Enquanto o governo do estado segue firme no pente-fino nas contas públicas, com a suspensão de licitações, auditorias em contratos e cortes de despesas, os corredores do Detran-RJ revelam um movimento que destoa do discurso de austeridade.
Cinco servidores da autarquia participaram, entre os dias 22 e 28 de fevereiro, de uma missão internacional nos Estados Unidos, com agenda na Califórnia e no Texas. O problema não é a viagem em si, mas a forma como ela foi formalizada: a autorização oficial só foi publicada no Diário Oficial do último dia 27 de abril, quando a comitiva já havia retornado ao Brasil havia cerca de dois meses.
A cronologia levanta, no mínimo, questionamentos. O processo tramitava na Casa Civil sob responsabilidade do então secretário Nicola Miccione, mas ficou sem movimentação entre os dias 20 de fevereiro e o despacho final, já assinado pelo atual secretário, Flávio Willeman. Trocando em miúdos, o aval formal veio depois do fato consumado. Uma espécie de regularização retroativa da despesa.
De acordo com estimativas do próprio Detran, o custo total da viagem gira em torno de R$ 90 mil. Apenas com hospedagem e alimentação, o gasto previsto foi de US$ 15.600 para os cinco servidores, o equivalente a R$ 81.432 na cotação considerada (R$ 5,22). Com traslados e margem adicional, o valor chega a R$ 89.199,60.
Os participantes ocupam cargos estratégicos, como coordenações de educação no trânsito, relacionamento com o usuário, integração de serviços e gestão operacional. Nas justificativas oficiais, o Detran aponta a importância do intercâmbio internacional para acesso a tecnologias, metodologias inovadoras e boas práticas em serviços públicos.
Ainda assim, o timing do processo chama atenção. O período em que a tramitação ficou parada coincide justamente com o momento em que o estado do Rio intensificava medidas de contenção de gastos.
COM FÁBIO MARTINS


