De vez em quando recordamos uma ideia filosófica que, mesmo sendo antiga, continua cutucando a gente como se tivesse sido inventada ontem. É o caso do existencialismo de Jean-Paul Sartre. Muita gente torce o nariz quando ouve falar dele, achando que é papo complicado demais. Mas, no fundo, o que Sartre diz é algo que qualquer pessoa que já encarou uma encruzilhada na vida entende muito bem: somos livres — mas essa liberdade vem associada a uma enorme responsabilidade.
Sartre defendia que “a existência precede a essência”. Traduzindo para o português de botequim: a gente nasce sem manual de instruções, sem destino pronto, sem rótulo definitivo. Não existe um “você foi feito para isso”. Somos nós que inventamos quem somos, a cada escolha, a cada passo, a cada tropeço. E é por isso que concordo com ele. Olhando ao redor, é difícil discordar ou negar que é assim que a vida funciona.
Você, leitor adulto, já pensou em quantas vezes mudou de ideia, de amores, de profissão, de planos, de sonhos? A vida não vem com roteiro. A gente improvisa. A gente se adapta. E é assim que vamos nos tornando quem somos. Hoje somos diferentes de ontem, e certamente amanhã já teremos mudado. Sartre só colocou em palavras aquilo que vivemos na prática.
É óbvio que essa liberdade assusta. Ele mesmo dizia que estamos “condenados a ser livres”. Condenados porque não dá para fugir: até quando a gente não escolhe, está escolhendo. Mesmo quando deixamos a vida nos levar, estamos tomando uma decisão. E é aí que mora o desconforto. É muito mais fácil acreditar que existe um Deus que nos guia. Seria ótimo ter um Satanás para culpar quando tudo dá errado. Mas Sartre nos lembra que não funciona assim. A responsabilidade é nossa — e isso machuca e exige.
Se não existe essência prévia, então nada está escrito. Nada está fechado. Nada impede que você mude de rumo amanhã. A vida não é prisão; é campo aberto. E isso, para mim, é profundamente libertador. É como se Sartre dissesse: “olha, o mundo pode ser complicado, mas você não está preso a nada. Você pode se reinventar quantas vezes quiser”.
No fim das contas, concordar com Sartre é aceitar que a vida é um grande “vai lá e faz”. Não existe garantia, não existe caminho certo, não existe fórmula mágica. Existe você, suas escolhas e, importantíssimo, a coragem de assumir as consequências. É assustador? Sim. Mas também é a coisa mais humana que existe.
Se a vida é esse terreno instável, então que seja. Pelo menos temos a chance — e a responsabilidade — de construir algo nosso. E, no fim das contas, talvez seja justamente isso que dá graça à existência.


Perfeito, Alfeu!!!
Para Sartre, a verdadeira ética nasce quando reconhecemos nossa liberdade e assumimos a responsabilidade por nossas escolhas. Parabéns por falar sobre uma tema que é muito negligenciado atualmente . Mas do que nunca está em voga “o problema é sempre do outro, não tenho culpa, sempre procurando um inimigo oculto. O caminho do autoconhecimento é eterno, mas é esse que vai nos libertar.
” Mesmo qdo deixamos a vida nos levar, estamos tomando uma decisão” . Verdade. Perfeito.
Apesar de não ser adepta do determinismo radical, esse existencialismo pagão me causa angústia. Essa liberdade torna-se uma carga pesada porque retira o “corrimão” onde costumamos nos apoiar para evitar a vertigem de decidir nosso próprio destino. Acho que prefiro a ilusão de que, apesar do livre arbítrio, estou sendo conduzida em meu caminhar….
Fiquei com dor de cabeça, Alfeu. Assunto profundo para refletir no final do expediente.
Concordo c vc, Eliane, totalmente!!. Me revirou o estômago. O homem, com um pouquinho de conhecimento q tem, já se enxerga como um Deus dotado de toda sabedoria plena atentando esta opinião como uma verdade absoluta. E as experiências extra sensoriais das pessoas, são o q? Fantasias do intelecto , castigo por pensar livremente? …
Perfeito Eliane, concordo c vc! Me deu até gastura estomacal agora. (Desculpa Alfeu). O homem, com um pouquinho de conhecimento q tem, já se acha um Deus dotado de verdades absolutas e inquestionáveis, assim como fez Eva, no Éden. O q dizer então de experiências extra sensoriais de tanta gente? Seria um castigo, um delírio.. do seu intelecto por viver livremente? Como é bom sabermos q a vida é uma eterna evolução, e q nosso “corrimão” é o que nos ampara e nos consola. Que triste viver de sua própria sabedoria..
