A discussão sobre cargos comissionados no Rio virou uma disputa de percentuais.
Mas o número que aparece no discurso oficial nem sempre revela a máquina real. O governador em exercício, Ricardo Couto, por exemplo, diz pretender limitar o número de comissionados a 10% em cada uma das 32 secretarias. A informação estremeceu os alicerces da política e ganhou aplausos da população, que vê na administração pública um grande cabide de empregos — até para fantasmas.
Mas a realidade é o que revela o Caderno de Recursos Humanos do Governo do Estado, editado pela Casa Civil em janeiro de 2026. Ele informa que na administração direta havia 181.616 vínculos ativos na folha — e, desses, apenas 14.003 eram cargos em comissão (7,71% do total).
Ou seja, o percentual já está abaixo do que o desembargador pretende estabelecer.
O estudo revela que o problema real pode estar na distribuição desses cargos — já que algumas pastas podem estar muito acima dessa média, enquanto outras estão abaixo.
Mas aí, a discussão vai para outro patamar.

A despesa mensal com os funcionários ativos era de aproximadamente R$ 1.573 bilhão, com média remuneratória de R$ 8.661,13. A publicação da Casa Civil aponta que o gasto com cargos em comissão, especificamente, aparece em torno de R$ 79,97 milhões mensais.
Na Prefeitura do Rio, dos 5.964 cargos comissionados, só 2.103 são ocupados por não concursados/efetivos
Empolgado com a proposta do desembargador, o prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) aproveitou o embalo e anunciou que vai enviar à Câmara do Rio um projeto de lei para limitar a ocupação de cargos comissionados por pessoas de fora dos quadros municipais a 5% do total de servidores ativos.
Só para garantir, já que Cavaliere afirma que hoje esse índice já estaria em 3,6%.
O Boletim Estatístico de Pessoal do Poder Executivo do Município do Rio de Janeiro, também editado em 2024 pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), mostra que, na administração direta, 16,18% dos ativos eram “estranhos aos quadros” — uma categoria que vai muito além do cargo em comissão.
O mesmo boletim aponta que, na administração direta, havia 5.964 cargos comissionados, dos quais 2.103 ocupados por não concursados/efetivos. Os números sustentam a versão de Cavaliere sobre os 3,6%.

Mas o que o prefeito e o governador não citam é que parte relevante da engrenagem política da prefeitura e do governo do estado é formada por empregos sob regime CLT, funções de confiança em empresas estatais, contratos temporários, cedidos, estruturas da administração indireta e, sobretudo, a mão de obra terceirizada contratada via organizações sociais e entidades parceiras.
O segredo está justamente aí: quando o governo fala só em cargo em comissão, escolhe a parte menor — mas muito mais visível e já demonizada pela opinião pública — de uma engrenagem muito maior.


A análise não deveria confundir os cargos efetivos com os cargos em comissão. deveria observar, dentro do quantitativo de cargos em comissão, quantos são ocupados por servidores efetivos e quantos são ocupados por servidores extraquadro, como são chamados comumente. no caso da prefeitura, a reportagem foi bem objetiva em apresentar que existe um total de “5.964 cargos comissionados, dos quais 2.103 ocupados por não concursados/efetivos” – aqui aponto a necessidade de correção visto que “não concursados” são exatamente o oposto de “efetivos”. numa conta de proporção de 2103 não efetivos (considerando que era essa a referência) em relação ao total de 5964 cargos comissionados, percebe-se que 35,26% dos cargos comissionados são ocupados por servidores sem vínculo por concurso.
no caso do Estado, a matéria não traz informação suficiente para compreender se 14.003 é somente a disposição de vínculos extraquadro, ou se se refere à remuneração de todos os cargos em comissão, incluídos aqueles ocupados por servidores efetivos. ainda assim, a comparação com o total de vínculos de remuneração não é cabível, visto que o Estado tem diversos cargos cuja ocupação não pode ser atribuída aos extraquadro: policiais civis e militares, bombeiros, professores de educação básica e ensino superior (cuja vacância normalmente é realizada através de temporários e sem cargo em comissão), procuradores e auditores do Estado.
seriam necessárias maiores informações sobre a situação. nas matérias passadas, foi indicado o total de 4000 cargos em comissão para a Casa Civil e Secretária de Governo, tendo sido exonerados mais de 500 servidores nas últimas semanas. somente nessas duas Secretarias percebe-se que mais de 10% dos cargos eram ocupados por servidores não concursados – diria que muito provavelmente o quadro quase total deve ser desse caso, visto que nunca foi realizado concurso pelo Estado para contratar servidores efetivos para estas duas Pastas, além de sua proximidade com o coração político da Administração.