A galera está soltinha, soltinha na pista usando… tornozeleira eletrônica! Sim, é verdade! O uso do equipamento fake ultrapassou há muito o nicho das sátiras políticas no carnaval. A garotada, e não só ela, compra a tornozeleira para tirar onda em bailes, botequins e atrair mulheres. Os relatos são basicamente de homens usando o estratagema. E há quem garanta que funciona muito bem.
‘Mandei que era homicídio. Ela ficou de cara’
“Eu estava no botequim, e a mulher já chegou perguntando qual era a da tornozeleira. Mandei pra ela que era homicídio. Ela ficou de cara, tomamos uma cerveja e rolou”, contou um camarada, de uns 40 anos, que estava no camelódromo da Uruguaiana e viu quando o repórter, sem se identificar, perguntava sobre em que lugar conseguiria comprar uma.
Esse mesmo rapaz disse que não tem medo de acontecer algum problema por causa do uso. Conta até já ter levado uma “dura” da polícia.
“Como eu não devo nada, foi de boas. O polícia até deu risada quando eu disse que era para pegar mulher”, relata.
“Você quer pagar quanto? Custa R$ 300, mas a gente pode negociar o preço”, disse o primeiro comerciante que se aproximou.
Ele foi logo explicando que a venda tem que ser feita “no sapatinho”. Do mesmo jeito que os remédios abortivos e para disfunção erétil, que também foram oferecidos ao repórter enquanto ele desenrolava o preço da tornozeleira e jogava uma conversa de João Sem Braço querendo saber se essa moda pegou mesmo e funciona na hora da conquista.
“Pô, claro que funciona. As mulheres ficam doidinhas”, contou um outro vendedor, que se aproximou ao ver a rodinha de caras dando risada.
Falsos assassinos e assaltantes de banco fazem sucesso
Os falsos crimes usados como fachada pelos “galãs” são vários. Mas, segundo a pequena amostragem de gente experiente no tema, o que mais seduz é se dizer homicida ou assaltante de branco. Tráfico também tem seu charme, o problema é que o cara precisa ostentar para comprovar seu perfil de vendedor de drogas bem-sucedido, o que nem sempre é possível. Já ladrão de banco e assassino, além de garantir uma desculpa para estar sem nenhum no momento para pagar uma conta, parecem mexer com o imaginário das moças. Estelionatário ninguém quer ser. Por que será?
“No lugar onde moro está a maior febre disso. Os garotos estão comprando direto”, conta uma empregada doméstica, que não entende o que as meninas veem no acessório.
Preço do equipamento varia entre R$ 200 e R$ 300
Um pouco de pesquisa e gasto de saliva podem garantir preço mais em conta. O primeiro vendedor chegou a dizer que fazia por R$ 250. Outro rapaz mais adiante chegava a R$ 200. Realmente bem mais barato do que na internet, onde o produto está disponível em grandes sites de compras. Num deles, sai por R$ 372 sem luz piscando e R$ 392 com.
A tornozeleira é realmente igualzinha à original. Tem que ser especialista para distinguir uma da outra; O repórter, por causa de um certo clima de desconfiança que estava pintando, não teve a oportunidade de experimentar o acessório, que não fica à vista. Se o cara trouxesse lá de dentro ia querer concluir a venda.
Dependendo de como se usa, pode dar até prisão
A advogada criminalista Carolina Heringer diz que, a princípio, não vê crime no uso de uma réplica de tornozeleira eletrônica. Ela só acredita que exista problema se a finalidade for para cometer um crime, como se passar por membro de uma facção criminosa. Heringer alerta para a lei 15.358/2026, o Marco Legal de Combate à Organização Criminosa.
“Não é fácil de imputar essa acusação, mas pode acontecer”, explica ela, dando como exemplo casos em que o cidadão use a réplica para se dizer membro de facção e obter alguma vantagem de alguém. O mesmo vale em caso de uso para intimidação.
O texto do inciso VI diz: “Alegar falsamente pertencer a organização criminosa ultraviolenta, grupo paramilitar ou milícia privada que pratique ato previsto no art. 2º desta Lei, com o fim de obter qualquer tipo de vantagem ou de intimidar terceiros”. A pena para casos como esse é dura. A legislação prevê de 12 a 20 anos de prisão.
Heringer também alerta que a réplica pode não ser um problema, mas a verdadeira, sim. Isso no caso de bandidos de verdade terem rompido a tornozeleira e vendido depois o equipamento.
“A pessoa que compra para revender pode ser indiciada por receptação qualificada, e quem compra pode responder por receptação simples”, diz, explicando que em casos assim o simples uso já é um problema, independentemente de tentativa de obter vantagem com o acessório.
‘Acessório de estilo, ostentação e fetiche’
Uma busca simples na internet mostra que o gosto no mínimo inusitado dessa rapaziada faz realmente sucesso. Um dos textos diz que “o item deixou de ser apenas um adereço cenográfico para produções audiovisuais e passou a ser comercializado e consumido como acessório de estilo, ostentação e fetiche em festas ou na internet”. Em outros tópicos, há também a alegação de que o acessório ajuda a “Impor respeito”. Ou seja, o famoso “metido a brabo”.

