Depois de afirmar, em participação no podcast ‘Pode Garotinho?, que o “Palácio Guanabara é o gabinete do crime organizado no Rio de Janeiro”, o advogado Victor Travancas — nomeado assessor na Secretaria estadual da Casa Civil desde julho de 2025 — foi novamente exonerado. O ato foi publicado em edição extraordiária do Diário Oficial desta quinta-feira (12).
O “corte” do vídeo, publicado no perfil do ex-governador Anthony Garotinho no Instagram, foi excluído na noite desta quinta-feira (12). A fala de Travancas — que ocupou vários cargos no segundo escalão das administrações Cláudio Castro (PL), inclusive o de subsecretário no Gabinete do Governador — pegou até mesmo o apresentador de surpresa, visto que o advogado estava, justamente, dentro do governo no qual atribui duras críticas.
“E eu estou falando como alguém de dentro. Como eu te falei, eu não fui demitido. Eu estou no governo […] Pedi ontem para ser exonerado, mas ninguém me exonera. É uma coisa maravilhosa. Eu ontem mandei, daqui a pouco eu te mostro no WhatsApp: por favor, me exonerem, e não fui exonerado”, afirmou Victor Travancas.
Garotinho, por sua vez, afirmou ter sido a primeira pessoa a afirmar que “no Rio, o crime organizado subiu de patamar”.
“Antigamente todo mundo sabia do envolvimento de um policial, de um comandante de batalhão, de um delegado de polícia, com o crime. Mas nunca chegamos ao ponto de ter um secretário de Estado, um governador, um deputado. O relatório da Polícia Federal, que eu tive acesso, publiquei, diz que 35 deputados dos 70 tem ligação com algum tipo de crime. É verdade isso, Vitor? […] Você está fazendo uma afirmação aqui que reafirma tudo que eu disse e vai além. Ele está dizendo, senhoras e senhores, que o gabinete do crime organizado no Rio funciona no Palácio Guanabara”, disse o ex-governador.
Travancas entra com ações judiciais contra colegas, e depois retira
Polêmico e confuso, Travancas ficou conhecido por fazer denúncias públicas contra as administrações das quais participa. Além do governo Castro, adotou a prática na prefeitura administrada por Marcelo Crivella (Republicanos). Alardeia que entra com ações judiciais contra colegas servidores, secretários e presidentes de estatais — mas, depois, retira. Ano após ano, busca a Justiça para impedir o desfile das escolas de samba, alegando que a edificação do Sambódromo não cumpre os requisitos mínimos de segurança.
Em várias ocasiões, Travancas divulgou ter pedido demissão, mas acabou não saindo do governo.
O que diz Travancas
O agora ex-assessor enviou nota sobre o assunto. Eis a íntegra:
“Conforme consta no processo administrativo SEI nº SEI-150001/001123/2026, minha exoneração do Governo do Estado ocorreu a meu próprio pedido, motivada pela impossibilidade ética de concordar com práticas que entendo incompatíveis com os princípios da legalidade, moralidade e probidade administrativa que regem a Administração Pública.
No que se refere à afirmação de que eu retiraria processos judiciais, é necessário esclarecer que a condução, manutenção ou desistência de ações judiciais constitui prerrogativa profissional do advogado, assegurada pela legislação processual e pela jurisprudência dos tribunais brasileiros, não havendo qualquer irregularidade no exercício desse direito.
Cumpre ainda recordar que minha atuação jurídica sempre esteve voltada à defesa do interesse público. Foi por meio de ações judiciais por mim propostas que se obteve o afastamento por nepotismo do filho do então prefeito Marcelo Crivella. Do mesmo modo, importantes iniciativas de transparência administrativa — como a divulgação dos salários da Prefeitura do Rio de Janeiro antes mesmo da Lei de Acesso à Informação — decorreram de medidas judiciais que patrocinei.
Também é amplamente conhecido que a denúncia do escândalo envolvendo a Fundação CEPERJ teve origem em representações e iniciativas jurídicas de minha autoria, fato amplamente noticiado pela imprensa e atualmente objeto de investigação por órgãos competentes.
Por essa razão, desafio publicamente qualquer pessoa a apresentar qualquer acusação concreta que me atribua envolvimento com práticas de corrupção. Ao longo de 25 anos de vida pública, sempre atuei com independência e compromisso com a Constituição e com o Estado de Direito.
Sou advogado, mestre e doutor em Direito Constitucional, e não coaduno com qualquer prática de corrupção.
Reafirmo, por fim, aquilo que já declarei publicamente: há graves indícios de captura institucional que transformaram o Palácio Guanabara em um espaço de poder permeado por interesses incompatíveis com a ética pública, situação que exige investigação rigorosa pelas autoridades competentes”.

