a fundo quais as soluções para o trânsito, a definição dos gabaritos das construções, para evitar que a altura dos futuros prédios comprometa o cenário local, e o financiamento de todo o empreendimento.
“Um projeto dessa magnitude não é uma mudança ou outra. A vantagem é que após a primeira votação o projeto pode ser melhorado, de acordo com as demandas que surgirem”, diz o vereador.
Recursos para a implantação do projeto virão da iniciativa privada
O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico do município, Osmar Lima, sustenta que o objetivo da prefeitura é que todo o capital investido nas obras necessárias à revitalização da área venham da iniciativa privada.
“Somente a retirada do Elevado 31 de Março vai liberar terrenos que serão negociados para a construção de imóveis. Os investimentos virão à medida em que a iniciativa privada acredita na valorização desses terrenos e compra o direito de construir, através da outorga onerosa fornecida pela prefeitura”, explica o secretário, que acrescenta haver um enorme potencial de ganho futuro, pois a área receberá um incentivo para o turismo que não ficará restrito somente ao carnaval: “Já temos lá o principal equipamento turístico do Rio, que é o Sambódromo. Com a construção da Biblioteca dos Saberes e a revitalização, o turismo na área não ficará restrito somente ao carnaval”.
Já o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Gustavo Guerrante, diz que o Praça Onze Maravilha é um caminho lógico para a ideia da poder público de pensar uma cidade em que locais de moradia e trabalho não sejam distintos. Ou seja, que as pessoas não precisem de grandes deslocamentos diários. Segundo ele, a área no entorno do Sambódromo e além, diferentemente do que aconteceu em outras no Rio, já tem boa infraestrutura, que estaria pronta para receber os novos moradores:
“A Praça Onze, o entorno da Cruz Vermelho, tudo isso é um Centro da cidade expandido. Além disso, trata-se da recuperação de um pedaço histórico da cidade. Queremos que passe a ser normal procurar lugar para morar na Rua Carlos de Carvalho, por exemplo. E a obra cuida ainda de melhorar a infraestrutura do carnaval, o maior espetáculo da Terra”.
A ideia é ter mergulhões ligando a Praça Onze à Zona Sul, via Túnel Santa Bárbara
Uma das principais dúvidas sobre o projeto é como ficará o trânsito, com a derrubada do Elevado 31 de Março. Guerrante diz que a tendência é construir dois mergulhões, ligando a área à Zona Sul, via Túnel Santa Bárbara:
“É preciso lembrar ainda que o transporte público pode ser melhor utilizado naquela área, o que alivia a questão do trânsito. Atualmente, temos uma estação de metrô, a Praça Onze, subutilizada, coisa que vai mudar quando as transformações ocorrerem”, acrescenta o secretário.
A produtora cultural Luzinete Lima, de 54 anos, mora há dez no entorno do Sambódromo, e diz que as obras vão mudar o bairro — e para melhor.
“Estou muito feliz com os projetos que estão encaminhados para a revitalização. Acho que vai mexer com essa área, e para melhor. Um dos maiores desafios que vejo é a criação de trabalho para as pessoas que moram aqui. Na parte de eventos, por exemplo, somos pouco beneficiados com os que ocorrem aqui. Também precisamos de novos espaços culturais. Há muito pouco aqui. Quase nada”, reivindica.


