No debate político contemporâneo, é comum vermos líderes da extrema-direita sendo chamados de “conservadores” e figuras da extrema-esquerda rotuladas como “progressistas”. Mas será que essas denominações refletem com precisão suas práticas e ideologias? Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre o uso desses termos, que muitas vezes disfarçam posturas autoritárias, populistas ou retrógradas.
O conservadorismo, em sua essência, é uma corrente que valoriza a preservação de instituições sociais como a família, a religião e a propriedade privada. Edmund Burke, considerado um dos pais do pensamento conservador, acreditava que a tradição era uma forma de sabedoria acumulada — e que rupturas abruptas poderiam gerar caos. Ele defende mudanças graduais e respeita o pluralismo democrático.
No entanto, o que vemos hoje em muitos países são líderes de extrema-direita que se autodenominam conservadores, mas que promovem discursos de ódio, negam evidências científicas e atacam instituições democráticas. O caso de Viktor Orbán, na Hungria, é emblemático: sob o rótulo de “conservador”, ele implementou políticas que restringem a liberdade de imprensa e os direitos civis, e se tornou o maior autocrata da União Europeia. No Brasil, figuras do mesmo naipe se dizendo conservadoras frequentemente defendem o fechamento do Congresso ou do Supremo Tribunal Federal — atitudes que não conservam nada, apenas corroem a democracia.
Por outro lado, o progressismo é uma corrente que busca ampliar direitos, promover justiça social e garantir inclusão. Movimentos progressistas foram responsáveis por conquistas como o voto feminino, o casamento igualitário e a proteção ambiental. No entanto, há casos em que o discurso progressista é usado por elementos de extrema-esquerda como fachada para práticas autoritárias. Regimes como os de Nicolás Maduro, na Venezuela, se apresentam como defensores do povo, mas reprimem manifestações, censuram a imprensa e concentram poder de forma antidemocrática.
Essa confusão de rótulos não é apenas semântica — ela tem implicações profundas. Ao chamar extremistas de “conservadores” ou “progressistas”, corre-se o risco de legitimar práticas autoritárias sob o manto de ideologias respeitáveis. É preciso distinguir entre quem defende valores democráticos e quem os instrumentaliza para fins de poder.
A polarização política contribui para essa distorção. Conservadores legítimos são confundidos com reacionários; progressistas genuínos são colocados no mesmo saco que comunistas. E aqueles que se colocam ao centro, que analisam os fatos com isenção, sem posições fanáticas ou pré-concebidas, e não cedem às pressões extremistas, são ridicularizados e chamados de “isentões”. Em vez de debater ideias, os extremistas preferem atacar rótulos. O resultado é um empobrecimento do debate público e uma erosão da confiança nas instituições.
É hora de repensar tudo isso. Nem todo político que se diz conservador defende a democracia e deveriam ser denominados retrógrados. Nem todo líder que se diz progressista promove a liberdade democrática, muitos são populistas. Precisamos de mais precisão conceitual e menos adesão acrítica a discursos prontos. Afinal, como já dizia George Orwell, “a linguagem política é projetada para fazer mentiras parecerem verdadeiras e o assassinato respeitável”.
Chamar cada coisa pelo seu verdadeiro nome é um ato de resistência intelectual. E, num tempo em que a desinformação corre solta e agressiva, talvez seja também um ato de coragem.


Concordo inteiramente mas acho que o melhor seria acabar com essas classificações. Cada pessoa teria sua relação de valores e viveria/lutaria por ela. Grupos seriam formados naturalmente pela identificação daquelas relações, seja inteiramente seja parcialmente. Outra vantagem seria a não unanimidade dentro do grupo, permitindo contraditórios e facilitando a relação entre os grupos. Não sei fui claro; fui?
Muito bom, Alfeu!!! Concordo plenamente.
Abs do Felipe
Essa crônica destaca que os extremos são sempre nocivos. Ambos ameaçam a democracia. É importante termos um pensamento livre de tutelas extremistas de ambas correntes.
O tema é interessante, polêmico e complicado. Estamos próximos de mais uma eleição para Presidente da República, Senadores, Deputados Federais e Deputados Estaduais, que será decedida, mais uma vez, na contenda entre Conservadores e Progressistas. Prefiro não comentar. Parabéns.
Excelente texto. Caso fosse um soneto, o último parágrafo seria a chave de ouro.
Seria bom que o povo tivesse um pingo do seu discernimento
Abração Alfeu
Excelente texto, seria muito bom se todos entendessem que em política quanto mais extremas são nossas posições, menos sensatas elas serão na maioria das vezes.
Houve um tempo que era comum dizer que “Religião e Política não se discute” esse hiato temporal criou alienados políticos e religiosos.
Acredito que hoje vemos os reflexos desse período.
Pessoas sem opinião ou com opiniões distorcidas, que são conduzidas pra lá e pra cá. Manipuladas!
O texto sobre conservadores e retrógrados é bem pertinente. Tem até tom de disputa, para saber quem ARRASTA mais seguidores.