Demorou, mas chegou. Por inexplicáveis razões somente esta semana o notório presidente dos Estados Unidos surgiu no papo etílico-esportivo-político-literário-eclético do chope semanal dos meus amigos. Contrariando as frequentes ausências, provocadas por internações hospitalares ou achaques naturais da idade, naquela tarde a frequência foi tão grande que ao chegar, atrasado como sempre, encontrei o recinto lotado. Mas, apesar disso, o silêncio atencioso era grande, demonstrando a importância do assunto em pauta.
O papo já rolava solto e a conversa se dividia entre a falta de sanidade mental de Donald Trump, como diziam uns, ou a sua maldade, pois, segundo outros, classificá-lo como louco era livrar a cara do bicho dando álibi para suas atitudes ditatoriais. “E imperialistas!”, gritou alguém do outro lado do salão.
Nelsinho, sempre didático, dizia que era perda de tempo debater aquilo, uma vez que a popularidade do presidente americano estava caindo tanto, mas tanto, que nas eleições de novembro os democratas fariam maioria e ele, pelos inúmeros atropelos que estava fazendo à Constituição americana, inevitavelmente seria “impichado”. Ainda estava expondo seus pontos de vista quando foi interrompido pelo Caladinho, que a cada dia perde a razão de ser do seu apelido.
– Como assim, e se Donald Trump roubar as eleições? Vocês leram o que a The Economist publicou recentemente sobre essa possibilidade? É preocupante e faz sentido. A revista apontou a gestação de mais de 100 manobras para interferir nas eleições de 3 de novembro. E o levantamento foi todo baseado em atos e declarações originadas na Casa Branca, e tratam de intricadas estratégias legais elaboradas a partir de consultas a procuradores, juristas e até chefes de seções eleitorais. Caladinho, percebendo a atenção da turma, tomou um gole de chope e continuou:
– Estou me estendendo demais, mas a atenção de vocês me autoriza a detalhar essas manobras, algumas muito previsíveis quando lembramos o passado do Trump. Em 2016 quando perdeu a primária republicana de Iowa para o senador Ted Cruz, ele já mostrou quem era, afirmando que fora roubado, mas nunca se preocupou em provar. Quando perdeu a reeleição para Joe Biden afirmou ter havido fraude na apuração dos votos e estimulou a invasão do Capitólio, demonstrando a sua vocação de golpista, anteriormente revelada ao afirmar aos evangélicos “está será a última vez que vocês precisarão ir às urnas”.
– Sim, Caladinho, mas até agora você só falou do passado, e onde estão as manobras atuais para “melar” as eleições de novembro? – questionou Marcelo Boia.
– Calma, amigo, não estou inventando nada, estou traduzindo o artigo da renomada revista inglesa. Mas vamos ao que você pediu. O artigo mostra que este ano Trump já por algumas vezes falou que “pensando bem, nem deveríamos ter eleições” ou que “a administração do pleito e a contagem dos votos deveria ser feita pela Casa Branca”. Recentemente ele promulgou ato executivo que federaliza as eleições (nitidamente inconstitucional, segundo renomados juristas) e enviou ao Congresso projeto que dificulta o voto à distância e aumenta a burocracia para o voto de mulheres (a maior parte vota nos democratas) que adotaram o sobrenome dos maridos. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, vem repostando opiniões de pastores evangélicos que defendem o “voto em família”, decidido pelo cabeça do casal: o marido. Some-se a isso a pressão aos estados republicanos para redimensionar e redesenhar os distritos eleitorais reduzindo o número de cadeiras dos democratas. Vocês estão achando que parou por aí? Não. Estão sendo detalhados planos para interferência direta nas eleições, como batidas de oficiais da Imigração em bairros com eleitores latinos exatamente no dia 3 de novembro, e a apreensão de urnas que os fiscais republicanos, na maioria militantes trumpistas, sem critérios predefinidos, considerarem suspeitas. Alguns estados sulistas estão propondo revisão de distritos eleitorais criados no passado para satisfazer cotas raciais. E então, amigos, ainda existe entre vocês alguém tão ingênuo ao ponto de que acredita que Donald Trump assistirá de braços cruzados a eleição de novembro? Ou que aceitará de bom grado sofrer um processo de impeachment? E não esqueçam que tem muita gente que acredita que ele tentará mudar o preceito constitucional que o impede de disputar a reeleição.
Fez-se silêncio geral, só interrompido quando uma nova rodada de chope fez o assunto migrar para algo muito mais importante: o rente empate entre Flamengo e Vasco.
Rio, 2026