Eliane e Maristela, essa “vertigem” e “gastura” que sentiram parecem a própria angústia existencial: o peso de notar que não há “corrimão” predefinido e somos os responsáveis pelo nosso destino. Ao admitir a preferência pela “ilusão” de ser conduzida, Eliane descreve a má-fé, que Sartre tanto mencionou, que é o autoengano de fugir da liberdade para aliviar essa “carga pesada”. É um tema que realmente mexe com o estômago! Mas se de um lado a liberdade nos angústia, de outro é consolador saber que é a própria liberdade que nos permite escolher a melhor forma de suportarmos e levarmos a vida que temos, como bem quisermos ou pudermos.
Adorei essa pílula de Sartre.
Muito bom. Interessante que algo tão óbvio é fantasiado por muitos que preferem deixar em mãos “divinas”.
É o sentido de Angústia, afinal! Não é de onde viemos: é o que faremos de nós quando tivermos essa consciência!
Jean-Paul Sartre sempre foi considerado um filósofo de destaque e continuará sendo. Bela escolha para o tema. Alfeu, excelente início de 2026. Parabéns.
Não é verdade que nós tenhamos total liberdade de escolha nas nossas vidas. O homem não nasce como uma “tabula rasa” sobre a qual podemos escrevermos tudo o que quisermos.
Desde cedo temos inclinações, gostos e preferências. Já nascemos com elas.
O livre-arbítrio é um engodo.
No aspecto biológico, nossa respiração, batimentos cardíacos, funcionamento dos nossos órgãos, como pâncreas, aparelho digestivo, a libido, produção de testosterona… Enfim, todas as funções vitais do nosso corpo ocorrem à nossa revelia.
A vida tem a ver com escolhas. Nós somos a soma das nossas escolhas. E a maioria delas não é feita por nós. Você não pode escolher quando vai nascer. Não pode escolher onde vai nascer. Você não pode escolher a família em que vai nascer. Nem mesmo quem vai amar. Mas, de certo modo, você pode escolher como vai amar!
No âmbito da psicologia, foi demonstrado mediante testes que a grande maioria das nossas decisões são tomadas pelo inconsciente. Pelos vieses cognitivos adquiridos principalmente na primeira infância (de 1 a 7 anos).
O mito de Édipo Rei, narrado por Sófocles, já prenunciava que o destino é inafastável. Nada a ver com o Complexo de Édipo retomado por Freud. A moral da história é que ninguém pode fugir do destino.
Não podemos escolher onde
nascer, mas podemos escolher como morrer. Do
Mesmo modo podemos controlar
a nossa frequência cardíaca usando beta-bloqueadores, podemos usar diuréticos para alterar as funções urinárias. O que não podemos controlar são as paixões amorosas
Podemos escolher como morrer até certo ponto. Muitos suicidas são parados no último momento por alguém ou algo, que aparece na hora agá, e são dissuadidos de tal intenção. Há inúmeros exemplos na história da humanidade.
Tampouco o controle dos batimentos cardíacos ou das funções urinárias são controlados de forma absoluta.
O que falei é que eles ocorrem à nossa revelia. São atos involuntários, que não são produzidos de forma consciente. Eventuais diuréticos, que alteram, de certo modo, a frequência cardíaca, são casos isolados que não invalidam a regra geral.
Obrigado pela contribuição.
Uma das mensagens de Sartre é essencialmente sobre liberdade.
Temos liberdade de escolha, mas nascemos em condições predefinidas que escapam de nosso controle: família, cidade, condições biológicas, sociais, etc. A questão é da liberdade é o que podemos fazer ou escolher “em situação”. São as escolhas que fazemos dentro de determinados contextos.
Ninguém está condenado a repetir amanhã o que fez hoje, no entanto, temos que nos haver com as consequências de nossas escolhas.
Não podemos controlar nosso sistema biológico autônomo, mas podemos escolher o que faremos com ele, a partir das condições que ele nos dá.
“Felizmente”também sempre podemos “fingir” para nós mesmos que não somos nós que fazemos nossas escolhas.
É perturbador, quando de fato vemos que não há como conduzir o roteiro da vida, mesmo que façamos nossos planos, no final nada tem a ver com nossa escolha, extremamente frustrante, aceitar a realidade.
Prefiro a possibilidade de escolha ou não escolha,independente de um existencialismo, um determinismo radical ou um relativismo, pois ambas nos condicionam a rótulos, assim como evoluímos e fazemos parte de um tecido pluricultural ser livre engloba para além do autoconhecimento das coisas perceptíveis e imperceptíveis, subjetividade e objetividade.