A água guarda a memória das cidades. No Rio de Janeiro, ela levou por décadas para a Baía de Guanabara aquilo que faltou cuidar: o esgoto. Na Maré, onde rios, valões e canais expuseram essa história a céu aberto, uma mudança já está em curso. Em dois anos, a grande obra de esgotamento sanitário em andamento vai interceptar e tratar cerca de 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês que hoje deságuam in natura na baía. Com isso, a Maré alcançará a universalização da coleta e do tratamento de esgoto, em uma transformação capaz de melhorar vidas e ajudar a devolver saúde à população e às águas da Guanabara.
Para entender a dimensão dessa virada, é preciso olhar para trás. A história de como o conjunto de favelas da Maré se tornou um gigante, com 200 mil pessoas e sem coleta e tratamento de esgoto, é antiga. Por muito tempo, o crescimento da Maré, na Zona Norte carioca, seguiu o ritmo das urgências, não do planejamento. Construída sobre áreas de manguezal desde os anos 1940, a região viu seus rios e canais se transformarem em destino de esgoto e resíduos. Um retrato local de um problema global: segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 80% do esgoto no mundo ainda é despejado sem tratamento adequado no meio ambiente.
Não por acaso, esse cenário já foi traduzido na cultura popular. Nos anos 1980, a música “Alagados”, da banda Os Paralamas do Sucesso, deu voz a uma realidade marcada por palafitas, trapiches e barracos erguidos sobre a precariedade, entre a água e a ausência de infraestrutura. Décadas depois, o retrato ainda encontra ecos em muitos territórios urbanos do país.
É nesse ponto que as histórias começam a mudar e, na Maré, essa virada já está em curso. A Águas do Rio, empresa da Aegea Saneamento, iniciou um conjunto de intervenções que vai implantar um sistema de esgotamento sanitário novo e de grande porte nas 16 comunidades locais, o que irá interromper esse ciclo histórico de poluição e criar uma nova relação entre território e natureza.
Com investimento de R$120 milhões, as obras devem beneficiar cerca de 200 mil moradores espalhados por 60 mil imóveis, que passarão a ter esgoto coletado e tratado.
O desafio é grande, e os dados ajudam a dimensionar o impacto. De acordo com o Instituto Trata Brasil, quase metade do esgoto gerado no país ainda não recebe tratamento. Isso significa pressão constante sobre rios, lagoas e mares e reforça por que o saneamento básico é hoje uma das agendas mais estratégicas quando se fala em meio ambiente.
Rio Ramos e Canal do Cunha: pontos simbólicos

respirar, transformando o descaso em um processo real de regeneração ambiental – Foto: Águas do Rio
Na Maré, essa transformação passa por um ponto simbólico: o Rio Ramos. Há décadas, o curso d’água recebe diariamente milhões de litros de esgoto de imóveis às suas margens. A obra prevê a implantação de redes domiciliares para captar esses efluentes e direcioná-los à rede coletora de esgoto.
“Essa intervenção atua diretamente sobre uma das principais fontes de pressão ambiental da Maré, que ao longo de décadas lançou esgoto in natura nos seus rios e canais, como o Rio Ramos e o Canal do Cunha, que deságuam na Baía de Guanabara. Ao interceptar esse fluxo antes que ele chegue a esses corpos hídricos, a gente reduz de forma significativa a carga de poluentes e contribui para a melhoria da qualidade da água. É um passo fundamental dentro de um processo mais amplo de regeneração ambiental, que começa no território e se estende para todo o sistema costeiro”, afirma Caroline Lopes, gerente de Meio Ambiente da Águas do Rio.
O efeito dessa mudança é concreto. A cada mês, o equivalente a 520 piscinas olímpicas de esgoto deixará de ser despejado na Baía de Guanabara. Mais do que o número de 1,3 bilhão de litros de poluentes a menos naquele ecossistema, trata-se de uma inversão de lógica: o que antes degradava passará a ser tratado, na Estação de Tratamento de Esgoto Alegria, no Caju, Zona Portuária carioca.
Comunidade escolar envolvida

infraestrutura, mas uma consciência coletiva de cuidado com o futuro do território – Foto: Águas do Rio
Há, ainda, um componente essencial para sustentar essa mudança ao longo do tempo: o comportamento. Iniciativas de educação ambiental da Águas do Rio, como o Programa Saúde Nota 10, vêm sendo estruturadas para estimular o descarte correto de resíduos e fortalecer a relação da população com o território. A concessionária já esteve em 10 das 46 escolas da Maré e seguirá ampliando essa atuação até alcançar toda a rede local, com equipes das áreas de Meio Ambiente e Responsabilidade Social.
Mais do que levar informação, a proposta é construir, junto à comunidade, uma nova cultura de cuidado com a água e com os espaços onde ela circula, um passo decisivo para que os avanços em infraestrutura se traduzam, de fato, em transformação duradoura.
“Quando a gente fala de saneamento, está falando de saúde, de meio ambiente e também de oportunidade. Essa transformação começa com a melhoria da qualidade da água, mas ela não termina aí. Ela abre caminho para um território mais equilibrado, mais resiliente e com mais perspectivas para quem vive ali. É um legado que fica para as próximas gerações e que só se sustenta quando é construído de forma compartilhada, com a população fazendo parte desse processo”, concluiu Caroline.

