A história recente da política fluminense é farta em tragédias anunciadas, mas poucos alertas foram tão explícitos — e formalizados dentro do Parlamento — quanto um aviso feito em 12 de setembro de 2024, durante uma reunião da CPI da Transparência na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Na ocasião, o então deputado estadual Léo Vieira (Republicanos), atual prefeito de São João de Meriti, fez um pronunciamento contundente sobre o Instituto Rio Metrópole. Visto hoje, o alerta soa profético.
O tempo passou, o aviso foi ignorado e o desfecho foram camburões e algemas. O Instituto Rio Metrópole foi o principal alvo do Ministério Público do Rio (MPRJ) na Operação Ouroboros, que prendeu justamente o pivô daquele alerta de 2024: Davi Perini Vermelho, o Didê, presidente do IRM. Ele foi preso em um esquema que investiga fraudes de R$ 86 milhões em contratos da autarquia estadual.
Didê é o ‘novo Lucas Tristão’, disse Léo Vieira em 2024
Em seu discurso de 2024, Léo Vieira mirou diretamente o Instituto Rio Metrópole e o que apontou como movimentações suspeitas de seu presidente. O então deputado chamou de “milagre das licitações, milagre dos milhões” o que passou a acontecer na autarquia sob a gestão de Didê — que, na época, já tinha no histórico uma prisão no auge da pandemia de Covid-19, no escândalo envolvendo a compra de respiradores.
Nos bastidores da Alerj e do próprio governo, o comentário geral era de que o presidente do IRM não fazia questão alguma de esconder suas reais intenções. Segundo os relatos, Didê dizia abertamente a interlocutores que estava ali para pagar dívidas de campanhas de alguns aliados do governo.
Em seu discurso, Léo Vieira afirma, ainda, que Didê se gabava, após “tomar muito vinho”, de presentear o governador com relógios Rolex e passagens aéreas, o que, para ele, seria motivo para acender o “sinal vermelho”.
No mesmo discurso, Vieira afirma que fez questão de enviar mensagens de alerta diretamente aos que eram, na época, os principais operadores do Palácio Guanabara: o secretário de Governo Rodrigo Abel, o secretário de Casa Civil Nicola Miccione, o secretário André Moura e o presidente da Alerj Rodrigo Bacellar.
“A mensagem que eu mandei é: da mesma forma que eu avisei Witzel, estou avisando para você, para avisar o governador. O novo Lucas Tristão do governo do Estado chama-se Didê. Eu espero que ele possa corrigir antes que seja tarde”, disse Leo Vieira, em referência ao ex-secretário estadual que foi alvo de operações na gestão Witzel por desvios na Saúde.
Didê foi preso em 2026 por desvios no IRM
O “tarde demais” chegou dois anos depois. A operação do MPRJ, deflagrada na última quinta (09), revelou que o IRM havia se tornado um verdadeiro balcão de negócios ilícitos, operando por meio de direcionamento de licitações e desvio de verbas públicas.
As investigações detalham uma engrenagem sofisticada de corrupção que envolve figuras do alto escalão do instituto e empresários. Entre eles, estão:
- A “Mulher da Mala”: Caroline Soares Barros, ex-fiscal de contratos do IRM e presidente da ONG Instituto BIO, que acumulava a função de operadora financeira. Ela realizava saques massivos de dinheiro em espécie e contava com escolta armada para transportar os valores.
- Os familiares de Knoploch: Mauricio Silva Knoploch — diretor de planejamento e pai do ex-deputado Alexandre Knoploch — é apontado como o articulador do direcionamento das licitações. Sua nora, Amanda Íthala Santos da Paschoa, que o sucedeu na fiscalização e, supostamente, atestava a execução dos contratos fraudulentos, foi presa.
- Policial da escolta: o delegado da Polícia Civil e diretor do IRM, Franquis Dias Nepomuceno, é apontado como ordenador de despesas e controlava de fato o grupo RioForte, responsável pela escolta armada do dinheiro desviado.
- Procurador do estado: Marcelo Lopes da Silva, procurador do Estado do Rio e chefe da Procuradoria-Geral do IRM, foi preso sob a acusação de emitir pareceres sob encomenda para dar cobertura jurídica às contratações e reajustes ilegais
O esquema ainda contava com o suporte de empresas como a Engeconsult (representada por Gerson Luís de Araújo Rodrigues e Hélio Augusto Machado Pessôa) e a R. Peotta (de Roberto Accioly Peotta e Roberto Peotta), utilizadas, segundo as investigações, para triangular e escoar os recursos públicos.
Quando Leo Vieira subiu à tribuna em 2024, ele implorou por uma convocação de Didê na CPI da Transparência para barrar o que chamou de “licitações absurdas”, como um certame de R$ 98 milhões para sistemas de tecnologia.
As suspeitas envolvendo o presidente do Rio Metrópole, no entanto, não foram investigadas à fundo na época. A demora saiu cara aos cofres públicos e à própria imagem da administração estadual. O escândalo de milhões que agora explode no colo do Palácio Guanabara deixa uma lição indigesta e categórica aos governantes: no Rio de Janeiro, quem ignora os avisos da história está condenado a repetir as piores páginas de suas crônicas policiais.
COM FÁBIO MARTINS

