A Copa do Mundo 2026 caminha para a sua reta final e, entre tantas conclusões apressadas e análises toscas, espera-se que ninguém discorde que o futebol, acima dos outros esportes, é um fenômeno cultural internacional, que mobiliza milhões, possivelmente bilhões, de pessoas em todas as partes do mundo. São impressionantes as imagens de multidões na rua, de madrugada, na África e na Europa, torcendo pelas seleções de seus países. Foram incríveis as comemorações das vitórias do Brasil em Bangladesh ou no Líbano – e mesmo as manifestações de tristeza pela eliminação brasileira.
Este colunista apaixonado por futebol fica imaginando em que ponto do planeta gostaria de estar a cada jogo. Mas está mesmo no Rio de Janeiro, onde uma segunda-feira foi praticamente feriado com a seleção brasileira contra o Japão jogando às duas horas da tarde. E, na Zona Sul da cidade, teve vibração nas janelas e até fogos com a vitória nos pênaltis dos paraguaios sobre a Alemanha. Nada de solidariedade sul-americana: na sexta-feira (03/07), a sequência de botequins com telões da rua Nelson Mandela, em Botafogo, estava tomada por uma multidão de brasileiros torcendo por Cabo Verde contra a Argentina.
Por amor ao futebol e seus temperos, imagino acompanhar uma partida da seleção francesa em Bondy, na periferia de Paris, onde nasceu Kyllian Mbappé; ou uma da Espanha em Rocafonda, nos subúrbios de Barcelona, onde cresceu Lamine Yamal; ou um jogo de Marrocos, em Casablanca; ou, mais perto, da Argentina em Buenos Aires. Mas, para uma experiência mais antropológica, gostaria de estar na Itália, onde vive um povo amante do futebol, que amarga, pela terceira vez consecutiva, a experiência de acompanhar a Copa do Mundo sem a sua seleção, quatro vezes campeã mundial.
Antes desta Copa do Mundo 2026 com 48 seleções, o então técnico da seleção italiana, o ex-jogador Gennaro Gattuso, reclamou de haver vagas demais para a África e a América do Sul e poucas para a Europa. Demitido após o fiasco da Itália, Gattuso exibiu apenas racismo e xenofobia na sua frustração esportiva. Do ponto de vista numérico, Europa e África se equivalem no número de países filiados à Fifa – cerca de 55 – e a Europa teve 15 vagas e a África, 9 (8 diretas + uma conquistada numa repescagem); do ponto de vista esportivo, países sul-americanos ganharam 10 Copas do Mundo, os europeus 12. O inchaço da Copa do Mundo 2026 levou à classificação de muitas seleções de pouca qualidade futebolística, inclusive europeias, como a Escócia, a Tchéquia e a Bósnia, responsável pela eliminação italiana.
Com a extrema-direita no poder na Itália, sei que são muitos os italianos que compartilham das visões xenofóbicas do atual governo e provavelmente das queixas de Gattuso. Seria interessante observar na Itália, que tem características peculiares para a concessão da cidadania, como seus cidadãos veem esse Mundial com quase 300 jogadores defendendo seleções que não são as do país onde nasceram – 115 são jogadores de seleções africanas e nasceram, em sua imensa maioria, na Europa, levados por seus pais, em busca de melhor qualidade de vida para seus filhos.

Pela mesma razão, essa diáspora africana, a seleção francesa tem jogadores com pais nascidos no Benin, na Guiné Bissau, em Camarões, no Mali, na Costa do Marfim, no Senegal. Mbappé tem pai camaronês e sua mãe é filha de argelinos; o craque nasceu em Bondy, mesmo lugar do zagueiro Saliba, que tem pai de origem libanesa e uma mãe camaronesa. É provável que essa miscigenação racial e cultural esteja na raiz do sucesso da seleção da França – campeã mundial em 2018, vice em 2022 – e ela pode ser vista em outras potências futebolísticas europeias: Inglaterra, Holanda, Portugal, Alemanha, Bélgica.
Infelizmente, o relativo sucesso das seleções africanas nesta Copa do Mundo 2026 não é fruto de mais investimentos no esporte nesses países espoliados por séculos – o que é mesmo difícil em nações com tantos problemas básicos de alimentação, saúde e educação; alguns, como a República Democrática do Congo, estão envolvidos em guerras internas. As seleções estão melhores porque muitos jogadores foram formados e se desenvolveram na Europa, em condições sociais muito melhores, e optaram por vestir a camisa da seleção do país, onde estão suas raízes familiares e culturais.

Na seleção de Marrocos que derrotou a Holanda, houve um momento em que nenhum dos 11 em campo havia nascido em território marroquino. Mas, quando o time inteiro festejou a classificação ajoelhando-se em direção à Meca como fazem os muçulmanos, ficou evidente o caráter nacional da seleção – de jogadores, que possivelmente sofreram discriminação por sua religião ou cor da pele, na França ou na Espanha. Marrocos, aliás, é o país da África com maior investimento na formação de jogadores de futebol.
Analistas apressados de outras áreas (em época de Copa do Mundo, todo mundo acha que entende de futebol) já detectaram uma “decadência europeia” na Copa. O estado de bem estar social nos países europeus – financiado, é verdade, por anos de colonialismo e espoliação em outros continentes – permite o desenvolvimento de jovens atletas nas periferias, mesmo que eles ou seus pais venham de outros países. Imigrantes ou filhos de imigrantes, apesar do recente avanço da xenofobia e do preconceito alimentados pela extrema-direita, brilham nas ligas europeias, as mais ricas e com melhores salários.
No futebol, não há decadência europeia; neste século 21, países da Europa ganharam cinco das sete Copas do Mundo disputadas (as exceções foram o Brasil em 2002 e a Argentina em 2022). Nesta Copa do Mundo 2026, pelo menos cinco (talvez seis) das oito seleções classificadas para as quartas-de-final são de países europeus.
O Brasil vem formando, por mais de um século, jogadores e mais jogadores talentosos, graças a este caldo cultural e racial do país: mas o futebol também tem um viés social. Imaginem quantos craques mais o Brasil poderia produzir se não sofresse dessa crônica desigualdade que impede investimentos necessários na melhoria de vida da população – em saúde, saneamento, educação e, sim, esporte.

