Cerca de 32 milhões de brasileiros ainda vivem sem acesso à água tratada e 100 milhões sem coleta de esgoto. Para muitos deles, uma simples infecção intestinal é o suficiente para desorganizar tudo: a criança falta à escola, os pais perdem dias de trabalho e a renda encolhe. Semanas depois, o ciclo recomeça. Mesmo cenário, mesma causa.
Os números oficiais do governo federal, inclusive, mostram o tamanho do problema: somente em 2024, o Brasil registrou mais de 330 mil internações por doenças relacionadas à água contaminada, segundo o DataSUS.
Foi para enfrentar esse cenário que médicos, pesquisadores e agentes comunitários de saúde se reuniram no encontro “Saneamento e Saúde em Diálogo”, promovido pela Águas do Rio, empresa da Aegea, na Zona Portuária. O debate girou em torno dos impactos da precariedade sanitária no cotidiano das comunidades e do papel do saneamento como ferramenta de transformação social.
Os ‘diamantes do SUS’ na linha de frente
Médica pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, Margareth Dalcolmo participou do encontro e classificou os agentes comunitários de saúde como os “diamantes do SUS”. Para ela, esses profissionais são capazes de transformar orientação técnica em prevenção dentro das comunidades, criando vínculos de confiança e aproximando informação de quem mais precisa.
“Sem vocês, tudo que nós fazemos cai por terra. São os agentes que levam a informação para dentro das comunidades, que convencem, que acompanham. Eles são fundamentais para que as transformações trazidas pelo saneamento de fato cheguem a quem mais precisa”, afirmou Dalcolmo, que também é embaixadora do projeto Saneamento Salva, plataforma da Aegea que reúne dados, notícias e análises sobre os avanços do setor no país.

Maria Fantinatti Fernandes, pesquisadora e doutora em Ciências pela Fiocruz, foi outra especialista a participar do debate e alertou para os impactos da falta de saneamento sobre o desenvolvimento infantil. A especialista destacou que crianças expostas continuamente à água contaminada e ao esgoto convivem com infecções intestinais recorrentes capazes de comprometer a absorção de nutrientes essenciais ao crescimento e ao desenvolvimento cognitivo.
“Quando falamos de saneamento, falamos de futuro. Uma criança que cresce exposta ao esgoto tem seu desenvolvimento comprometido, e isso afeta o aprendizado, a saúde ao longo da vida e, no fim, as chances que ela terá. As doenças geradas pela falta de saneamento acabam prendendo essa criança a uma vida na pobreza”, explicou Fantinatti.

Para o presidente do Instituto Aegea, Édison Carlos, um dos maiores desafios do país é romper com a naturalização histórica da precariedade sanitária. Segundo ele, gerações inteiras cresceram sem experimentar algo básico: abrir a torneira e confiar na água que chega às casas.
“Quem sempre teve saneamento nem sempre percebe a importância desse serviço. E quem nunca teve acaba naturalizando situações de risco. É uma injustiça que a gente precisa nomear e enfrentar”, afirmou.
Ampliar infraestrutura para reverter cenário histórico
No Rio de Janeiro, a ampliação da infraestrutura aparece como uma das principais apostas para enfrentar esse cenário. Desde novembro de 2021, a Águas do Rio já investiu R$6,3 bilhões em obras de abastecimento e coleta e tratamento de esgoto, beneficiando diretamente 3,5 milhões de pessoas nos 27 municípios onde atua. Ao longo dos 35 anos de concessão, a previsão é que esse volume alcance R$24,4 bilhões, com meta de universalização dos serviços até 2033, conforme prevê o Marco Legal do Saneamento.

Um exemplo desse olhar está para o conjunto de favelas da Maré, na Zona Norte carioca, que recebeu os primeiros moradores nos anos de 1940. Na região a concessionária vai investir R$120 milhões para coletar e tratar o esgoto dos seus 200 mil moradores, além de também garantir a universalização no abastecimento de água. As obras devem ser concluídas até dezembro do ano que vem.
Os impactos da expansão do saneamento também devem alcançar a economia. Segundo o Trata Brasil, a universalização dos serviços apenas na área atendida pela concessionária pode gerar economia de R$101,4 milhões em despesas médicas até o fim da concessão. Outros R$4,9 bilhões devem ser gerados em produtividade até 2056.
Informação como ferramenta de prevenção
Foi pensando em fortalecer o trabalho de quem atua diretamente nas comunidades que a Águas do Rio lançou, durante o evento, a cartilha educativa “Saneamento Básico é Vida”, voltada aos agentes comunitários de saúde que atuam em Clínicas da Família e Centros de Saúde do Rio e da Baixada Fluminense.
O material reúne orientações acessíveis sobre como reconhecer doenças transmitidas pela água e pelo esgoto, limpar corretamente a caixa d’água e entender os benefícios das obras da Águas do Rio.
O agente comunitário de saúde Alexandre Silva resumiu bem o que esses encontros significaram na prática.
“Estamos recebendo informações bem específicas sobre saneamento, o que está ajudando no nosso trabalho. Por exemplo, a gente agora sabe como orientar da forma mais correta sobre a limpeza da caixa d’água e explicar para o morador a importância desse hábito para a qualidade da água que ele bebe”, contou.
Para Tâmara Mota, gerente de Responsabilidade Social da concessionária, a cartilha só funciona porque foi construída junto com os agentes de saúde.
“O conhecimento técnico só chega às famílias quando passa pelo filtro da experiência desses profissionais. Eles são o elo”, afirma.

